Quem já esperou notícias de alguém que viajou para um lugar sem sinal sabe como cada dia de silêncio pesa. A família de Percy Fawcett viveu essa espera por décadas. Em 1925, o explorador britânico entrou na mata de Mato Grosso com o filho mais velho e um amigo dele. Os três procuravam uma cidade antiga que ele chamava de Cidade Z. Nenhum deles voltou, e 101 anos depois ninguém sabe o que aconteceu com o grupo.
A última expedição de Percy Fawcett partiu de Cuiabá em 1925
Fawcett tinha 57 anos quando deixou Cuiabá, em abril de 1925, rumo ao norte de Mato Grosso. Iam com ele o filho Jack Fawcett e o melhor amigo do rapaz, Raleigh Rimell. Oficial de artilharia do Exército britânico, o explorador conhecia bem a América do Sul. Segundo o catálogo do arquivo da Royal Geographical Society, ele fez levantamentos de fronteira na Bolívia, no Peru e no Brasil entre 1906 e 1911.
A última notícia confiável do grupo é uma carta de 29 de maio de 1925, escrita num ponto que ele batizou de Dead Horse Camp, o acampamento do cavalo morto. Na mensagem à mulher, Nina, avisava que os três ficariam sem contato até o ano seguinte. O prazo passou, e o silêncio só virou alarme alguns anos depois.
O Manuscrito 512 alimentou a busca pela cidade perdida
Fawcett não tirou a Cidade Z do nada. Ele acreditava em relatos sobre ruínas de uma civilização antiga no interior do Brasil, e um deles pesava mais: o Manuscrito 512, guardado na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. Com o título “Relação histórica de uma oculta e grande povoação antiquíssima sem moradores”, o documento conta como bandeirantes teriam achado, no século 18, ruínas com arcos, praças e estátuas.
Um artigo do historiador Johnni Langer na Revista Brasileira de História conta que o naturalista Manuel Ferreira Lagos encontrou o manuscrito em 1839. Depois, ele o entregou ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Langer mostra que as ruínas descritas lembram mais as ideias arqueológicas europeias da época do que as cidades coloniais portuguesas. Para muitos pesquisadores, o texto é ficção, mas o explorador britânico o levava a sério.
Pesquisas no Alto Xingu revelaram assentamentos pré-colombianos
A ciência confirmou parte da intuição de Fawcett, mas nada parecido com uma metrópole de pedra. No Alto Xingu, em Mato Grosso, arqueólogos mapearam grandes aldeias organizadas em torno de praças e cercadas por muros de terra. O estudo Urbanismo pré-colombiano, paisagens antropogênicas e o futuro da Amazônia saiu no periódico Science, em 2008. A equipe, liderada por Michael Heckenberger, contou com pesquisadores do povo Kuikuro.

Segundo a Universidade da Flórida, os maiores núcleos tinham cerca de 60 hectares e foram ocupados entre 1250 e 1650. É provável que doenças trazidas pelos europeus tenham matado a maior parte dos moradores. Um dos sítios, Kuhikugu, costuma ser associado à Cidade Z. A Amazônia guarda outras estruturas antigas que ficaram séculos escondidas sob a mata.
Mais de 400 geoglifos escavados há mais de 2.500 anos na Amazônia com estruturas de até 350 metros…➔
O que aconteceu com Percy Fawcett, o filho e o amigo?
Ninguém sabe ao certo, e é isso que mantém o caso vivo. As hipóteses mais aceitas incluem doença, fome, ataque de animais ou conflito com povos da região. Os Kalapalo relataram ter visto a fumaça do acampamento por alguns dias, até ela sumir. Eles sempre negaram ter matado os viajantes.
Várias expedições tentaram refazer a rota, entre elas a do escritor britânico Peter Fleming, em 1932. No começo dos anos 1950, o sertanista Orlando Villas-Bôas apresentou ossos que seriam do explorador. O acervo da Royal Geographical Society guarda um relatório sobre esses restos feito para o Royal Anthropological Institute. A análise concluiu que os ossos não eram dele.
Se a história despertou sua curiosidade, um cuidado ajuda: desconfie de vídeos e postagens que anunciam ter encontrado a Cidade Z ou os restos de Fawcett sem citar estudo ou instituição. A parte comprovada já rende uma ótima leitura. As pesquisas no Xingu também lembram que a floresta guarda o passado de povos indígenas reais, cujo território e cuja memória merecem respeito.
A floresta também guarda histórias de projetos estrangeiros que deram errado no meio da mata. Uma delas é a cidade que um industrial americano mandou erguer no Pará.




