Morcegos e preguiças conseguem dormir pendurados porque suas mãos e pés são adaptados para manter a posição de agarrar com pouquíssimo esforço muscular. O detalhe é que os dois animais não usam exatamente o mesmo mecanismo: nos morcegos existe, em muitas espécies, um verdadeiro sistema de travamento dos tendões, enquanto nas preguiças o suporte depende principalmente das garras curvas, dos tendões e da própria geometria dos membros.
Nos morcegos, o pé funciona quase como uma catraca
Quando um morcego se pendura, os músculos flexores puxam os tendões que dobram os dedos ao redor da superfície. Em muitas espécies, esses tendões possuem pequenas estruturas que se encaixam em saliências dentro da bainha que os envolve, formando um mecanismo comparado a uma catraca biológica.
Com o sistema encaixado, o tendão não desliza facilmente no sentido que faria os dedos se abrirem. Assim, o morcego pode reduzir muito a contração muscular e continuar agarrado. Um estudo anatômico publicado no Journal of Morphology descreveu esse mecanismo como uma adaptação que permite permanecer suspenso com baixo esforço muscular.
Outro estudo, disponível no PubMed, encontrou estruturas desse tipo em diferentes espécies de morcegos. Os pesquisadores observaram, porém, que o mecanismo não existe igualmente em todos os morcegos, mostrando que diferentes espécies podem apresentar soluções anatômicas distintas para permanecer penduradas.
Por que os dedos não abrem quando o morcego relaxa?
Em uma mão humana segurando uma barra, relaxar os músculos flexores faz a força de preensão desaparecer rapidamente. No morcego, a situação é diferente porque o tendão travado ajuda a manter os dedos flexionados mesmo quando a força muscular diminui. As garras também se encaixam nas irregularidades da superfície, aumentando a estabilidade.
Isso explica por que dormir não significa simplesmente perder a força e cair. Segundo a Bat Conservation International, quando os dedos se curvam durante o pouso, estruturas da bainha do tendão ajudam a mantê-lo na posição. O animal consegue, portanto, ficar pendurado por longos períodos gastando muito pouca energia.

Com as preguiças, o mecanismo é diferente
As preguiças também passam grande parte da vida suspensas, mas não há evidência de que possuam exatamente a mesma “catraca” encontrada em muitos morcegos. Elas contam com garras longas e curvas, mãos e pés em formato de gancho e tendões flexores especialmente adaptados ao suporte do corpo.
Quando a garra envolve um galho, parte da carga é transferida diretamente para os dedos, tendões e outras estruturas do membro. O próprio peso do animal mantém essas estruturas sob tensão. Isso significa que a preguiça não precisa ficar continuamente “apertando” o galho com a mesma intensidade que uma pessoa precisaria usar para permanecer pendurada pelas mãos.
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A preguiça também usa músculos, mas muito pouco
Durante algum tempo, foi sugerido que os tendões das preguiças poderiam funcionar como um sistema completamente passivo de travamento. Estudos biomecânicos mais recentes mostram uma situação mais complexa: os tendões ajudam bastante a sustentar o corpo, mas pequena atividade muscular também participa da manutenção da postura.
Uma pesquisa sobre a musculatura de preguiças-de-três-dedos, publicada e disponibilizada pela National Library of Medicine, aponta para uma combinação de tensão passiva dos tendões e baixos níveis de ativação muscular. Essa estratégia permite sustentar o corpo enquanto reduz o gasto energético, algo especialmente vantajoso para um animal de metabolismo lento.
As garras também fazem enorme diferença. Por serem muito curvas, elas funcionam mais como ganchos naturais do que como dedos humanos agarrando um objeto. Depois que o galho está dentro dessa curvatura, seria necessário modificar ativamente a posição do membro para desfazer o encaixe.
Então dormir não desliga completamente o sistema muscular?
Não. Durante o sono, o cérebro continua controlando funções automáticas e mantendo certo tônus muscular. Dormir não equivale a uma paralisia total dos músculos. Além disso, morcegos e preguiças dependem muito menos da contração muscular contínua para permanecer agarrados do que um ser humano dependeria.

Por que eles só soltam quando querem se mover?
Para abrir os dedos ou mudar a posição, o animal precisa alterar deliberadamente a configuração das articulações, tendões e músculos. No morcego, isso inclui liberar o sistema que mantém o tendão flexor estabilizado; na preguiça, envolve retirar a carga e reposicionar seus dedos e garras.
Por isso a melhor maneira de visualizar o fenômeno não é pensar em uma mão que precisa ficar constantemente “apertando”. Nos morcegos, ela se aproxima de uma garra com trava; nas preguiças, de um conjunto de grandes ganchos sustentados por tendões e pequena atividade muscular. Essa anatomia permite que os dois animais durmam pendurados sem que mãos ou pés simplesmente se abram quando relaxam.



