Abrir um jornal ou livro do início do século XX pode causar estranhamento: aparecem formas como pharmacia, therapeutico, analyse e annos. Não era outro idioma, mas uma ortografia muito mais ligada à origem histórica das palavras, que acabou simplificada por reformas que aproximaram a escrita portuguesa de sua pronúncia real.
Pharmacia parecia complicada porque carregava a origem da palavra
Durante muito tempo, a escrita portuguesa seguiu uma tradição fortemente etimológica. Isso significava conservar letras e combinações herdadas ou reconstruídas a partir do latim e do grego, mesmo quando elas já não correspondiam a sons diferentes na fala cotidiana.
É nesse cenário que aparecem grafias como pharmacia, philosophia e therapeutico. O leitor precisava aprender grupos como PH e TH mesmo que, na pronúncia portuguesa, eles correspondessem basicamente aos sons representados de maneira muito mais simples por F e T.

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A reforma de 1911 decidiu aproximar escrita e pronúncia
Portugal promoveu em 1911 uma grande reforma oficial da ortografia. O Formulário Ortográfico de 1911 tinha justamente o objetivo de regularizar e simplificar a escrita, eliminando diversos sinais considerados desnecessários para representar a pronúncia portuguesa.
O documento determinou que o grupo PH fosse substituído por F e que o H fosse eliminado de grupos como TH e RH. Assim, formas que lembravam diretamente a grafia grega ou latina deram lugar a palavras muito próximas das que usamos hoje.
Farmácia, terapêutico e anos mostram a mudança na prática
Uma explicação do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa registra exemplos claros dessa transição. Pharmacia virou farmácia, therapeutico tornou-se terapêutico e annos passou a ser escrito simplesmente como anos.
O mesmo período atingiu outras grafias que hoje parecem quase estrangeiras. “Analyse”, por exemplo, perdeu o Y etimológico e acabou consolidada como análise, enquanto diversas palavras deixaram para trás sequências de letras que já não correspondiam a diferenças percebidas na fala.
As consoantes dobradas também foram reduzidas
Palavras antigas podiam apresentar sequências como NN, LL, PP ou TT por motivos históricos, mesmo quando a duplicação não produzia um som diferente. O Formulário de 1911 determinou que as consoantes não fossem duplicadas quando a pronúncia não justificasse essa repetição.
Por isso, formas como annos perderam uma das letras e chegaram ao atual “anos”. A simplificação não significou acabar com todas as letras dobradas: combinações como RR e SS continuaram necessárias em palavras nas quais representam diferenças reais de pronúncia, como carro e passo.

No Brasil, a mudança seguiu um caminho próprio
A reforma portuguesa de 1911 não entrou automaticamente em vigor no Brasil. O próprio histórico anexado ao Acordo Ortográfico promulgado no Brasil lembra que aquela primeira grande reforma portuguesa não foi extensiva ao país, o que levou portugueses e brasileiros a manterem normas diferentes durante parte do século XX.
O Brasil teve suas próprias tentativas de padronização até chegar a acordos posteriores. No Formulário Ortográfico brasileiro de 1943, a Academia Brasileira de Letras já estabelecia claramente que PH deveria ser substituído por F e TH por T, registrando exemplos modernos como farmácia, fósforo e teatro.
A escrita ficou mais simples, mas não virou totalmente fonética
As reformas não tiveram como objetivo fazer cada palavra ser escrita exatamente como é pronunciada. O português continua preservando várias diferenças históricas, como S, SS, C, Ç e X representando sons que podem coincidir em determinadas palavras e regiões.
A grande transformação foi retirar muitas marcas etimológicas que exigiam memorização sem oferecer uma função prática clara na pronúncia. É por isso que uma página com “pharmacia”, “therapeutico” e “annos” ainda parece perfeitamente reconhecível como português, mas também imediatamente antiga: a língua permaneceu, enquanto a ortografia mudou.




