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Início Curiosidades

Farmácia já foi escrita “pharmacia”: por que o português abandonou PH, TH e letras dobradas?

Por Daniely Cardoso
18/09/2026
Em Curiosidades
Uma explicação do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa registra exemplos claros dessa transição.

Uma explicação do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa registra exemplos claros dessa transição.

Abrir um jornal ou livro do início do século XX pode causar estranhamento: aparecem formas como pharmacia, therapeutico, analyse e annos. Não era outro idioma, mas uma ortografia muito mais ligada à origem histórica das palavras, que acabou simplificada por reformas que aproximaram a escrita portuguesa de sua pronúncia real.

Pharmacia parecia complicada porque carregava a origem da palavra

Durante muito tempo, a escrita portuguesa seguiu uma tradição fortemente etimológica. Isso significava conservar letras e combinações herdadas ou reconstruídas a partir do latim e do grego, mesmo quando elas já não correspondiam a sons diferentes na fala cotidiana.

É nesse cenário que aparecem grafias como pharmacia, philosophia e therapeutico. O leitor precisava aprender grupos como PH e TH mesmo que, na pronúncia portuguesa, eles correspondessem basicamente aos sons representados de maneira muito mais simples por F e T.

Durante muito tempo, a escrita portuguesa seguiu uma tradição fortemente etimológica.

Leia também: Se o “H” não tem som em português, por que ainda escrevemos homem, hoje e hora com ele?

A reforma de 1911 decidiu aproximar escrita e pronúncia

Portugal promoveu em 1911 uma grande reforma oficial da ortografia. O Formulário Ortográfico de 1911 tinha justamente o objetivo de regularizar e simplificar a escrita, eliminando diversos sinais considerados desnecessários para representar a pronúncia portuguesa.

O documento determinou que o grupo PH fosse substituído por F e que o H fosse eliminado de grupos como TH e RH. Assim, formas que lembravam diretamente a grafia grega ou latina deram lugar a palavras muito próximas das que usamos hoje.

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Farmácia, terapêutico e anos mostram a mudança na prática

Uma explicação do Ciberdúvidas da Língua Portuguesa registra exemplos claros dessa transição. Pharmacia virou farmácia, therapeutico tornou-se terapêutico e annos passou a ser escrito simplesmente como anos.

O mesmo período atingiu outras grafias que hoje parecem quase estrangeiras. “Analyse”, por exemplo, perdeu o Y etimológico e acabou consolidada como análise, enquanto diversas palavras deixaram para trás sequências de letras que já não correspondiam a diferenças percebidas na fala.

As consoantes dobradas também foram reduzidas

Palavras antigas podiam apresentar sequências como NN, LL, PP ou TT por motivos históricos, mesmo quando a duplicação não produzia um som diferente. O Formulário de 1911 determinou que as consoantes não fossem duplicadas quando a pronúncia não justificasse essa repetição.

Por isso, formas como annos perderam uma das letras e chegaram ao atual “anos”. A simplificação não significou acabar com todas as letras dobradas: combinações como RR e SS continuaram necessárias em palavras nas quais representam diferenças reais de pronúncia, como carro e passo.

Assim, formas que lembravam diretamente a grafia grega ou latina deram lugar a palavras muito próximas das que usamos hoje.

No Brasil, a mudança seguiu um caminho próprio

A reforma portuguesa de 1911 não entrou automaticamente em vigor no Brasil. O próprio histórico anexado ao Acordo Ortográfico promulgado no Brasil lembra que aquela primeira grande reforma portuguesa não foi extensiva ao país, o que levou portugueses e brasileiros a manterem normas diferentes durante parte do século XX.

O Brasil teve suas próprias tentativas de padronização até chegar a acordos posteriores. No Formulário Ortográfico brasileiro de 1943, a Academia Brasileira de Letras já estabelecia claramente que PH deveria ser substituído por F e TH por T, registrando exemplos modernos como farmácia, fósforo e teatro.

A escrita ficou mais simples, mas não virou totalmente fonética

As reformas não tiveram como objetivo fazer cada palavra ser escrita exatamente como é pronunciada. O português continua preservando várias diferenças históricas, como S, SS, C, Ç e X representando sons que podem coincidir em determinadas palavras e regiões.

A grande transformação foi retirar muitas marcas etimológicas que exigiam memorização sem oferecer uma função prática clara na pronúncia. É por isso que uma página com “pharmacia”, “therapeutico” e “annos” ainda parece perfeitamente reconhecível como português, mas também imediatamente antiga: a língua permaneceu, enquanto a ortografia mudou.

Tags: CulturaEducaçãohistórialiteratura
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