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Início Casa e Decoração

Quanto cobrar por uma peça de crochê: a conta com material, horas e acabamento para não trabalhar no prejuízo

Por João Victor
04/11/2026
Em Casa e Decoração
Artesã faz contas no caderno ao lado de uma bolsa de crochê

Artesã faz contas no caderno ao lado de uma bolsa de crochê. Imagem gerada por IA

Na hora de decidir quanto cobrar por crochê, a conta que o Sebrae apresenta como ponto de partida junta quatro blocos: o material (fio, insumos de acabamento e embalagem), as horas de trabalho multiplicadas por um valor de hora, uma parcela dos custos fixos da casa ou do ateliê e a margem de lucro. É o método de mark-up descrito no material Precificação no artesanato, que a instituição produziu em 2014 e mantém na sua biblioteca digital.

Ele serve para quem pretende aceitar encomendas neste Natal e ainda define preço olhando a vitrine de outra artesã. O Sebrae descreve três jeitos de formar preço (pelos custos, pela concorrência e pelo valor que o cliente percebe) e classifica o segundo como “precificação perigosa, pois não são considerados os custos e despesas do negócio”. Copiar o valor alheio pode significar vender abaixo do que a peça custou para você.

O ponto que mais escapa nas contas feitas de cabeça é o tempo. O PDF do Sebrae põe o salário do artesão entre os pontos de atenção e lembra que ele não remunera só as horas com a agulha na mão: entram a compra de matéria-prima, a capacitação e a presença em feiras. A Círculo, fabricante brasileira de fios, critica pelo mesmo motivo a velha regra de multiplicar os custos por três, que em geral deixa de fora os custos fixos e os variáveis.

Etiquetas de papel com preços presas em peças de crochê
Etiquetas de papel com preços presas em peças de crochê. Imagem gerada por IA

O material inclui acabamento, embalagem e taxa do cartão

No documento do Sebrae, os custos variáveis são a matéria-prima, os insumos de acabamento, a taxa de cartão de crédito e as embalagens. O guia de precificação da Círculo usa a mesma divisão e dá exemplos do outro lado: custos fixos são aluguel, internet e contas de energia, que existem mesmo em mês sem venda.

Numa peça de crochê, o fio é só o começo. Botão, forro de tecido, zíper, argola de alça, etiqueta com a marca, saquinho e papel de seda entram no custo de cada unidade. Se uma bolsa consome um novelo e meio, a conta registra um novelo e meio, e não a sacola inteira comprada na loja.

Embalagem não é só despesa. Segundo o Sebrae, investir nela ajuda a aumentar a percepção de valor de quem compra, o que pesa quando o produto vira presente de fim de ano.

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Como chegar ao valor da hora

A Círculo parte de quanto a artesã quer receber por mês e divide pelas horas trabalhadas. No exemplo da fabricante, 6 horas por dia em 5 dias por semana somam 30 horas semanais; multiplicadas por 4,3 semanas, dão cerca de 130 horas por mês. Com uma meta de R$ 1.500 mensais, a hora sai a aproximadamente R$ 11,53.

Aplicado ao sapatinho de bebê do exemplo da própria Círculo, esse valor da hora vira a maior fatia do preço: são R$ 23,06 de mão de obra num total de R$ 34,87.

Gráfico de barras horizontais com a composição do preço do sapatinho de bebê no exemplo da Círculo: mão de obra de 2 horas a R$ 11,53, R$ 23,06; material, R$ 6,00; margem de lucro de 20%, R$ 5,81; total de R$ 34,87.
Exemplo publicado pela Círculo: como mão de obra, material e margem de 20% formam o preço de R$ 34,87 de um sapatinho de bebê de crochê. Não é tabela de preço. Fonte: Círculo, guia Precificação: aprenda a calcular quanto cobrar por cada peça (exemplo da fabricante)

Com esse valor, o guia da Círculo calcula um sapatinho de bebê: 2 horas vezes R$ 11,53, mais R$ 6 de material, chegam a R$ 29,06. Uma margem de 20% acrescenta R$ 5,81 e leva o preço final a R$ 34,87. Os números são da fabricante, em texto datado de 2018, e mostram o caminho da conta, não uma tabela de preço.

Cronometrar as primeiras unidades de um modelo é o jeito mais honesto de descobrir quantas horas ele pede. Hora de crochê não fica de graça só porque o trabalho acontece no sofá de casa.

O mark-up do Sebrae divide, não multiplica

A fórmula do PDF é esta: preço de venda igual ao custo da mercadoria dividido por [1 menos (impostos + comissão + custo fixo + lucro) ÷ 100], com cada item em percentual. O custo fixo percentual, explica o Sebrae, é a média dos custos fixos mensais dividida pela média de vendas mensais. Na metodologia do Sebrae do Espírito Santo citada no documento, o custo do produto já soma as horas de produção, multiplicadas por um índice de hora, às despesas de insumo e matéria-prima.

Cachecol listrado em cinza, vinho e mostarda sendo tecido num tear de pente de madeira, ao lado de três novelos.
Cachecol de lã feito em tear, o tipo de peça usado no exemplo fictício de cálculo do Sebrae. Imagem gerada por IA

A divisão existe porque impostos, comissão, taxa e lucro incidem sobre o preço final, e não sobre o custo.

O documento traz um cachecol de lã feito em tear, com 3 novelos a R$ 7 e 4 horas por peça, que chega a R$ 46,31. O próprio Sebrae avisa que os dados do cálculo são fictícios e não devem ser usados pelos pequenos negócios; o cachecol serve só para ver a fórmula funcionando. A recomendação da instituição é direta: “Não existe forma ideal de precificação, recomenda-se que ela seja baseada em custos e com um olhar no mercado.”

Quanto cobrar por crochê na prática: uma bolsa hipotética

Os valores da tabela foram inventados por esta reportagem, redondos, para aplicar a estrutura do Sebrae a uma bolsa de crochê. Não são preço de mercado: cada artesã troca pelos próprios números.

Bolsa de crochê cor de areia aberta mostrando o forro estampado, com botão de madeira e alça presa por argolas douradas.
Forro, botão e argolas de alça entram na conta como insumos de acabamento. Imagem gerada por IA

No exemplo hipotético, a hora de R$ 15 sai de uma meta de R$ 1.950 por mês dividida pelas mesmas 130 horas do cálculo da Círculo. Os 5% de custo fixo supõem gastos fixos médios de R$ 100 mensais para vendas médias de R$ 2.000. Somados, os percentuais dão 25%, o divisor fica em 0,75 e a bolsa sai a R$ 280. A conferência fecha: 25% de R$ 280 são R$ 70, e o que sobra devolve exatamente os R$ 210 do custo.

Agora o erro comum, com os mesmos números do exemplo. Quem soma 25% em cima de R$ 210 cobra R$ 262,50. Quando taxa, custo fixo e lucro saem dessa venda, levam R$ 65,63 e deixam R$ 196,87, menos do que a bolsa custou. É o prejuízo que não aparece no caderno.

O exemplo não inclui imposto sobre a venda. Quem recolhe tributo proporcional ao faturamento acrescenta esse percentual à soma, como prevê a fórmula do Sebrae.

A comparação com o mercado antes do orçamento de Natal

Depois de formar o preço pelos custos, o Sebrae orienta compará-lo ao dos concorrentes com uma pesquisa de mercado. Se o valor fica muito acima, dá para revisar o modelo, o fio ou o tempo de execução; se fica muito abaixo, vale procurar o custo que ficou de fora. Em nenhum dos casos a conta vira garantia de venda: o documento lembra que um preço mal estabelecido pode levar a prejuízos, e um preço bem calculado apenas evita esse risco do lado dos custos.

Para quem já formalizou a atividade como MEI, a emissão de nota também muda de caminho em 2027, e o CB Radar explicou como a Nota Fiscal Fácil vira o caminho preferencial e gratuito do microempreendedor que vende mercadoria. E quem pensa em equipamento antes de ter o preço resolvido pode ler o caso da compradora de uma máquina de bordar profissional que chegou configurada para outra tensão elétrica.

A fórmula completa, com o cachecol fictício e os pontos de atenção, está no PDF do Sebrae sobre precificação no artesanato. O cálculo do valor da hora e do sapatinho aparece no guia de precificação da Círculo.

Tags: ArtesanatoCrochêprecificaçãoSebrae
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