Na hora de decidir quanto cobrar por crochê, a conta que o Sebrae apresenta como ponto de partida junta quatro blocos: o material (fio, insumos de acabamento e embalagem), as horas de trabalho multiplicadas por um valor de hora, uma parcela dos custos fixos da casa ou do ateliê e a margem de lucro. É o método de mark-up descrito no material Precificação no artesanato, que a instituição produziu em 2014 e mantém na sua biblioteca digital.
Ele serve para quem pretende aceitar encomendas neste Natal e ainda define preço olhando a vitrine de outra artesã. O Sebrae descreve três jeitos de formar preço (pelos custos, pela concorrência e pelo valor que o cliente percebe) e classifica o segundo como “precificação perigosa, pois não são considerados os custos e despesas do negócio”. Copiar o valor alheio pode significar vender abaixo do que a peça custou para você.
O ponto que mais escapa nas contas feitas de cabeça é o tempo. O PDF do Sebrae põe o salário do artesão entre os pontos de atenção e lembra que ele não remunera só as horas com a agulha na mão: entram a compra de matéria-prima, a capacitação e a presença em feiras. A Círculo, fabricante brasileira de fios, critica pelo mesmo motivo a velha regra de multiplicar os custos por três, que em geral deixa de fora os custos fixos e os variáveis.

O material inclui acabamento, embalagem e taxa do cartão
No documento do Sebrae, os custos variáveis são a matéria-prima, os insumos de acabamento, a taxa de cartão de crédito e as embalagens. O guia de precificação da Círculo usa a mesma divisão e dá exemplos do outro lado: custos fixos são aluguel, internet e contas de energia, que existem mesmo em mês sem venda.
Numa peça de crochê, o fio é só o começo. Botão, forro de tecido, zíper, argola de alça, etiqueta com a marca, saquinho e papel de seda entram no custo de cada unidade. Se uma bolsa consome um novelo e meio, a conta registra um novelo e meio, e não a sacola inteira comprada na loja.
Embalagem não é só despesa. Segundo o Sebrae, investir nela ajuda a aumentar a percepção de valor de quem compra, o que pesa quando o produto vira presente de fim de ano.
Como chegar ao valor da hora
A Círculo parte de quanto a artesã quer receber por mês e divide pelas horas trabalhadas. No exemplo da fabricante, 6 horas por dia em 5 dias por semana somam 30 horas semanais; multiplicadas por 4,3 semanas, dão cerca de 130 horas por mês. Com uma meta de R$ 1.500 mensais, a hora sai a aproximadamente R$ 11,53.
Aplicado ao sapatinho de bebê do exemplo da própria Círculo, esse valor da hora vira a maior fatia do preço: são R$ 23,06 de mão de obra num total de R$ 34,87.

Com esse valor, o guia da Círculo calcula um sapatinho de bebê: 2 horas vezes R$ 11,53, mais R$ 6 de material, chegam a R$ 29,06. Uma margem de 20% acrescenta R$ 5,81 e leva o preço final a R$ 34,87. Os números são da fabricante, em texto datado de 2018, e mostram o caminho da conta, não uma tabela de preço.
Cronometrar as primeiras unidades de um modelo é o jeito mais honesto de descobrir quantas horas ele pede. Hora de crochê não fica de graça só porque o trabalho acontece no sofá de casa.
O mark-up do Sebrae divide, não multiplica
A fórmula do PDF é esta: preço de venda igual ao custo da mercadoria dividido por [1 menos (impostos + comissão + custo fixo + lucro) ÷ 100], com cada item em percentual. O custo fixo percentual, explica o Sebrae, é a média dos custos fixos mensais dividida pela média de vendas mensais. Na metodologia do Sebrae do Espírito Santo citada no documento, o custo do produto já soma as horas de produção, multiplicadas por um índice de hora, às despesas de insumo e matéria-prima.

A divisão existe porque impostos, comissão, taxa e lucro incidem sobre o preço final, e não sobre o custo.
O documento traz um cachecol de lã feito em tear, com 3 novelos a R$ 7 e 4 horas por peça, que chega a R$ 46,31. O próprio Sebrae avisa que os dados do cálculo são fictícios e não devem ser usados pelos pequenos negócios; o cachecol serve só para ver a fórmula funcionando. A recomendação da instituição é direta: “Não existe forma ideal de precificação, recomenda-se que ela seja baseada em custos e com um olhar no mercado.”
Quanto cobrar por crochê na prática: uma bolsa hipotética
Os valores da tabela foram inventados por esta reportagem, redondos, para aplicar a estrutura do Sebrae a uma bolsa de crochê. Não são preço de mercado: cada artesã troca pelos próprios números.

No exemplo hipotético, a hora de R$ 15 sai de uma meta de R$ 1.950 por mês dividida pelas mesmas 130 horas do cálculo da Círculo. Os 5% de custo fixo supõem gastos fixos médios de R$ 100 mensais para vendas médias de R$ 2.000. Somados, os percentuais dão 25%, o divisor fica em 0,75 e a bolsa sai a R$ 280. A conferência fecha: 25% de R$ 280 são R$ 70, e o que sobra devolve exatamente os R$ 210 do custo.
Agora o erro comum, com os mesmos números do exemplo. Quem soma 25% em cima de R$ 210 cobra R$ 262,50. Quando taxa, custo fixo e lucro saem dessa venda, levam R$ 65,63 e deixam R$ 196,87, menos do que a bolsa custou. É o prejuízo que não aparece no caderno.
O exemplo não inclui imposto sobre a venda. Quem recolhe tributo proporcional ao faturamento acrescenta esse percentual à soma, como prevê a fórmula do Sebrae.
A comparação com o mercado antes do orçamento de Natal
Depois de formar o preço pelos custos, o Sebrae orienta compará-lo ao dos concorrentes com uma pesquisa de mercado. Se o valor fica muito acima, dá para revisar o modelo, o fio ou o tempo de execução; se fica muito abaixo, vale procurar o custo que ficou de fora. Em nenhum dos casos a conta vira garantia de venda: o documento lembra que um preço mal estabelecido pode levar a prejuízos, e um preço bem calculado apenas evita esse risco do lado dos custos.
Para quem já formalizou a atividade como MEI, a emissão de nota também muda de caminho em 2027, e o CB Radar explicou como a Nota Fiscal Fácil vira o caminho preferencial e gratuito do microempreendedor que vende mercadoria. E quem pensa em equipamento antes de ter o preço resolvido pode ler o caso da compradora de uma máquina de bordar profissional que chegou configurada para outra tensão elétrica.
A fórmula completa, com o cachecol fictício e os pontos de atenção, está no PDF do Sebrae sobre precificação no artesanato. O cálculo do valor da hora e do sapatinho aparece no guia de precificação da Círculo.




