Oito anos depois de o vizinho plantar uma árvore junto ao muro, Ricardo percebeu que o piso de sua garagem estava levantando e começando a trincar. Um profissional apontou as raízes como possível causa e o orçamento do reparo chegou a R$ 18 mil, abrindo uma dúvida comum: quem responde quando uma árvore de um imóvel começa a danificar a propriedade ao lado?
Raízes que ultrapassam a divisa podem ser cortadas pelo vizinho
O Código Civil possui uma regra específica para esse tipo de situação. O artigo 1.283 do Código Civil estabelece que raízes e ramos que ultrapassarem a divisa podem ser cortados, até o plano vertical divisório, pelo proprietário do terreno que estiver sendo invadido.
Isso significa que Ricardo não precisa necessariamente aceitar que as raízes continuem avançando pelo seu terreno. Contudo, cortar raízes grandes ou estruturais sem avaliação técnica pode comprometer a estabilidade e a saúde da árvore, além de existirem normas ambientais municipais sobre poda ou supressão que precisam ser verificadas antes de uma intervenção mais agressiva.

O direito de cortar as raízes não resolve o prejuízo já causado
No caso imaginado, o problema apareceu somente depois de vários anos, quando placas do piso começaram a subir. Se for tecnicamente demonstrado que as raízes provocaram os danos, a discussão deixa de envolver apenas a possibilidade de cortá-las e passa a incluir eventual responsabilidade pelo custo necessário para recuperar a garagem.
O artigo 186 do Código Civil considera ato ilícito a ação ou omissão, decorrente de dolo, negligência ou imprudência, que viole direito e cause dano a outra pessoa. Já o artigo 927 estabelece a obrigação de reparar o prejuízo quando estiverem presentes os requisitos legais de responsabilidade civil.
Os R$ 18 mil não seriam cobrados automaticamente do dono da árvore
Ter um orçamento de R$ 18 mil não significa que o vizinho automaticamente tenha uma dívida nesse valor. Em eventual disputa, Ricardo precisaria demonstrar a existência do dano, sua extensão, o custo razoável do reparo e, principalmente, o nexo entre as raízes e o piso levantado.
Fotos antigas e atuais, orçamentos detalhados, notas fiscais e uma avaliação de engenheiro, arquiteto ou outro profissional habilitado podem ajudar. Se houver dúvida sobre a causa, uma perícia técnica pode verificar se o problema realmente surgiu das raízes ou se fatores como movimentação do solo, drenagem inadequada ou defeitos anteriores também contribuíram.
Direito de vizinhança pode entrar na discussão
Além das regras específicas sobre árvores, o artigo 1.277 do Código Civil permite ao proprietário ou possuidor fazer cessar interferências prejudiciais à segurança, ao sossego e à saúde causadas pela utilização da propriedade vizinha. A análise considera localização, natureza do uso e os limites normais de tolerância.
O Superior Tribunal de Justiça destaca que os direitos de vizinhança existem justamente para conter interferências abusivas entre imóveis próximos. Isso não transforma qualquer folha, sombra ou raiz em dano indenizável, mas problemas estruturais comprovados podem produzir uma situação jurídica bastante diferente de um mero incômodo cotidiano.

O dono da árvore pode ser obrigado a removê-la?
A retirada completa não é uma consequência automática. Dependendo da espécie, do tamanho da árvore, da intensidade dos danos e das regras ambientais da cidade, podem existir alternativas como manejo das raízes, barreiras físicas, poda especializada ou outra solução capaz de interromper o problema sem derrubar o exemplar.
Se houver risco de queda ou comprometimento estrutural da árvore, a situação se torna ainda mais delicada e deve ser analisada por profissional capacitado. Em muitas cidades, cortar ou remover árvores exige autorização do órgão municipal competente, mesmo quando o exemplar está dentro de terreno particular, por isso agir por conta própria pode criar um segundo problema.
Notificar o vizinho antes do reparo ajuda a preservar provas
Ao encontrar o piso danificado, Ricardo poderia primeiro documentar tudo e comunicar formalmente o proprietário da árvore. A notificação permite registrar que o problema foi informado, solicitar uma avaliação conjunta e discutir medidas para impedir que as raízes continuem causando prejuízos enquanto se determina a origem do dano.
Também é prudente evitar quebrar todo o piso imediatamente se houver possibilidade de disputa, porque a obra pode eliminar evidências importantes sobre a trajetória das raízes. Quando o diálogo não produz solução, documentos técnicos e registros anteriores podem ser utilizados em uma tentativa de conciliação ou em eventual pedido judicial de reparação.
Oito anos de crescimento não eliminam a necessidade de provar a causa
O fato de a árvore ter sido plantada oito anos antes torna a hipótese das raízes plausível, mas o tempo sozinho não prova responsabilidade. Para decidir quem deve pagar pelo conserto, seria necessário avaliar onde a árvore está plantada, até onde as raízes avançaram, a condição anterior do piso e se o proprietário foi avisado sobre o problema e deixou de tomar providências razoáveis.
Se ficar demonstrado que as raízes provenientes do terreno vizinho provocaram diretamente o dano, pode haver fundamento para discutir ressarcimento. O valor de R$ 18 mil, porém, precisaria corresponder a reparos efetivamente necessários e comprovados, e uma eventual decisão dependeria das provas apresentadas e das circunstâncias específicas do imóvel.
Ricardo faz parte de uma história fictícia criada apenas para ilustrar
Ricardo e o caso descrito são fictícios, inclusive o período de oito anos e o orçamento de R$ 18 mil. A história serve apenas para ilustrar como as regras sobre raízes, direito de vizinhança e responsabilidade civil poderiam ser analisadas em uma situação semelhante, sem representar uma decisão judicial sobre um caso real.
Quem enfrenta um problema desse tipo deve fotografar os danos, obter avaliação técnica, conversar formalmente com o vizinho e consultar as normas ambientais da prefeitura antes de cortar raízes importantes ou remover a árvore. Se houver prejuízo relevante e não for possível chegar a um acordo, a análise de um profissional do Direito pode indicar quais medidas são adequadas às provas e regras locais.




