Um senador decidiu não receber o próprio salário por pouco mais de um mês. A cifra em jogo passa de R$ 46 mil mensais.
Romário anunciou que renunciaria aos subsídios parlamentares durante o período em que cobriu a Copa do Mundo de 2026 como comentarista. A decisão não veio sozinha: ela respondeu a uma enxurrada de críticas, e a forma como ele estruturou a renúncia explica por que não pediu licença do cargo.
O que exatamente ele abriu mão, e quando
A renúncia tem data de início e de fim. Romário informou que abriria mão dos subsídios entre 11 de junho e 19 de julho de 2026, exatamente o período em que acompanhou o Mundial nos Estados Unidos.
Não é uma devolução de “parte” do salário nem algo recorrente, mês após mês. É a renúncia integral ao subsídio de um intervalo específico, pouco mais de um mês. Fora dessa janela, a remuneração segue normal.

Quanto vale o salário em questão
O número dá a dimensão do gesto. Um senador recebe atualmente R$ 46,4 mil por mês de subsídio, o mesmo valor pago a deputados federais, ministros e ministros do Supremo.
Como o período da renúncia cobre cerca de 38 dias, o valor abandonado gira em torno de um subsídio mensal cheio, mais uma fração. É esse montante que Romário se comprometeu a devolver aos cofres públicos caso fosse depositado.
Como funciona a devolução na prática
Renunciar ao salário no serviço público não é apertar um botão. Por isso Romário adotou um caminho formal, com dois passos.
Primeiro, encaminhou um ofício à Presidência do Senado pedindo a suspensão dos pagamentos no período. Segundo, autorizou que, se algum valor caísse na conta por questão operacional, o desconto fosse feito integralmente nas remunerações seguintes, com a devolução dos recursos.
Na fala dele, registrada em pronunciamento remoto no plenário em 30 de junho, a promessa foi direta: nenhum salário recebido no período, e o que fosse pago, devolvido. É aqui que entra a parte mais debatida da história.
• Pauta legislativa prioritária citada: Votação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) do fim da escala 6×1.
• Canal de controle público: Transparência e prestação de contas no Portal do Legislativo.
• Status do deslocamento: Viagem de caráter inteiramente particular e sem ônus financeiros à instituição.
Por que ele não pediu licença, o ponto central
A pergunta óbvia é: se não ia trabalhar em Brasília, por que não se licenciar? A resposta de Romário é o coração da polêmica.
Segundo o senador, licenciar-se o impediria de votar remotamente. E havia uma votação que ele não queria perder: a da PEC que propõe o fim da escala de trabalho 6×1, matéria que declarou apoiar. Ao permanecer no exercício do mandato pelo sistema semipresencial, ele manteve o direito de registrar presença e votar de qualquer lugar.
Foi essa combinação, seguir no cargo enquanto trabalhava como comentarista da CazéTV, que gerou as críticas. A renúncia ao salário foi a forma que ele encontrou de responder a elas sem abrir mão do voto.
O contexto que o eleitor precisa para julgar
Vale separar os fatos das interpretações. A viagem foi comunicada ao Senado como deslocamento particular, sem custos para a Casa, e o senador usou o sistema de votação remota já disponível a todos os parlamentares.
De um lado, críticos questionaram a compatibilidade entre o mandato e a função de comentarista. De outro, o senador sustentou que continuou representando o Rio de Janeiro nas votações e abriu mão da remuneração do período. O comunicado oficial da assessoria do senador reforça que a decisão partiu dele próprio.

Para dimensionar o gesto, ajuda saber o quanto pesa cada cadeira: um deputado federal custa cerca de R$ 3,5 milhões por ano aos cofres públicos somando salário, verbas e estrutura, e todos esses gastos podem ser acompanhados no portal de transparência do Legislativo. Diante desse volume, a renúncia de pouco mais de um mês de subsídio é simbólica em valor, mas central no debate sobre o que se espera de um parlamentar.
O que fica daqui para frente é a régua. Ao transformar salário em resposta a uma crítica, Romário colocou sobre a mesa uma pergunta que vai além dele: até que ponto o eleitor aceita que um mandato conviva com outra atividade remunerada. A devolução encerra a conta financeira do episódio; o debate sobre dedicação ao cargo, esse, segue aberto. Quem quiser acompanhar carreiras públicas de perto pode começar entendendo como o próprio cidadão resolve suas obrigações com o Estado pelo celular.
Este conteúdo é informativo e busca apresentar os fatos e os diferentes pontos de vista sobre o episódio, sem defender posição político-partidária.

