Uma veneziana ou cortina fechada por dentro reduz em 17% o ganho solar de uma janela de vidro comum. O número vem de Koenigsberger (1980) e é reproduzido pelo ProjetEEE, plataforma do Ministério de Minas e Energia desenvolvida com a Eletrobras, o Procel e a Universidade Federal de Santa Catarina. Ou seja: mais de 80% do calor que o sol joga sobre o vidro continua entrando, cortina puxada ou não.
É aí que mora o argumento dos engenheiros a favor do toldo, do brise ou da veneziana do lado de fora: um toldo na janela reduz calor porque barra a radiação antes de ela tocar o vidro, e não depois. A cortina interna trabalha com o calor que já está na sala. A proteção externa impede que ele chegue.
Por que a cortina fechada por dentro chega tarde para o calor?
O vidro deixa a luz do sol entrar e não deixa o calor sair.
A radiação solar atravessa o vidro como onda curta, bate na cortina e é devolvida como onda longa, isto é, como calor. Só que o vidro comum é opaco à onda longa: o calor fica preso entre o tecido e a vidraça e aquece a própria cortina, que vira um radiador pendurado na parede. O ProjetEEE resume o defeito da proteção interna em uma frase: ela não impede “a penetração da radiação solar direta, que é obstruída pela cortina após ter passado pelo vidro”. A cortina bonita é um gasto de decoração que se apresenta como gasto de conforto.
Como funciona o toldo na janela que reduz calor antes do vidro?

O toldo faz o mesmo que a copa de uma árvore: coloca a sombra do lado de fora. Interceptada antes do vidro, a radiação direta vira calor do lado de fora, onde o ar o dissipa; à janela chega só a luz difusa do céu. O ProjetEEE lista o toldo entre as proteções horizontais externas, ao lado do beiral, da veneziana externa e da pérgula, e faz uma ressalva que interessa a quem compra: o material deve ter baixa capacidade térmica, para esfriar rápido depois que o sol se põe. Em português de loja, lona ou tela clara em vez de chapa maciça e escura. A mesma página conclui que o sombreamento externo reduz mais os ganhos térmicos do que a troca do tipo de vidro, o que vale para quem pensa em vidro refletivo antes de pensar em sombra.
Quanto de calor uma janela oeste despeja na sala às 16h?
Uma aula do LabEEE, laboratório de eficiência energética da UFSC, faz essa conta.
O exercício toma uma janela voltada para oeste, latitude 30° sul, às 16h de 22 de dezembro, com radiação solar de 715 W/m², 33°C do lado de fora e 27°C do lado de dentro. Sem proteção, cada metro quadrado de vidro comum despeja 656,8 W na sala. Com persiana fechada, 420,9 W. Com veneziana, 99,1 W. A veneziana, no vocabulário do ProjetEEE, é uma proteção externa: a persiana fechada corta pouco mais de um terço, e o que fica do lado de fora corta cerca de 85%. Numa janela de 2 m², a diferença entre os dois extremos passa de 1.100 W, cerca de 40% da capacidade de um aparelho de 9.000 BTU/h, que remove aproximadamente 2.640 W de calor (1 BTU/h equivale a 0,293 W). Numa tarde de verão, quase metade do trabalho de um ar-condicionado pequeno pode ser gasto com uma única janela sem sombra. A conta é de guardanapo sobre os números do LabEEE; o consumo real depende do aparelho, da parede e do número de janelas, mas a ordem de grandeza é essa.
Onde a NBR 15220 manda sombrear as janelas?
Em cinco das oito zonas bioclimáticas do país, e são as mais populosas.
A ABNT NBR 15220-3, de 2005, divide o Brasil em oito zonas e, para cada uma, dá diretrizes de tamanho e proteção das aberturas. Nas zonas 1, 2 e 3 (Caxias do Sul, Ponta Grossa e Florianópolis), a orientação é permitir sol durante o inverno. Da zona 4 em diante, a instrução muda para duas palavras: “Sombrear aberturas”. Entram nessa regra Brasília (zona 4), Santos (zona 5), Goiânia (zona 6), Picos (zona 7) e Belém (zona 8), e com elas a maior parte do Centro-Oeste, do Nordeste e do Norte. A norma não fala em toldo nem em cortina, fala em sombrear a abertura, e uma abertura só está sombreada quando o sol não bate no vidro.
Qual lado da casa mais precisa de sombra no Brasil?
O oeste, e por dois motivos que se somam.
- Hora do dia: o sol da tarde bate na fachada oeste entre 14h e o pôr do sol, justamente quando o ar externo já está no pico de temperatura. No exemplo do LabEEE, o cálculo dos 656,8 W/m² é feito para a janela oeste às 16h, e não por acaso.
- Altura do sol: no fim da tarde o sol está baixo e entra quase na horizontal pela janela. O ProjetEEE explica que proteções horizontais, como beiral e toldo curto, funcionam nas fachadas norte e sul, onde o sol está alto, e que para o sol baixo servem proteções verticais ou a combinação das duas. A plataforma cita ainda arbustos e árvores como escudo da fachada exposta ao sol do oeste.
- Norte também conta: no Hemisfério Sul, a fachada norte recebe sol a maior parte do dia, mas alto, o que um beiral resolve. No oeste o toldo precisa descer mais, ou virar tela, brise vertical ou veneziana.
Quem tem sala virada para o oeste conhece o efeito: esquenta às 15h e continua quente às 21h, porque parede e vidro acumularam calor. Quem já viu o ar-condicionado pingar nos dias mais quentes sabe que o aparelho sofre quando a carga do ambiente supera a que ele foi dimensionado para vencer.
O que fazer quando não dá para instalar toldo?
Colocar a sombra o mais para fora possível, sem furar a fachada.
Em condomínio, a convenção costuma proibir toldos. Sobram saídas na mesma lógica: tela de sombreamento na grade da varanda, persiana externa de enrolar, vaso alto com planta densa na sacada, película refletiva na face externa do vidro. Todas interceptam a radiação antes da vidraça. Mesmo sem nada disso, fechar janela e cortina antes de o sol chegar evita que vidro e piso acumulem calor; abrir tudo à noite devolve o calor ao ar externo. Quem cultiva plantas na varanda já percebeu que elas crescem tortas na direção do sol, e a folhagem inclinada é, na prática, um toldo que se ajusta sozinho. O ProjetEEE trata a vegetação como proteção solar externa eficiente, desde que a copa seja planejada para a sombra cair onde se quer.
O que convém lembrar sobre toldo na janela e o calor que entra?
Antes de trocar cortina, olhar a bússola: descobrir para onde as janelas maiores estão viradas e priorizar oeste e norte. Colocar a proteção do lado de fora do vidro sempre que houver como; por dentro, a cortina reduz o ofuscamento, não a carga térmica. Preferir lona ou tela clara a chapa escura e maciça. Conferir a zona bioclimática da cidade na NBR 15220-3: da zona 4 à 8, a diretriz é sombrear aberturas. Em apartamento, ler a convenção antes de comprar. E, ao dimensionar um ar-condicionado, contar a janela sem sombra como parte da carga, não como detalhe.
O conteúdo desta página é informativo e reúne material público da UFSC, do ProjetEEE e da ABNT NBR 15220-3; a conta de watts e BTU é uma aproximação didática sobre um exemplo de aula, não uma medição da sua casa. Projeto de fachada e dimensionamento de ar-condicionado devem passar por engenheiro ou arquiteto, e instalações em condomínio dependem da convenção.




