Uma técnica simples testada em Seropédica, no Rio de Janeiro, mostrou que pedaços de papelão podem ajudar no controle de gramíneas invasoras em áreas de restauração florestal. Entre 20 e 50 dias após a aplicação, os pesquisadores observaram sinais de senescência em 80% ou mais da área coberta, reduzindo a competição enfrentada por espécies nativas.
Experimento foi realizado em uma área destinada ao reflorestamento
O estudo foi conduzido em uma área de aproximadamente 6 hectares pertencente à Embrapa Agrobiologia, no município de Seropédica. O terreno estava destinado ao reflorestamento com espécies nativas, mas a presença de gramíneas exóticas representava um obstáculo para o desenvolvimento das plantas utilizadas na recuperação ambiental.
De acordo com o artigo publicado na revista Floresta e Ambiente, os pesquisadores avaliaram principalmente Urochloa humidicola e Megathyrsus maximus. Essas gramíneas apresentam grande capacidade de regeneração e podem competir com árvores jovens por água, luz, nutrientes e espaço.

Cartão de 50 centímetros bloqueou a luz sobre as gramíneas
O procedimento é conhecido como coroamento com papelão. Depois de cortar a vegetação, os pesquisadores colocaram pedaços de papelão sobre as gramíneas ao redor das áreas analisadas, criando uma barreira física que restringia a chegada da luz necessária para o crescimento das plantas invasoras.
No experimento, foram utilizadas peças de aproximadamente 50 por 50 centímetros. O diferencial da técnica estava justamente na possibilidade de colocar o material diretamente sobre o pasto após o corte, reduzindo a necessidade de intervenções mecânicas repetidas durante uma fase particularmente sensível da restauração.
Resultado apareceu entre 20 e 50 dias após a cobertura
Os efeitos começaram a aparecer rapidamente. O estudo registrou senescência em pelo menos 80% da área coberta pelas duas espécies de gramíneas entre 20 e 50 dias depois da instalação do papelão, além de uma redução progressiva na biomassa das plantas invasoras.
Isso não significa que o papelão tenha eliminado definitivamente as gramíneas. O resultado indica que o método conseguiu enfraquecer a vegetação concorrente durante um período importante, criando condições melhores para que as espécies utilizadas no reflorestamento tenham tempo de crescer e se estabelecer.
Outro estudo comparou papelão com controle feito por enxada
Uma pesquisa anterior realizada na mesma região comparou o coroamento com papelão ao manejo manual realizado com enxada. O trabalho avaliou 11 espécies florestais da Mata Atlântica e não encontrou diferenças significativas entre os tratamentos em indicadores como altura, diâmetro e taxas de crescimento das plantas.
Segundo o estudo disponível no portal da Embrapa, a sobrevivência chegou a 80% no tratamento com papelão, contra 73% no manejo com enxada. O resultado mostrou que a alternativa mais simples não prejudicou o desenvolvimento das mudas analisadas.

Custo também ficou abaixo do manejo manual
Além de reduzir a competição das gramíneas, a técnica apresentou uma vantagem econômica. No período de 12 meses avaliado no estudo, o coroamento com papelão teve um custo aproximadamente 40% menor do que o controle manual realizado com enxada.
Essa diferença pode ser especialmente relevante em projetos de restauração de grandes áreas, nos quais a manutenção representa uma parcela importante dos gastos. A pesquisa publicada na revista Planta Daninha apontou o papelão como uma alternativa potencialmente viável e econômica para determinadas condições de reflorestamento.
Papelão funciona como uma barreira temporária no solo
A lógica do método é simples: enquanto permanece cobrindo o terreno, o papelão reduz a luminosidade disponível para as gramíneas invasoras. Como o material é temporário, sua função é oferecer uma janela de menor competição durante os primeiros meses, quando mudas de árvores ainda estão vulneráveis ao crescimento rápido do pasto.
Os autores do trabalho de 2021 destacam no repositório da Embrapa que o método apresentou potencial para o controle de gramíneas exóticas em áreas de reflorestamento. A técnica, porém, deve ser entendida como parte do manejo, e não como uma solução capaz de restaurar sozinha um ecossistema degradado.
Técnica pode ajudar na recuperação da Mata Atlântica
Gramíneas invasoras estão entre os problemas enfrentados por projetos de restauração porque podem dominar rapidamente áreas abertas. Reduzir essa competição com uma solução de baixo custo e aplicação relativamente simples pode facilitar o estabelecimento de árvores nativas e diminuir a necessidade de capinas frequentes em determinadas situações.
Os resultados obtidos em Seropédica são promissores, mas não significam que qualquer tipo de papelão possa ser colocado indiscriminadamente em qualquer ambiente. A aplicação deve considerar espécies presentes, condições do solo e objetivos do projeto, e os próprios pesquisadores apresentam o coroamento com papelão como uma ferramenta complementar para tornar as fases iniciais do reflorestamento mais eficientes.




