A busca constante pela melhor versão de si mesmo pode estar provocando mais frustração do que felicidade. O psicólogo e doutor em neurociências Albert Moukheiber questiona a obsessão pelo desenvolvimento pessoal e afirma que tentar melhorar o tempo inteiro nem sempre traz bem-estar. Para ele, viver experiências reais pode ser mais útil do que procurar uma transformação perfeita.
Por que um neurocientista afirma que trabalhar em si mesmo não adianta?
Em entrevista ao veículo francês Les Lueurs, Albert Moukheiber criticou a ideia de que todos precisam investir continuamente no próprio aperfeiçoamento para alcançar a felicidade. Suas declarações ganharam destaque em uma reportagem da revista Psychologies, publicada em 24 de outubro de 2026.
Segundo o especialista, o mercado de desenvolvimento pessoal alimenta a expectativa de que existe uma versão ideal de cada indivíduo esperando para ser encontrada. O problema é que essa busca pode não ter um ponto de chegada. Mesmo depois de alcançar uma meta, a pessoa pode continuar insatisfeita e sentir necessidade de estabelecer outra.
A obrigação de ser feliz pode produzir o efeito contrário
Uma das principais críticas de Moukheiber envolve a pressão para demonstrar felicidade, produtividade e entusiasmo em todas as situações. Nas redes sociais, por exemplo, é comum encontrar mensagens que incentivam uma rotina sempre disciplinada e positiva. Essa cobrança permanente pode transformar atividades comuns em motivos de comparação e insatisfação.
O psicólogo lembra que o bem-estar emocional não funciona como um estado contínuo. Existem momentos de alegria, tristeza, decepção e insegurança que fazem parte da experiência humana. Esperar felicidade constante pode aumentar a frustração diante de dificuldades normais, criando a sensação de que qualquer emoção desagradável representa um fracasso pessoal.
Entender os próprios problemas nem sempre provoca mudanças
Outra questão levantada pelo especialista é a diferença entre reconhecer um comportamento e conseguir modificá-lo. Uma pessoa pode compreender perfeitamente por que procrastina, evita conversas difíceis ou repete determinados hábitos. Entretanto, esse autoconhecimento não garante que ela passará a agir de maneira diferente quando enfrentar a mesma situação.
Essa distinção também aparece em abordagens psicológicas utilizadas na prática clínica. Segundo o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido (NHS), a terapia cognitivo-comportamental combina a identificação de pensamentos e emoções com mudanças práticas de comportamento. Isso mostra que reflexão e ação podem trabalhar juntas, sem que apenas compreender um problema seja suficiente para resolvê-lo.
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Nem tudo que acontece na vida depende da força de vontade
Moukheiber também questiona discursos que atribuem qualquer dificuldade à falta de disciplina ou à maneira de pensar. Problemas financeiros, condições de trabalho, conflitos familiares e desigualdades podem afetar diretamente a qualidade de vida. Acreditar que todas essas situações serão resolvidas apenas com pensamento positivo ignora fatores que estão fora do controle individual.
A Organização Mundial da Saúde (OMS) reconhece que renda, educação, condições ambientais e relações sociais influenciam a saúde das pessoas. Portanto, desenvolver habilidades emocionais pode ser útil, mas não elimina dificuldades externas. O bem-estar psicológico depende de uma combinação de fatores pessoais, sociais e econômicos.

Trocar o pensamento pela ação é a mudança sugerida
Em vez de passar horas procurando respostas sobre como se tornar uma pessoa melhor, o psicólogo propõe uma mudança de postura. A ideia é substituir expressões como “eu deveria” por decisões concretas, como “eu vou”. Isso significa dedicar menos energia à elaboração de planos perfeitos e começar por atitudes possíveis dentro da realidade de cada um.
Quem deseja fortalecer uma amizade, por exemplo, pode marcar um encontro em vez de apenas analisar por que se afastou daquela pessoa. Da mesma forma, alguém que pretende desenvolver uma habilidade pode reservar alguns minutos para praticá-la. A proposta não é agir impulsivamente, mas reconhecer que experiências concretas também produzem aprendizado.
Aceitar emoções desagradáveis faz parte de uma vida equilibrada
O especialista não recomenda abandonar a reflexão ou ignorar dificuldades emocionais. Sua crítica está direcionada à tentativa de eliminar qualquer desconforto por meio de técnicas de aperfeiçoamento. Sentir tristeza depois de uma perda ou frustração diante de uma expectativa não atendida não significa necessariamente que alguém precisa de mais autodisciplina ou produtividade.
Também existe uma diferença entre aceitar emoções passageiras e deixar de procurar ajuda diante de sofrimento persistente. Quando ansiedade, desânimo ou outros sintomas prejudicam a rotina, o acompanhamento psicológico pode ser apropriado. A crítica ao excesso de desenvolvimento pessoal não deve ser interpretada como uma rejeição à psicoterapia ou aos tratamentos de saúde mental.
Como aplicar essa ideia na rotina sem abandonar seus objetivos?
Uma maneira prática de começar é escolher uma situação que esteja provocando insatisfação e identificar o que realmente pode ser modificado. Em vez de estabelecer uma transformação completa da personalidade, experimente uma ação pequena e possível, como retomar um contato, organizar uma tarefa pendente ou reservar tempo para uma atividade agradável. Depois, observe o resultado sem exigir perfeição.
Também vale reconhecer quando uma dificuldade exige apoio de outras pessoas, mudanças nas condições de vida ou ajuda profissional. Para Albert Moukheiber, o objetivo não é deixar de crescer, mas abandonar a obrigação de atingir uma versão definitiva de si mesmo. A proposta é dar mais espaço ao progresso gradual, às relações humanas e às experiências do presente, sem transformar a felicidade em outra tarefa obrigatória.




