Cem camisas polo chegam ao ateliê Em Linha, em Alfragide, na Amadora (Portugal), e voltam bordadas ao cliente em quatro dias úteis. O prazo virou a marca de Isabel Simão, 66 anos, que passou mais de 30 anos no setor bancário, se aposentou aos 58 e comprou uma máquina de bordar que um conhecido mantinha parada. A trajetória dela foi contada pela revista NiT, na edição New in Amadora, em 13 de outubro de 2026.
“Quando os meus clientes entregam 100 peças, faço o trabalho em quatro dias úteis”, disse ela à reportagem da NiT sobre o ateliê de Alfragide. Na mesma conversa, ela atribuiu a esse compromisso a fidelidade da clientela. Nenhum valor de faturamento, preço por peça ou número de clientes aparece na matéria; o que aparece é uma estreante sem experiência no ofício que aprendeu a bordar depois da aposentadoria e fez da pontualidade o seu cartão de visita.
O começo foi em 2018, num espaço que ela descreveu como “bem pequenino”. Oito anos depois, Isabel se preparava para levar o Em Linha para um ateliê maior, com mais luz e espaço para trabalhar. Segundo a NiT, a inauguração do novo endereço estava marcada para o sábado, 17 de outubro de 2026.

Três décadas de banco antes do primeiro ponto
Natural de Sintra, Isabel vive em Alfragide desde 1996. Aprendeu as artes manuais em casa, com a mãe, que segundo ela era ótima tanto à máquina quanto à mão, sobretudo nos tradicionais tapetes de Arraiolos. Na juventude, a falta de opções nas lojas a levou a costurar a própria roupa, coisas simples, nas palavras dela. Cresceu sabendo “um pouco de tudo”, da costura ao crochê e ao tricô. O tricô foi o único que nunca largou, nem nos anos de expediente, quando fazia peças para amigos e parentes nas horas vagas.

Ela chegou a cursar Artes no ensino médio, mas não imaginava seguir carreira na área. Estudou Direito Bancário e passou mais de três décadas no banco, entre computadores e planilhas, como resume a reportagem. Para o leitor brasileiro, vale o detalhe de vocabulário: em Portugal, “a banca” é o setor bancário e “reformar-se” é se aposentar.
A aposentadoria veio aos 58 anos, e com ela a chance de voltar ao trabalho manual. A NiT lista três motivos: sair de casa, manter o contato com as pessoas e complementar a renda. O bordado foi escolhido porque ela sentia que o ofício estava desaparecendo. Isabel compara o resultado com as estampas das camisetas: “O bordado não tem nada a ver com isso. É muito mais bonito e resistente”.
A máquina não era nova. Ela já conhecia um senhor que tinha uma máquina de bordar sem uso e decidiu comprá-la quando parou de trabalhar no banco. A matéria não informa marca, modelo nem quanto pagou. Como nunca tinha bordado à máquina, os primeiros tempos foram difíceis, e ela recorreu a um formador, a um grupo de brasileiros dedicados ao bordado e a tutoriais na internet.
Os centros hípicos abriram a porta
Os primeiros clientes chegaram ainda em 2018, e a ideia veio de dentro de casa. A filha de Isabel monta a cavalo, e ela reparou que os equipamentos de equitação costumavam aparecer bordados. Foi bater na porta dos centros hípicos, apostando que ali encontraria um mercado receptivo. Deu certo: segundo a NiT, os clientes ligados à equitação são os mais fiéis, e toda semana chegam ao ateliê equipamentos e roupas de cavaleiros para bordar.

Depois vieram outras modalidades. Para o jiu-jitsu, ela personaliza quimonos. Pequenas e médias empresas de logística, vinhos, cafés e restaurantes mandam bordar polos, blusas e casacos de inverno. No balcão, o Em Linha também aceita encomendas individuais e faz bordado na hora; no Instagram do ateliê aparecem retratos de animais de estimação em camisetas, bonés para despedidas de solteira e guardanapos com nomes.
O primeiro cliente, ela lembra, chegou desesperado: quem ele havia contratado antes estava com o material parado havia dois meses. Isabel diz que, com 10, 20 ou 40 peças, faz o serviço sem demorar. O tempo de cada trabalho depende da quantidade de pontos do desenho, explica a reportagem. Prazo cumprido vende mais do que qualquer anúncio.
Ela gosta de repetir que faz “tudo sozinha”, e a própria NiT corrige com bom humor: quase tudo. O trabalho gráfico fica com um parceiro, que prepara o desenho e envia o arquivo pronto para ela bordar. A parte que Isabel diz preferir é ver as formas, as bolinhas, as letras, o cavalo ou o cão aparecendo no tecido.
Entre todos os pedidos, um ficou na memória. Estudantes de Design de Moda do Politécnico de Castelo Branco criaram etiquetas para costurar nas próprias roupas, com informação em braille para pessoas cegas, e o bordado coube a ela. Segundo a matéria, o projeto mostrou a Isabel que o ofício pode ir além da estética.
A máquina de bordar e o bordado como renda no Brasil
O único fio brasileiro da história é o grupo de bordadeiras do Brasil que ajudou Isabel a aprender. A reportagem não diz quem eram nem como funcionava esse apoio, só que ele existiu ao lado do formador e dos vídeos.
Isabel não está sozinha na decisão de abrir um negócio depois dos 60: no Brasil, segundo estudo do Sebrae com dados da PNAD Contínua divulgado em julho de 2026, havia 4,5 milhões de donos de negócio nessa faixa etária no fim de 2025, a maior parte deles no setor de serviços.

No Brasil, o bordado também sustenta negócio, embora em outro formato. A Agência Sebrae contou o caso das bordadeiras de Timbaúba dos Batistas, no Seridó potiguar, em 3 de outubro de 2024: um grupo de 80 artesãs bordou 2,4 mil peças para o Comitê Olímpico do Brasil, usadas nos uniformes dos Jogos de Paris, em parceria com o Instituto Riachuelo e com apoio do Sebrae. Segundo a presidente da associação local, ouvida pela agência, o projeto rendeu cerca de R$ 400 mil diretamente às bordadeiras. O grupo, de acordo com o mesmo texto, tinha só 17 artesãs antes de se organizar. Ali o trabalho é coletivo e feito em máquinas simples, sem automação, o que mostra que o caminho de Isabel é só um entre vários.
Para quem pensa em seguir um roteiro parecido, a compra do equipamento é a primeira decisão, e nem sempre a mais simples. O CB Radar já contou a história da compradora que recebeu uma máquina profissional de bordado ajustada para uma tensão elétrica diferente da que tinha em casa, um lembrete de conferir voltagem e instruções do fabricante antes de fechar negócio. E quem procura o ofício mais pelo bem-estar do que pela renda encontra apoio em uma pesquisa que associou costura e bordado a mais humor positivo.
Com o Natal se aproximando, guardanapos com nome, bonés personalizados e camisetas com o retrato do bicho de estimação, os mesmos itens que Isabel mostra no Instagram do Em Linha, dão uma ideia do tipo de presente bordado que se pode encomendar antes de dezembro.
Ateliê de manhã, baixo à tarde
Oito anos depois de abrir o Em Linha, Isabel já não se imagina fazendo outra coisa. “Não tenho fim”, disse à NiT. Ela contou que se sente muito bem de saúde e com vontade de continuar.
A rotina, que ela pretende manter enquanto puder, tem três partes: ateliê pela manhã, estudo de baixo, o instrumento musical, à tarde, e o resto do dia com a família. Depois de três décadas entre números, a agenda dela, aos 66 anos, divide espaço entre a máquina, as cordas e a casa.




