Quem conta os mamíferos do planeta esbarra em morcegos o tempo todo. São mais de 1.500 espécies, mais de um quinto de todos os mamíferos vivos, segundo o artigo publicado na revista Nature em 23 de setembro de 2026. Esse mesmo trabalho, feito pelo consórcio internacional Bat1K, aponta que o ancestral comum de todos eles viveu na Europa.
A resposta sobre a origem dos morcegos era disputada havia décadas. Estudos anteriores já tinham colocado o berço do grupo na África, na Ásia ou na América do Norte. O novo artigo, que tem como primeiros autores Ariadna E. Morales, Yan Liang e William R. Thomas e reúne 136 nomes na assinatura, descarta essas três hipóteses. No modelo dos pesquisadores, a Europa aparece com 99,2% de probabilidade como a região onde surgiu o primeiro morcego, no fim do Paleoceno, a época que se seguiu ao desaparecimento dos grandes dinossauros.
O texto da Nature não crava um número redondo de anos. Quem fala em data são as instituições dos autores: o Museum für Naturkunde, de Berlim, diz em comunicado que o grupo surgiu por volta de 65 milhões de anos atrás, e a University College Dublin, casa da autora sênior Emma Teeling, fala em algo entre 65 e 60 milhões de anos.
103 genomas e 44 fósseis na mesma conta
O peso do resultado vem do tamanho da base. Segundo o artigo, a equipe usou genomas de 103 espécies de morcegos, 42 deles montados pela primeira vez, cobrindo as 21 famílias reconhecidas hoje. A esse material genético juntou-se um conjunto de 699 características anatômicas medidas em 65 espécies, das quais 44 são fósseis. O museu de Berlim descreve a empreitada como o maior estudo que já combinou DNA e fósseis de morcegos.
Misturar as duas fontes resolve um problema antigo. O DNA só existe em espécies vivas, e os ossos antigos não trazem genes. Tratadas juntas, as duas linhas de evidência permitiram ao grupo estimar ao mesmo tempo quem descende de quem, quando cada ramo se separou e em que região do mundo estava cada ancestral.
Dessa reconstrução saiu um roteiro de viagem. Conforme o artigo, os descendentes do ancestral europeu passaram cedo para a África, e desse polo Europa e África partiram várias expansões independentes rumo às Américas, à Ásia e à Austrália. As quatro grandes superfamílias atuais se diversificaram no início do Eoceno, provavelmente durante o pico de calor conhecido como Máximo Térmico do Paleoceno-Eoceno, há cerca de 56 milhões de anos, segundo os autores.
Há ainda um detalhe sobre o sonar. Um fóssil chamado Vielasia ficou no ramo mais antigo da árvore, e isso indica, de acordo com o estudo, que a ecolocalização produzida na laringe já existia antes da diversificação dos morcegos modernos. Voo e sonar, portanto, teriam aparecido perto um do outro na história do grupo.
Os morcegos não são os únicos mamíferos cuja guinada radical de estilo de vida vem sendo reconstruída pela genética. Nas baleias, pesquisadores já descreveram a marca no DNA que acompanhou a passagem de bichos terrestres a gigantes do oceano.
O que a origem dos morcegos na Europa ainda não resolve

A conclusão é probabilística. No resumo, os autores escrevem que os morcegos “provavelmente” surgiram na Europa, e a própria Teeling, no comunicado da universidade irlandesa, chama o continente de o lugar mais provável onde o voo dos mamíferos começou. Uma estatística alta não é o mesmo que um fóssil com etiqueta de endereço.
E esse fóssil não existe. De acordo com o artigo, os fósseis de morcego mais antigos conhecidos, do início do Eoceno, vêm de vários continentes: Ásia, América do Norte, Europa e Austrália. A origem europeia sai da análise conjunta dos dados, e não de um esqueleto encontrado no lugar certo. Uma nova descoberta paleontológica pode mexer no quadro.
Também não é verdade que a árvore genealógica de todos os mamíferos tenha sido redesenhada, como sugeriram algumas manchetes. O que o trabalho revisa é a árvore dos morcegos, com a posição de famílias e superfamílias dentro da ordem. Um exemplo: a família Myzopodidae, de Madagascar, que estudos anteriores punham numa superfamília de maioria neotropical, foi deslocada para outro ramo.
Como o grupo do morcego-pescador chegou à América do Sul?
Nenhum dos autores do artigo tem afiliação no Brasil, e o texto não informa que algum dos genomas sequenciados venha de exemplar coletado no país. Mesmo assim, o estudo conta um capítulo que interessa diretamente à fauna brasileira.
Para ilustrar as famílias americanas, a figura principal do artigo usa espécies que também vivem aqui, como o morcego-pescador (Noctilio leporinus), Thyroptera tricolor, Furipterus horrens e Tonatia saurophila. O grupo do morcego-pescador, os noctilionoides, é o que o artigo descreve como uma superfamília de maioria neotropical.
Segundo a análise, esse grupo fez uma travessia da Europa para a América do Norte por volta de 54 milhões de anos atrás e, dali, colonizou a América do Sul entre 51 e 44 milhões de anos atrás. O modelo praticamente descarta a hipótese de uma chegada direta da África pelo Atlântico, pulando de ilha em ilha: essa rota recebeu 0,27% de probabilidade. O caminho foi pelo norte, num período em que os trópicos se expandiam e começavam a surgir as ilhas que mais tarde formariam o istmo do Panamá.
186 espécies no Brasil
O resultado dessa chegada, milhões de anos depois, está nos forros, nas cavernas e nas matas do país. A Lista de Espécies de 2024 da Sociedade Brasileira para o Estudo de Quirópteros (SBEQ) registra 186 espécies de morcegos no Brasil, distribuídas em 68 gêneros e 9 famílias. A mais numerosa é a Phyllostomidae, com 95 espécies, segundo a mesma lista.
Esses animais comem insetos, frutas, néctar, peixes e, em poucos casos, sangue, e passam o dia em posições que parecem desconfortáveis para qualquer outro mamífero. Quem já se perguntou por que morcegos e preguiças conseguem dormir pendurados sem cair encontra ali mais um traço de um grupo que se adaptou a quase tudo.
O artigo completo, em acesso aberto, está disponível na página do estudo na revista Nature. Para quem vive no Brasil, a leitura deixa uma ideia curiosa: o morcego que cruza o quintal ao anoitecer carrega no DNA uma rota que, pelo que indicam os dados, começou do outro lado do oceano e deu a volta pelo norte.




