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Uma moeda espanhola de prata de 1584 descoberta perto do Estreito de Magalhães marca o local de uma colônia espanhola condenada ao fracasso

Por Daniely Cardoso
17/04/2026
Em Curiosidades
Uma moeda espanhola de prata de 1584 descoberta perto do Estreito de Magalhães marca o local de uma colônia espanhola condenada ao fracasso

A moeda de prata encontrada no sul do Chile reacendeu o interesse pela história colonial

Imagine caminhar à beira do estreito de Magalhães, em um lugar frio e ventoso, e de repente encontrar uma pequena moeda de prata enterrada sob o que restou de uma antiga igreja. Foi exatamente isso que aconteceu no extremo sul do Chile, quando um “real de a ocho” espanhol reacendeu o interesse por uma das experiências coloniais mais dramáticas do século XVI: a história da colônia espanhola de Ciudad del Rey Don Felipe.

O que é o real de a ocho e por que ele importa para a arqueologia

O real de a ocho, também chamado de “peça de oito”, era uma moeda de prata muito comum no Império Espanhol dos séculos XVI e XVII. Ela circulava em navios que cruzavam oceanos e acabou se tornando quase uma “moeda internacional”, usada em negócios, em portos distantes e até em histórias de piratas.

No estreito de Magalhães, a moeda encontrada traz, de um lado, uma cruz de Jerusalém e, do outro, o brasão da monarquia espanhola. Mais do que dinheiro, ela serviu como parte de um ritual de fundação: era colocada sob a base de um prédio importante, geralmente uma igreja, para marcar a presença simbólica do rei da Espanha e da fé cristã naquele território recém-ocupado.

Nessa história, a expressão central é moeda espanhola, que junta numa só imagem a ideia de poder imperial

Leia também: A batalha que mudou o rumo do mundo, o confronto que definiu o destino de impérios

Como a moeda ajuda a reconstruir a antiga Ciudad del Rey Don Felipe

Nessa história, a expressão central é moeda espanhola, que junta numa só imagem a ideia de poder imperial, religião e controle de território. Relatos do navegador Pedro Sarmiento de Gamboa mencionam o uso de uma moeda em uma cerimônia de fundação, e o fato de os arqueólogos terem achado justamente um real de a ocho no ponto descrito fortalece a confiança nesses documentos e em mapas antigos do povoado.

  • Dois canhões de bronze achados em 2019, compatíveis com descrições de Sarmiento de Gamboa;
  • Indícios de estruturas de madeira e pedra associadas a prédios religiosos e civis;
  • Vestígios de ocupação indígena anteriores e posteriores ao período colonial.

Por que a colônia no estreito de Magalhães acabou fracassando

Ciudad del Rey Don Felipe foi fundada em 1584 com um objetivo claro: controlar o estreito de Magalhães, rota estratégica que ligava o Atlântico ao Pacífico antes da abertura de novas rotas. A Coroa espanhola queria impedir a passagem de rivais, especialmente depois das notícias sobre a presença do inglês Francis Drake na região.

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Os relatos históricos e os achados arqueológicos mostram que não foi um único motivo que levou ao fracasso da colônia – Crédito: Richard Bezzaza

Na prática, porém, a vida ali foi um desastre para a maior parte dos colonos. O frio intenso, a dificuldade de conseguir alimentos e a distância de outros centros coloniais criaram um cenário de extrema vulnerabilidade. Muitos morreram de doenças, fome e exposição ao clima, sem conseguir se adaptar a um ambiente que os povos indígenas já conheciam bem.

Quais foram os principais desafios enfrentados pelos colonos espanhóis

Os relatos históricos e os achados arqueológicos mostram que não foi um único motivo que levou ao fracasso da colônia, mas um conjunto de problemas que se somaram. A seguir, estão alguns dos fatores que mais pesaram nessa trajetória de sofrimento e abandono:

  1. Isolamento geográfico: a longa distância de outros povoados coloniais tornava qualquer ajuda lenta e arriscada;
  2. Tempestades frequentes: muitos navios com mantimentos naufragaram ou foram desviados na região;
  3. Desconhecimento do ambiente: grupos recém-chegados não sabiam caçar, pescar ou coletar alimentos em condições tão extremas;
  4. Dependência de suprimentos externos: sem agricultura estável e com recursos locais limitados, a sobrevivência dependia quase sempre de navios de apoio.
A descoberta desse real de a ocho não só aproxima a história escrita da realidade material – Crédito: Richard Bezzaza

Que novas perguntas a moeda espanhola levanta sobre o passado colonial

A descoberta desse “real de a ocho” não só aproxima a história escrita da realidade material, como também abre novas questões. Uma delas é o quão precisos eram os mapas e textos produzidos por Sarmiento de Gamboa: se a descrição da cerimônia de fundação bate com o que foi encontrado, talvez outras informações também possam orientar futuras escavações.

Outra questão importante é a relação entre colonos espanhóis e povos indígenas locais. A presença de ocupação indígena antes e depois da colônia sugere contatos, trocas e, possivelmente, conflitos ainda pouco compreendidos. Essa pequena moeda de prata, símbolo do poder europeu, contrasta com a resistência e o conhecimento ambiental das populações originárias, e ajuda a repensar como esse pedaço gelado do mapa foi vivido por diferentes grupos ao longo do tempo.

Tags: arqueologiacolôniamoedamoeda espanhola
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