Cidades fundadas por imigrantes europeus costumam guardar a herança nos telhados e na mesa, mas poucas preservam também a língua. Em Domingos Martins, nas montanhas do Espírito Santo, descendentes de colonos ainda conversam em pomerano, idioma trazido de uma região que deixou de existir no mapa da Europa. A uma hora de Vitória, a cidade soma essa memória viva a um templo luterano centenário e a picos de granito que passam de 1.900 m de altitude.
Como alemães e pomeranos chegaram à serra capixaba?
A viagem terminou no porto de Vitória em 21 de dezembro de 1846, véspera de Natal, quando desembarcou a primeira leva de imigrantes alemães, segundo o inventário dos registros da paróquia luterana publicado pela Universidade de Brasília (UnB). O grupo seguiu para a Colônia de Santa Isabel, a primeira fundada em solo capixaba, e os luteranos acabaram se fixando num ponto que batizaram de Campinho, origem da atual sede do município.
Entre os colonos vieram famílias da Pomerânia, região europeia extinta cuja fala atravessou o oceano com eles. O idioma resistiu dentro de casa por gerações e, em 2011, tornou-se língua co-oficial do município, ao lado do português, pela Lei Municipal nº 2.356, conforme estudo publicado pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Pesquisa da Revista Philologus mostra que a cidade convive ainda com o alemão, o italiano e o hunsrückisch, dialeto germânico de origem renana.

Por que a torre da Igreja Luterana desafiava as regras do Império?
A Constituição de 1824 mantinha o catolicismo como religião oficial e só permitia outros cultos em casas particulares, “sem forma alguma exterior de templo”, como mostra material da Escola Nacional de Administração Pública (Enap). Na prática, igrejas protestantes não podiam ter aparência de igreja, e uma torre era o sinal mais visível de um templo.
Em Campinho, a Igreja Evangélica de Confissão Luterana foi erguida em 1866, mas a torre só foi inaugurada em 1887, dois anos antes da Proclamação da República. A Secretaria da Cultura do Espírito Santo (Secult) considera o conjunto o mais antigo templo protestante com torre do Brasil e da América Latina, e deu início a obras de restauro no prédio.

O que fazer em Domingos Martins além do centro histórico?
A resposta mais procurada está no Parque Estadual da Pedra Azul, unidade de conservação criada em 1991. Segundo o Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Iema), a Pedra Azul tem 1.822 m de altitude e forma, com a Pedra das Flores, de 1.909 m, e a Pedra do Lagarto, um conjunto de granito considerado patrimônio geológico brasileiro. O nome vem dos líquens, organismos formados pela associação entre fungos e algas, que deixam a rocha azulada quando vista de longe.
O parque abre de terça a domingo e reúne as experiências mais buscadas da região, com acesso que exige planejamento:
Quando a música e o vinho tomam conta da cidade serrana?
No inverno, quando a cidade recebe o Festival Internacional de Música Erudita e Popular, criado em 1992 com cursos ministrados por professores de nível nacional e internacional, segundo a Secretaria de Estado do Turismo (Setur). As oficinas formam orquestra, big band e coral, que se apresentam pela cidade ao fim de cada edição.
Na programação, a igreja luterana de Campinho vira sala de concerto para quartetos de cordas e corais, enquanto o coreto da praça recebe bandas e grupos de dança alemã. O frio também deu origem ao Festival do Vinho, criado em 1993 a partir do interesse de produtores locais e do clima favorável da serra, como registra a Setur.
Qual a melhor época para visitar Domingos Martins?
O inverno seco concentra os festivais e as manhãs mais limpas, enquanto o verão traz o grosso das chuvas. Estudo do Instituto Capixaba de Pesquisa, Assistência Técnica e Extensão Rural (Incaper) calculou média de 1.366 mm de chuva por ano no município, com mais de 70% desse volume caindo entre outubro e abril.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.

Como chegar a Domingos Martins saindo de Vitória?
De carro, o caminho é a BR-262, no sentido de Minas Gerais: a sede fica a 43 km da capital capixaba, com acesso pelo portal da cidade na ES-456. Quem vai direto ao parque segue até o km 89 da rodovia, onde está o maciço da Pedra Azul, a cerca de 89 km de Vitória, com a entrada da Rota do Lagarto logo adiante, no km 90.
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O pedaço da Pomerânia que sobrevive na serra capixaba
Domingos Martins guarda camadas de tempo que raramente aparecem juntas no mesmo lugar. Uma língua que perdeu sua terra de origem ganhou lei própria nas montanhas do Espírito Santo, uma torre levantada sob as restrições do Império virou patrimônio e palco de concertos, e um maciço de granito ganha tons de azul conforme a distância de quem olha. É uma cidade pequena que conta, em poucas ruas, uma parte grande da história da imigração no Brasil.
Você precisa subir a serra e passar uma noite fria em Domingos Martins, de preferência quando a velha torre luterana divide a praça com a música do festival de inverno.




