Poucas cidades brasileiras devem o próprio nome à imaginação dos exploradores que passaram por ali. Fundada oficialmente em 1928, mas com origens que remontam ao ciclo do ouro no Espírito Santo por volta de 1752, Castelo é um município capixaba do sul do estado que herdou o nome dos garimpeiros que enxergaram nas montanhas graníticas da Serra do Forno Alto a silhueta de um castelo cercado por muralhas. Um século depois, imigrantes italianos deram o toque final: batizaram o pico principal de Pico do Forno Grande porque a formação rochosa lembrava o forno usado para assar pão. Hoje, aos 137 km de Vitória, a cidade combina o segundo ponto mais alto do estado, uma gruta arqueológica em mármore e um dos mais bem preservados núcleos coloniais italianos do sul capixaba.
Como o ciclo do ouro deu origem a Castelo?
A história do município começou nas matas ainda inexploradas do sul do Espírito Santo, quando garimpeiros vindos de outras regiões descobriram jazidas de ouro na área central do estado. Segundo o livro História do Espírito Santo, publicado por Misael Ferreira Penna em 1878, em 1752 “afluía grande número de habitantes para as matas do Castello, onde se descobrira ricas minas”. Os exploradores enxergaram nas imensas elevações graníticas da região a silhueta de um castelo cercado por muralhas, e o nome pegou.
A garimpagem foi de curta duração e por volta de 1830 a atividade já estava praticamente abandonada. A economia local migrou para a agricultura, primeiro com médias propriedades que usaram mão de obra escravizada até 1888, quando a escravidão foi abolida no Brasil. Logo depois, chegaram os primeiros imigrantes italianos, vindos do município vizinho de Alfredo Chaves, que se instalaram nas terras devolutas do território e fundaram o núcleo colonial da Fazenda do Centro. Castelo virou distrito de Cachoeiro de Itapemirim em 1891 e conquistou a emancipação em 1928.

Por que o Pico do Forno Grande foi batizado assim?
O nome tem origem prática. Quando os imigrantes italianos se instalaram na região no final do século XIX, avistavam do vale a grande formação rochosa que se destacava no horizonte e associaram sua silhueta ao forno de pedra usado nas casas coloniais para assar o pão da família. A analogia entrou para a tradição oral e virou o nome oficial do maciço, que já servia antes como ponto de referência para caravanas de exploradores que seguiam da região central do Espírito Santo em direção a Minas Gerais em busca de ouro.
Com 2.039 metros de altitude, o Pico do Forno Grande é o segundo ponto culminante do Espírito Santo, atrás apenas do Pico da Bandeira, que fica na divisa com Minas Gerais. A formação faz parte do Parque Estadual do Forno Grande, uma unidade de conservação de 730 hectares criada em 31 de outubro de 1960. O parque protege uma área de riqueza biológica notável, com espécies ameaçadas como a onça-parda, a jaguatirica, o macaco mono-carvoeiro, o gato-mourisco e mais de 130 espécies de aves.
O que fazer no Parque Estadual do Forno Grande?
O parque é a principal atração de Castelo e reserva um roteiro de contato com a natureza que pode ocupar um dia inteiro. Segundo o Governo do Espírito Santo, desde 2017 o parque conta com trilhas autoguiadas sinalizadas de 2.200 metros, o que permite a visitação sem agendamento prévio. A gestão fica a cargo do Instituto Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (IEMA).
- Trilha dos Poços Amarelos: piscinas naturais cuja água tem coloração amarelada por causa da alta concentração de ferro; percurso de cerca de 950 metros com vista panorâmica.
- Cachoeira do Parque: queda d’água acessível pela trilha principal, com poço para banho.
- Gruta da Santinha: local de peregrinação com a imagem de Nossa Senhora Aparecida, acessada por caminhada de cerca de uma hora.
- Mirante da Pedra Azul: a 2.100 metros de altitude, com vista para Castelo, Venda Nova do Imigrante, Domingos Martins e Vargem Alta, além do Frade e a Freira e do Pico da Bandeira.
- Cume do Pico do Forno Grande: ponto mais alto do parque, com acesso mediante agendamento por questões de segurança.
O que é a Gruta do Limoeiro?
A Gruta do Limoeiro é considerada a mais importante caverna do Espírito Santo, tanto pela profundidade e pelos vários salões internos quanto por sua condição de sítio arqueológico. Localizada a cerca de 15 km do centro de Castelo, é uma formação em mármore, o que a torna geologicamente rara. Foi visitada por poetas e naturalistas nos séculos XIX e XX, e continua sendo objeto de estudos científicos sobre a pré-história do estado.
Em seu interior, os visitantes encontram estalactites, estalagmites e travertinos, formações rochosas resultantes da deposição de carbonato de cálcio. O atendimento aos turistas acontece no Centro de Visitantes, com horários específicos e visita guiada por profissionais. É a principal parada para quem se interessa por espeleologia e geologia no roteiro capixaba.
Por que a Fazenda do Centro é parada obrigatória?
A Fazenda do Centro guarda a memória de duas fases distintas da história de Castelo: o antigo arraial de mineração do ciclo do ouro e o principal núcleo colonial da imigração italiana no sul do estado. Localizada a cerca de 12 km do centro da cidade, às margens do rio Caxixe e cercada de montanhas, a propriedade foi tombada como Patrimônio Histórico pelo Conselho Estadual de Cultura em 1984.
Segundo publicação do Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, a fazenda preserva o traçado urbano típico dos assentamentos de imigrantes italianos do sul capixaba, com a capela, a igreja, a antiga estação ferroviária e a “venda” formando o quadrilátero funcional característico. Um casarão colonial imponente resiste ao tempo, ainda que carente de conservação, e testemunha tanto a garimpagem do ouro no século XVIII quanto a chegada dos imigrantes italianos no final do XIX.
Quais são as outras atrações turísticas de Castelo?
A cidade tem uma rede de atrações complementares que enriquece o roteiro. Vale reservar pelo menos dois dias para conhecer o principal.
- Rampa de Ubá: a 27 km da cidade e 902 metros de altitude, considerada uma das melhores rampas de voo livre do mundo por instrutores da modalidade.
- Igreja Matriz: no centro da cidade, com duas grandes torres, pinturas sacras no interior e vitrais coloridos.
- Santuário de Aracuí: local de peregrinação religiosa nos arredores do município.
- Casa do Artesão: criada em 1997, reúne o trabalho dos artesãos locais em espaço de arquitetura rústica.
- Festa de Corpus Christi: uma das mais tradicionais do estado, com tapetes coloridos feitos nas ruas do centro no dia da celebração.
O que comer em Castelo?
A gastronomia local é fortemente marcada pela herança italiana, com pratos que atravessaram gerações nas famílias descendentes dos primeiros imigrantes. O Governo do Espírito Santo tem investido no fortalecimento do turismo gastronômico da região, com apoio a cervejarias artesanais, cafeterias, produtores de morango e plantas ornamentais no entorno do Parque Forno Grande.
- Polenta: prato-símbolo da herança italiana, servido com molho de tomate, frango caipira ou linguiça.
- Massas caseiras: preparadas com receitas trazidas do norte da Itália, presentes nos restaurantes de cozinha típica.
- Socol: embutido tradicional italiano feito com filé mignon curado, produzido artesanalmente na região.
- Café colonial: mesa farta com pães, cucas, geleias, queijos e embutidos, servida em várias pousadas rurais do município.
- Morango: fruta cultivada em pequenas propriedades no entorno de Castelo, ingrediente principal de doces, geleias e sobremesas.
Como é o clima de Castelo ao longo do ano?
Castelo tem clima tropical de montanha, com verões quentes e chuvosos e invernos amenos e secos. A altitude de 100 metros na cidade contrasta com os 2.039 metros do Pico do Forno Grande, o que gera microclimas distintos ao longo do território. No inverno, as noites são frescas e o parque frequentemente amanhece com neblina.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar conforme a altitude.
Como chegar a Castelo?
Castelo fica a cerca de 145 km de Vitória, com acesso principal pela BR-262, trajeto de carro de cerca de duas horas. O Aeroporto Internacional Eurico de Aguiar Salles, na capital, é o mais próximo, com voos regulares de várias cidades brasileiras. Vindo do sul do estado, o acesso é feito a partir de Cachoeiro de Itapemirim pela ES-164. Ônibus intermunicipais operam a linha entre Vitória e Castelo com paradas em Domingos Martins e Venda Nova do Imigrante.
Suba a serra e conheça a cidade que nasceu do ouro e cresceu com a imigração italiana
Castelo é o tipo de destino que carrega três séculos de história em um roteiro de fim de semana. A origem no ciclo do ouro do século XVIII, quando garimpeiros enxergaram nas montanhas graníticas a silhueta de um castelo, deu nome à cidade. A chegada dos imigrantes italianos no final do século XIX rebatizou o pico principal de Pico do Forno Grande e trouxe a herança gastronômica que hoje domina os restaurantes locais. Aos 2.039 metros de altitude, o segundo ponto culminante do Espírito Santo abriga onças-pardas, jaguatiricas e uma das maiores diversidades biológicas do estado.
Você precisa reservar pelo menos dois dias em Castelo, subir a trilha até os Poços Amarelos e conhecer a Fazenda do Centro para entender por que essa cidade capixaba do sul do estado guarda, sem exagero, uma das combinações mais completas de montanha, gruta e herança colonial italiana do Sudeste brasileiro.



