Em muitas cidades, a música fica restrita a palcos e bares, longe da rotina das calçadas. Em Conservatória, distrito de Valença, no interior do Rio de Janeiro, ela ocupa as ruas, as janelas e até as fachadas das casas, que recebem placas com o nome de canções escolhidas pelos próprios moradores em cerimônias cantadas. A tradição das serenatas atravessa gerações e tornou nacionalmente conhecido um antigo vilarejo cortado pela ferrovia do século XIX.
Por que as casas de Conservatória têm nomes de músicas?
Porque cada morador escolhe a canção que vai representar a própria casa. Segundo a Prefeitura de Valença, a maioria das residências do distrito exibe na fachada uma placa com o nome e o autor de uma música de seresta. A instalação acontece à noite, em uma cerimônia que começa com a saída dos seresteiros do museu local e segue pelas ruas até a casa, onde a música é cantada enquanto a placa é fixada.
A ideia tem autoria conhecida. De acordo com a Secretaria Municipal de Cultura e Turismo de Valença, os irmãos José Borges de Freitas Neto e Joubert Cortines de Freitas criaram em 1960 o projeto Em cada casa uma canção, pensado para perpetuar as músicas brasileiras de amor que fazem parte da tradição local. O resultado é uma espécie de acervo musical a céu aberto, espalhado pelas fachadas do casario.

Como nasceu a tradição das serenatas em Valença?
Ela vem de longe. Segundo a Secretaria de Cultura e Turismo, as serenatas acontecem nas ruas de Conservatória desde meados do século XIX. A prática ganhou um guardião no Sr. Mérito, que reunia seresteiros em casa para afinar os instrumentos e depois saía cantando pelas ruas, parando nas janelas das residências. Sobre a origem mais remota, a própria secretaria registra versões diferentes: uma fala de músicos que acompanhavam a Coroa e acabaram ficando na vila, outra de um violonista alemão que criou o hábito de tocar em noites de lua e passou a ser seguido por outros músicos.
Em 1938, os irmãos José Borges e Joubert se juntaram ao grupo e mais tarde alugaram uma casa de veraneio que virou ponto de encontro dos músicos. O imóvel se transformou no Museu da Seresta e Serenata, com paredes cobertas por trechos de canções, retratos e notícias. Vale a distinção que os próprios moradores fazem: a seresta é tocada em ambientes fechados, enquanto a serenata acontece nas ruas, sob o sereno da noite.
O que visitar em Conservatória além das serenatas?
O distrito guarda marcas do período do café e da ferrovia, além de paisagens de vales e Mata Atlântica. A Secretaria de Cultura e Turismo destaca alguns endereços que completam o roteiro.
Que herança africana resiste no entorno de Conservatória?
A do jongo, dança de origem africana mantida por uma comunidade quilombola da região. Segundo a Secretaria de Cultura e Turismo de Valença, a comunidade remanescente de escravizados da Fazenda São José da Serra, às margens da estrada que liga Conservatória a Santa Isabel do Rio Preto, vive no local há mais de 150 anos e mantém viva a cultura dos antepassados africanos, com o jongo entre as manifestações mais destacadas.
A presença dessa comunidade ajuda a completar a história que as serenatas não contam sozinhas. O mesmo território que hoje encanta visitantes com música romântica foi moldado pelo trabalho escravizado, visível nas paredes do túnel e nas pedras das ruas, e preserva nas rodas de jongo uma memória que resistiu ao tempo.

Como é o clima de Valença durante o ano?
O clima tem verões muito chuvosos e invernos secos e amenos. Janeiro concentra 305 mm de chuva em média, enquanto junho e julho registram só 30 mm, com mínimas próximas de 13°C.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo. Condições podem variar.
O vilarejo que transformou a noite em patrimônio
Conservatória é o raro lugar onde a música sai de casa e ocupa a cidade. As placas nas fachadas, o museu montado por dois irmãos e as serenatas que atravessam gerações formam um patrimônio vivo, que depende de gente disposta a cantar na rua. Por baixo da trilha sonora romântica, o túnel escavado por mãos escravizadas e as rodas de jongo lembram que a história de Valença também foi escrita com dor e resistência.
Você precisa atravessar o Túnel que Chora numa noite fresca de inverno, seguir o som dos violões pelas ruas de pé de moleque e parar diante de uma fachada para descobrir qual canção aquela casa escolheu para si.




