Entre as formações da Chapada Diamantina, Igatu, distrito de Andaraí, guarda uma paisagem em que o passado do garimpo ainda aparece nas ruas e construções. O povoado fica a cerca de 18 km da sede municipal e reúne casas de pedra, ruínas e antigas edificações espalhadas pela Serra do Sincorá, cenário que ajudou a popularizar o apelido de “Machu Picchu brasileira”.
O que está por trás da história da Cidade de Pedras?
Foi durante o ciclo do diamante, no século XIX, que Igatu começou a ganhar importância. Garimpeiros de lugares como Mucugê e Minas Gerais chegaram à região em busca das jazidas e fizeram o povoado crescer rapidamente. No período de maior atividade mineradora, milhares de pessoas chegaram a viver ali, transformando a localidade em um dos principais núcleos econômicos das antigas Lavras Diamantinas.
A própria geologia da serra acabou definindo a aparência de Igatu. O arenito disponível em abundância era utilizado na construção de casas, muros e igrejas, com blocos de pedra encaixados manualmente. Quando a mineração perdeu força, parte do povoado foi deixada para trás, mas as construções permaneceram. Em 2000, o conjunto histórico foi reconhecido pelo IPHAN, que passou a proteger centenas de imóveis históricos distribuídos pelas antigas ladeiras de pedra.

Quais experiências valem entrar no roteiro de Igatu?
O pequeno tamanho de Igatu não significa pouca coisa para fazer. As próprias ruas de pedra, as ruínas e o contato com os moradores já ocupam boa parte do passeio, enquanto as áreas ao redor levam a antigas minas, cachoeiras, cânions e pontos com vista para alguns dos cenários mais marcantes da Chapada Diamantina.
- Galeria Arte e Memória: instalada entre as paredes das antigas ruínas, foi criada pelo artista plástico Marcos Zacariades e funciona como um museu a céu aberto. O acervo reúne esculturas, objetos utilizados por garimpeiros e peças relacionadas à história de Igatu. O espaço também conta com um café-creperia.
- Gruna do Brejo: antiga mina de diamantes aberta à visitação. A entrada nas galerias acontece com lanterna e permite observar os túneis escavados manualmente durante o século XIX.
- Cachoeira dos Pombos: localizada a aproximadamente 1 km do centro, possui duas quedas acessíveis por uma trilha leve. É uma alternativa para famílias e para quem procura um banho depois da caminhada pelo povoado.
- Cachoeira da Califórnia: a queda de 10 metros fica dentro de um cânion formado por arenito rosa. O percurso tem 1,5 km, inclui trechos de escalaminhada e é considerado de nível difícil.
- Rampa do Caim: ponto elevado com vista para o Vale do Pati e o rio Paraguaçu, oferecendo um dos panoramas mais impressionantes da Chapada Diamantina.
Quem mantém viva a história dos moradores de Igatu?
Enquanto as ruínas preservam a memória material do povoado, Amarildo dos Santos mantém um registro pessoal de quem passa pela comunidade. Ele atualiza todos os anos livros manuscritos com informações sobre pessoas que nasceram, morreram, se casaram ou deixaram Igatu, formando uma espécie de censo artesanal da vila.
A própria casa de Amarildo acabou entrando no circuito de quem visita o povoado, com uma pequena loja de doces e os livros manuscritos disponíveis como lembrança. Em outro endereço tradicional, Lindaura, filha de antigos garimpeiros, recebe turistas com café e bolinhos de chuva e compartilha fotografias, objetos antigos e relatos sobre o período em que a extração de diamantes sustentava a economia de Igatu.

Como literatura e cinema ajudaram a eternizar Igatu?
A pequena vila de Igatu também ocupa lugar importante na cultura brasileira. Foi ali que nasceu o escritor Herberto Sales, autor do romance Cascalho, obra que retrata o cotidiano dos garimpeiros, os conflitos sociais e o poder dos coronéis durante o ciclo do diamante na Chapada Diamantina. O livro se tornou uma das referências da literatura regional baiana.
O cenário de ruas de pedra e ruínas históricas também despertou interesse do cinema nacional. Em 2008, Igatu serviu de locação para o filme Besouro, inspirado na trajetória do lendário capoeirista do Recôncavo Baiano. Até o próprio nome da vila carrega influência indígena: “Igatu” vem do tupi e significa “água boa”, referência aos rios e nascentes que cercam a região serrana.
Quando ir e o que esperar do clima na serra
Igatu fica a cerca de 800 metros de altitude, o que deixa as noites mais frescas do que nas cidades baixas da Chapada. A chuva se concentra entre novembro e março. O período mais seco, de junho a setembro, é o mais procurado.
Temperaturas aproximadas com base no Climatempo para Andaraí. Em Igatu, pela altitude, as mínimas podem ser alguns graus mais baixas.
Como chegar à vila de pedra da Chapada Diamantina?
O acesso a Igatu começa por Andaraí, município localizado a cerca de 430 km de Salvador pela BR-242. A partir dali, o visitante percorre aproximadamente 14 km por uma antiga estrada de pedra aberta ainda no século XIX pelos garimpeiros da região. O trajeto atravessa a Serra do Sincorá e exige atenção de veículos mais baixos devido ao calçamento irregular.
Para quem prefere avião, o aeroporto mais próximo é o de Lençóis (LEC), situado a cerca de 90 km da vila. A partir do terminal, é possível seguir de carro alugado ou contratar transfers que conectam os principais destinos da Chapada Diamantina até Igatu.
A vila que transformou ruínas em patrimônio
O que poderia ter se tornado apenas mais um povoado abandonado do interior baiano acabou ganhando nova vida através da memória e do turismo cultural. As construções de pedra deixadas pelo ciclo do diamante se transformaram em símbolo da identidade de Igatu, atraindo visitantes interessados em história, natureza e silêncio.
Passar ao menos uma noite na vila faz parte da experiência. Entre ruas de pedra, ruínas preservadas e conversas com moradores antigos, Igatu revela um ritmo raro, onde a memória do garimpo ainda parece ecoar pelas montanhas da Chapada Diamantina.




