O sol reflete nos azulejos portugueses que revestem as ladeiras de pedra, enquanto o grave das radiolas de reggae ecoa entre os casarões coloniais. São Luís, capital do Maranhão, é a única cidade brasileira fundada por franceses, abriga o maior conjunto de azulejos portugueses da América Latina e carrega o apelido de Jamaica Brasileira.
Três colonizadores marcaram a história de uma só ilha
Em 8 de setembro de 1612, a expedição comandada por Daniel de La Touche construiu o Forte de Saint-Louis na ilha de Upaon-Açu, batizando-o em homenagem ao rei Luís XIII. Três anos depois, os portugueses reconquistaram o território. Já em 1641, os holandeses liderados por Maurício de Nassau ocuparam a cidade por três anos. A passagem dessas diferentes potências coloniais deixou marcas no desenho urbano e na identidade cultural que caracterizam São Luís até hoje.
No século XIX, a prosperidade gerada pelo algodão ajudou a financiar uma geração de escritores que projetou São Luís na literatura nacional. Entre eles estavam Gonçalves Dias, Aluísio Azevedo e Graça Aranha, nomes que contribuíram para consolidar o título de Atenas Brasileira. O centro histórico, tombado pelo IPHAN em 1974 e reconhecido pela UNESCO em 1997, concentra cerca de 4 mil imóveis distribuídos por 220 hectares.

Quais atrações conhecer na Cidade dos Azulejos?
Os casarões do centro histórico reúnem mais de 80 padrões de azulejos catalogados, originários de Portugal, França e Holanda. Além do valor decorativo, essas peças tinham uma função prática: as superfícies vitrificadas ajudavam a refletir a luz solar e a proteger as paredes contra a umidade tropical.
- Rua Portugal e Rua do Giz: estão entre os trechos mais bonitos da área tombada, com sobrados revestidos de azulejos, bares e cafés que movimentam a boemia de São Luís.
- Palácio dos Leões: abriga a sede do governo estadual e preserva elementos decorativos franceses originais dos séculos XVIII e XIX. Do local, também é possível contemplar a Baía de São Marcos.
- Teatro Arthur Azevedo: um dos teatros mais antigos do país, representa a tradição literária que rendeu à cidade o título de Atenas Brasileira.
- Casa do Maranhão: localizado na Praia Grande, o museu tem entrada gratuita e exposições dedicadas ao Bumba Meu Boi e às manifestações populares maranhenses.
- Beco Catarina Mina: possui uma escadaria de 35 degraus revestidos com pedras de lioz do século XVII. O nome homenageia uma mulher negra da Costa da Mina que acumulou fortuna e conquistou a liberdade de pessoas escravizadas.
- Museu do Reggae: aberto em 2018, é o único museu dedicado ao gênero musical fora da Jamaica.
Bumba Meu Boi, uma tradição que toma conta das ruas
O Bumba Meu Boi do Maranhão recebeu da UNESCO o título de Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade em 2019. As celebrações acontecem entre junho e julho e se organizam em cinco sotaques: matraca, zabumba, orquestra, baixada e costa de mão. Cada grupo apresenta coreografias, instrumentos musicais e bordados característicos.
Outra manifestação marcante é o Tambor de Crioula, dança de origem africana em que as mulheres se alternam na roda e executam a chamada “punga”, um toque de barriga. A expressão cultural é reconhecida como Patrimônio Imaterial nacional desde 2007. São Luís reúne uma combinação singular de reconhecimentos: o centro histórico é Patrimônio Mundial da UNESCO, enquanto o Bumba Meu Boi integra a lista de Patrimônio Cultural Imaterial da organização.
Arroz de cuxá e guaraná cor-de-rosa
A culinária de São Luís combina influências indígenas, africanas e portuguesas, com ingredientes e preparações tradicionais da região.
- Arroz de cuxá: considerado um dos pratos mais representativos da culinária maranhense, é preparado com vinagreira, folha de hibisco trazida por africanos, camarão seco e gergelim torrado.
- Torta de camarão: receita tradicional das festas juninas, leva ovos, batata e um recheio generoso de camarão ou caranguejo.
- Juçara: versão maranhense do açaí, de textura mais aveludada, servida gelada com farinha de tapioca e peixe frito.
- Guaraná Jesus: refrigerante cor-de-rosa típico do Maranhão, com notas de cravo e canela, criado há mais de um século.

Como chegar à Ilha do Amor?
O Aeroporto Internacional Marechal Cunha Machado fica a 12 km do centro histórico e recebe voos diretos de São Paulo, Brasília, Fortaleza e Belém. Por terra, a BR-135 é o principal acesso rodoviário. De Teresina, são 446 km pela BR-316. São Luís também é a porta de entrada para os Lençóis Maranhenses, a 260 km pela MA-402.
Suba as ladeiras ao som de uma radiola
São Luís é a cidade onde o azulejo português divide a parede com o rosto pintado de Bob Marley. O centro histórico guarda quatro séculos de arquitetura intacta, o Bumba Meu Boi transforma junho em espetáculo e o arroz de cuxá resume numa colherada a mistura de povos que construiu a ilha.
Você precisa subir as ladeiras da Praia Grande ao entardecer e provar o cuxá em um casarão de 200 anos para entender por que São Luís se chama Ilha do Amor.




