Seu gato parou de subir no sofá, passou a dormir enfiado atrás da máquina de lavar, e quanto tempo você levaria para pensar em dor? Na maioria das casas a resposta é semanas. O bicho continua comendo, continua usando a caixa de areia, não manca, não solta um miado de queixa, e o tutor conclui que ele anda mais quieto porque envelheceu.
A pergunta prática, como saber se o gato está com dor, saiu do terreno do palpite em 2019. Naquele ano a revista Scientific Reports publicou o trabalho de Marina C. Evangelista e colegas da Université de Montréal, que desenvolveu e validou a Feline Grimace Scale, apresentada em português como Escala de Careta Felina. O método deixa o comportamento de lado e olha para um lugar só: o rosto.
São cinco pontos, das orelhas aos bigodes, cada um com nota de 0 a 2. A soma vai até 10, e existe um valor a partir do qual o animal precisa de analgesia. Nada disso vira consulta em casa. O que o tutor ganha é uma coisa só: um jeito de olhar o rosto do bicho antes de pegar a caixa de transporte.
Por que a espécie esconde a dor mesmo sem predador por perto?
A resposta não está no temperamento do bicho. As diretrizes de 2022 da WSAVA para reconhecimento, avaliação e tratamento da dor, publicadas também em português, colocam a explicação na biologia do animal: “Os gatos, que são tanto predadores quanto presas, são hábeis em mascarar a dor através da minimização das manifestações comportamentais da dor”. Quem caça e ao mesmo tempo pode ser caçado paga caro por parecer frágil, e o gato de apartamento carrega esse mecanismo intacto, mesmo sem predador algum por perto. O resultado é conhecido de qualquer clínica: fratura antiga, dente inflamado ou artrose avançada convivendo com um animal que, para o tutor, só estava mais caseiro. Vale checar aqueles sinais que o tutor costuma creditar à idade avançada do animal antes de aceitar a explicação fácil.
A escala nasce exatamente desse impasse. Se o gato controla o que faz, resta observar o que ele não controla, e a musculatura da face é involuntária.
Como saber se o gato está com dor pelos cinco pontos do rosto?

A Escala de Careta Felina tem cinco unidades de ação facial, nem uma a mais.
- Posição das orelhas: em vez de eretas e voltadas para a frente, elas se afastam uma da outra e giram para fora.
- Aperto orbital: a abertura dos olhos diminui, e o gato passa a manter as pálpebras parcialmente cerradas mesmo acordado.
- Tensão do focinho: o focinho perde o formato arredondado e fica achatado, alongado, como esticado para os lados.
- Posição dos bigodes: as vibrissas deixam de cair relaxadas e se projetam para a frente, afastadas entre si.
- Posição da cabeça: a cabeça desce abaixo da linha dos ombros ou fica inclinada para baixo.
Cada item recebe 0 quando a alteração está ausente, 1 quando aparece de forma moderada ou o avaliador fica em dúvida, e 2 quando é evidente. É a mesma lógica das escalas de careta usadas em outras espécies, e o site oficial mantido pela universidade, com página e material de consulta em português, reúne as imagens de referência e o aplicativo gratuito para pontuar cada unidade.
Quanto vale a nota 4 numa soma que chega a 10?
A escala tem um ponto de corte, e ele não é arbitrário. No artigo original publicado na Scientific Reports, o limiar para analgesia de resgate ficou acima de 0,39 na escala normalizada de 0 a 1, o que corresponde a 4 pontos em 10 na soma bruta das cinco unidades. Nesse corte, o estudo relatou sensibilidade de 90,7% e especificidade de 86,6%, ou seja, a escala acerta a maior parte dos gatos que estão com dor sem sinalizar dor demais em quem não está. As diretrizes da WSAVA repetem o mesmo valor de referência, 4 ou mais em 10, para indicar que o animal precisa de medicação analgésica prescrita.
Fica claro o que a escala faz e o que ela não faz: quatro pontos não dizem por que o gato sente dor, dizem que ele sente. A causa continua sendo trabalho de exame clínico, radiografia e exame de boca.
O que aconteceu quando tutores comuns pontuaram os gatos?
A escala também foi testada fora do consultório. Em 2021, Evangelista e Paulo Steagall publicaram na mesma Scientific Reports um teste de concordância com 20 avaliadores divididos em quatro grupos de cinco: tutores de gatos, estudantes de veterinária, enfermeiros veterinários e médicos veterinários. A confiabilidade entre avaliadores para o escore final ficou em 0,80 entre os tutores e 0,86 entre os veterinários, e a discordância que sobrou entre os grupos ficou abaixo do que jogaria um gato para o outro lado do corte de 4. Em 2023, uma pesquisa global de Beatriz Monteiro, Netta Lee e Steagall no Journal of Feline Medicine and Surgery ampliou o teste para 1.262 tutores que responderam integralmente ao questionário, em inglês e espanhol, e encontrou confiabilidade de 0,65 entre eles, contra 0,85 no grupo de veterinários.
Uma ferramenta que sobrevive à mão de quem nunca estudou anestesia vale mais do que uma precisão de laboratório que nunca sai do hospital. A diferença entre 0,65 e 0,85 mostra o tamanho do treino que falta ao tutor, não a inutilidade da escala na sala de casa. Quem se interessa por leitura de sinal felino já conhece a lógica de outro debate, o de por que o felino da casa elege como favorita a pessoa que menos o persegue.
Quem pode tratar a dor do gato depois da pontuação?
No Brasil, o passo seguinte à pontuação tem endereço definido em lei. A Lei 5.517, de 1968, que regulamenta a profissão, lista no artigo 5º a prática da clínica em todas as suas modalidades como competência privativa do médico-veterinário, ao lado da assistência técnica e sanitária aos animais sob qualquer forma. Diagnóstico e prescrição não são território de tutor, de vizinho nem de balconista de pet shop, e remédio humano de armário de casa está fora de qualquer hipótese. O CFMV reforça esse recado ao tratar de quadros dolorosos comuns em gatos: no material do conselho sobre a síndrome urológica felina, os primeiros indícios apontados são justamente a dor ao urinar, o sangue na urina e a mudança de comportamento notada em casa, com tratamento indicado apenas por profissional habilitado.
O que convém lembrar sobre dor em gatos?
O método tem uma ordem, e ela importa. Fotografe o rosto do gato de frente e de perfil, com o animal em repouso e sem interação, e repita a foto em dias diferentes para ter uma base de comparação. Pontue orelhas, olhos, focinho, bigodes e cabeça de 0 a 2 cada, some, e trate 4 em 10 como sinal de procurar a clínica no mesmo dia, não na semana seguinte. Anote também a data em que o comportamento mudou, porque o intervalo entre o primeiro sinal e a consulta costuma ser a informação que falta ao veterinário. E não espere ver o bicho mancando: dente, bexiga e coluna doem sem alterar a marcha.
Nada aqui substitui a consulta. O caráter é informativo e a base são estudos publicados e de fontes oficiais, sem função de diagnóstico. Nenhuma pontuação obtida em casa identifica a causa da dor nem autoriza qualquer medicação por conta própria: a avaliação do seu gato cabe ao médico-veterinário, em consulta.




