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Veterinários alertam que o gato pode sentir dor por semanas sem mancar e sem miar, e desde 2019 existe uma escala criada em Montreal que lê cinco pontos do rosto do animal, das orelhas aos bigodes, para encontrar o que ele não demonstra no comportamento

Por João Victor
09/09/2026
Em Curiosidades
Gato encolhido em um canto escondido da área de serviço

Gato encolhido em um canto escondido da área de serviço. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Seu gato parou de subir no sofá, passou a dormir enfiado atrás da máquina de lavar, e quanto tempo você levaria para pensar em dor? Na maioria das casas a resposta é semanas. O bicho continua comendo, continua usando a caixa de areia, não manca, não solta um miado de queixa, e o tutor conclui que ele anda mais quieto porque envelheceu.

A pergunta prática, como saber se o gato está com dor, saiu do terreno do palpite em 2019. Naquele ano a revista Scientific Reports publicou o trabalho de Marina C. Evangelista e colegas da Université de Montréal, que desenvolveu e validou a Feline Grimace Scale, apresentada em português como Escala de Careta Felina. O método deixa o comportamento de lado e olha para um lugar só: o rosto.

São cinco pontos, das orelhas aos bigodes, cada um com nota de 0 a 2. A soma vai até 10, e existe um valor a partir do qual o animal precisa de analgesia. Nada disso vira consulta em casa. O que o tutor ganha é uma coisa só: um jeito de olhar o rosto do bicho antes de pegar a caixa de transporte.

Por que a espécie esconde a dor mesmo sem predador por perto?

A resposta não está no temperamento do bicho. As diretrizes de 2022 da WSAVA para reconhecimento, avaliação e tratamento da dor, publicadas também em português, colocam a explicação na biologia do animal: “Os gatos, que são tanto predadores quanto presas, são hábeis em mascarar a dor através da minimização das manifestações comportamentais da dor”. Quem caça e ao mesmo tempo pode ser caçado paga caro por parecer frágil, e o gato de apartamento carrega esse mecanismo intacto, mesmo sem predador algum por perto. O resultado é conhecido de qualquer clínica: fratura antiga, dente inflamado ou artrose avançada convivendo com um animal que, para o tutor, só estava mais caseiro. Vale checar aqueles sinais que o tutor costuma creditar à idade avançada do animal antes de aceitar a explicação fácil.

A escala nasce exatamente desse impasse. Se o gato controla o que faz, resta observar o que ele não controla, e a musculatura da face é involuntária.

Como saber se o gato está com dor pelos cinco pontos do rosto?

Rosto do gato de frente, com orelhas, olhos, focinho e bigodes visíveis
Rosto do gato de frente, com orelhas, olhos, focinho e bigodes visíveis. Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

A Escala de Careta Felina tem cinco unidades de ação facial, nem uma a mais.

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  • Posição das orelhas: em vez de eretas e voltadas para a frente, elas se afastam uma da outra e giram para fora.
  • Aperto orbital: a abertura dos olhos diminui, e o gato passa a manter as pálpebras parcialmente cerradas mesmo acordado.
  • Tensão do focinho: o focinho perde o formato arredondado e fica achatado, alongado, como esticado para os lados.
  • Posição dos bigodes: as vibrissas deixam de cair relaxadas e se projetam para a frente, afastadas entre si.
  • Posição da cabeça: a cabeça desce abaixo da linha dos ombros ou fica inclinada para baixo.

Cada item recebe 0 quando a alteração está ausente, 1 quando aparece de forma moderada ou o avaliador fica em dúvida, e 2 quando é evidente. É a mesma lógica das escalas de careta usadas em outras espécies, e o site oficial mantido pela universidade, com página e material de consulta em português, reúne as imagens de referência e o aplicativo gratuito para pontuar cada unidade.

Quanto vale a nota 4 numa soma que chega a 10?

A escala tem um ponto de corte, e ele não é arbitrário. No artigo original publicado na Scientific Reports, o limiar para analgesia de resgate ficou acima de 0,39 na escala normalizada de 0 a 1, o que corresponde a 4 pontos em 10 na soma bruta das cinco unidades. Nesse corte, o estudo relatou sensibilidade de 90,7% e especificidade de 86,6%, ou seja, a escala acerta a maior parte dos gatos que estão com dor sem sinalizar dor demais em quem não está. As diretrizes da WSAVA repetem o mesmo valor de referência, 4 ou mais em 10, para indicar que o animal precisa de medicação analgésica prescrita.

Fica claro o que a escala faz e o que ela não faz: quatro pontos não dizem por que o gato sente dor, dizem que ele sente. A causa continua sendo trabalho de exame clínico, radiografia e exame de boca.

O que aconteceu quando tutores comuns pontuaram os gatos?

A escala também foi testada fora do consultório. Em 2021, Evangelista e Paulo Steagall publicaram na mesma Scientific Reports um teste de concordância com 20 avaliadores divididos em quatro grupos de cinco: tutores de gatos, estudantes de veterinária, enfermeiros veterinários e médicos veterinários. A confiabilidade entre avaliadores para o escore final ficou em 0,80 entre os tutores e 0,86 entre os veterinários, e a discordância que sobrou entre os grupos ficou abaixo do que jogaria um gato para o outro lado do corte de 4. Em 2023, uma pesquisa global de Beatriz Monteiro, Netta Lee e Steagall no Journal of Feline Medicine and Surgery ampliou o teste para 1.262 tutores que responderam integralmente ao questionário, em inglês e espanhol, e encontrou confiabilidade de 0,65 entre eles, contra 0,85 no grupo de veterinários.

Uma ferramenta que sobrevive à mão de quem nunca estudou anestesia vale mais do que uma precisão de laboratório que nunca sai do hospital. A diferença entre 0,65 e 0,85 mostra o tamanho do treino que falta ao tutor, não a inutilidade da escala na sala de casa. Quem se interessa por leitura de sinal felino já conhece a lógica de outro debate, o de por que o felino da casa elege como favorita a pessoa que menos o persegue.

Quem pode tratar a dor do gato depois da pontuação?

No Brasil, o passo seguinte à pontuação tem endereço definido em lei. A Lei 5.517, de 1968, que regulamenta a profissão, lista no artigo 5º a prática da clínica em todas as suas modalidades como competência privativa do médico-veterinário, ao lado da assistência técnica e sanitária aos animais sob qualquer forma. Diagnóstico e prescrição não são território de tutor, de vizinho nem de balconista de pet shop, e remédio humano de armário de casa está fora de qualquer hipótese. O CFMV reforça esse recado ao tratar de quadros dolorosos comuns em gatos: no material do conselho sobre a síndrome urológica felina, os primeiros indícios apontados são justamente a dor ao urinar, o sangue na urina e a mudança de comportamento notada em casa, com tratamento indicado apenas por profissional habilitado.

O que convém lembrar sobre dor em gatos?

O método tem uma ordem, e ela importa. Fotografe o rosto do gato de frente e de perfil, com o animal em repouso e sem interação, e repita a foto em dias diferentes para ter uma base de comparação. Pontue orelhas, olhos, focinho, bigodes e cabeça de 0 a 2 cada, some, e trate 4 em 10 como sinal de procurar a clínica no mesmo dia, não na semana seguinte. Anote também a data em que o comportamento mudou, porque o intervalo entre o primeiro sinal e a consulta costuma ser a informação que falta ao veterinário. E não espere ver o bicho mancando: dente, bexiga e coluna doem sem alterar a marcha.

Nada aqui substitui a consulta. O caráter é informativo e a base são estudos publicados e de fontes oficiais, sem função de diagnóstico. Nenhuma pontuação obtida em casa identifica a causa da dor nem autoriza qualquer medicação por conta própria: a avaliação do seu gato cabe ao médico-veterinário, em consulta.

Tags: Dorgatosmedicina veterináriapets
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