LAZER

Praças e espaços públicos se tornam referências de conexão e solidariedade

Com a pandemia, produtores culturais passaram a ter outro olhar sobre o entretenimento, o de que não basta realizar eventos, mas também se importar com o papel social das programações

Mariane Rodrigues
postado em 14/08/2021 06:00 / atualizado em 14/08/2021 15:10
 (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press - 02/01/2021      )
(crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press - 02/01/2021 )

Após um ano e meio de pandemia e com a flexibilização de algumas medidas de distanciamento social, moradores da capital federal buscam conciliar opções de lazer com os cuidados contra a covid-19. Nessa difícil equação, o entretenimento em espaços abertos é uma das alternativas mais procuradas, e as praças e parques públicos se converteram em lugares propícios para a diversão do brasiliense. Uma tendência percebida por produtores culturais e organizadores de eventos.

Foi o que captaram as artistas Ana Flávia Garcia, Elisa Carneiro e o companheiro de trabalho Gabriel Guirá, integrantes do grupo Tríade Brinquedo que, durante os meses de agosto e setembro, levará poesia, teatro, música, artes plásticas e gráficas para 12 praças do Guará, por meio do projeto Malacatifa — 12 Formas de Sonhar a Praça.

O trio vai aproveitar o fluxo das pessoas transitando pelo Guará I e II e trazer mais alegria aos moradores da região. “Queremos povoar essas praças com nossos sonhos, ocupar esses lugares e promover o encontro entre as pessoas”, explica a artista Elisa Carneiro. A idealizadora do projeto Ana Flávia Garcia complementa que a intervenção artística propõe um chamado ao lazer para os moradores das proximidades das praças. “Pode olhar, pode sentir, pode poetizar, pode jogar, pode se sentir livre para utilizar o espaço porque é nosso”, afirma a diretora.

No auge da pandemia, o grupo começou a amadurecer a proposta e como foram contemplados com o Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal (FAC) da Secretaria de Cultura e Economia Criativa do DF foi o sinal verde para iniciar os trabalhos. Eles acreditam que este momento é para uma “reestruturação social pós-isolamento” e veem o resgate das atividades culturais como fundamentais para a região administrativa.

Em Planaltina, é o Artesanal Beer Festival que movimenta a cidade este mês. O empresário local Gamaniel Silva acredita que os espaços públicos têm capacidade para receber alguns eventos e teve a ideia de reunir de uma vez só a sua paixão por cervejas artesanais e uma oportunidade de negócios. “Eu e um amigo estávamos conversando e surgiu uma ideia meio que na brincadeira. Pensamos, vamos fazer um festival de cervejas “gourmet”, trazer para fora do centro de Brasília e com isso, ajudar também a população local” detalha o empresário. A data ainda não foi definida, mas acontecerá entre o fim de agosto e o início de setembro, na praça da Administração de Planaltina. A entrada será gratuita, apenas com o pedido de doação de 1kg de alimento não perecível, que será destinado à população carente da cidade. Gamaniel confia que este evento será o primeiro de muitos e que a intenção é tornar o festival anual.

 

Entretenimento e responsabilidade

 (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press)
crédito: Minervino Júnior/CB/D.A Press

Para alguns produtores culturais, a pandemia trouxe outro olhar sobre o entretenimento, o de que não basta levar os projetos aos locais, mas também o questionamento de qual é o papel social das programações. Um exemplo dessa produção cultural consciente é o Festival Música Solidária, criado por Jeann Cunha, 34 anos, prefeito comunitário da praça 105 da Asa Norte. Ele, outras prefeituras comunitárias, musicistas e produtores independentes se reuniram sob o intento de levar música aos moradores da Asa Sul mesmo com o distanciamento social. Para isso, foram criadas apresentações em formato de serenata. “O movimento foi incrível, bem colaborativo, e estamos gravando um documentário com todo o projeto, desde o ano passado. Queremos lançar no fim do ano”, comenta Jean ao Correio, em primeira mão.

A equipe, que tem feito uma apresentação por mês nas quadras e praças da Asa Sul, vai dobrar as sessões a partir de setembro. As edições são divulgadas apenas na semana em que se apresentarão, para evitar aglomerações. Os envolvidos recolhem doações como comida, roupas, brinquedos, livros e dinheiro para doarem para projetos sociais que atendem a pessoas em situação de vulnerabilidade social do DF. A cada edição, eles ajudam três locais diferentes. Na última ação, as contribuições foram entregues para o R.U.A.S. na Ceilândia, Projeto Cor do Amor e Lar dos Velhinhos em Sobradinho.

Para eles, a paralisação das atividades no ano passado foi um gatilho para essa mobilização, mas a intenção dos integrantes é manter o festival mesmo com o fim da pandemia, e continuar levando cultura, arte e música para as comunidades de diferentes regiões do DF.

A produtora e roadie Angélica Rodrigues, 29, é a proprietária da Kombiando, empresa de sonorização que atua com diversos artistas e no segmento de eventos. Ela conta que, quando soube do projeto, abraçou a ideia e ficou empolgada ao descobrir que beneficiaria vários públicos. “Achei muito legal, porque além de beneficiar instituições carentes, também era uma questão de urgência para os artistas e para a área técnica. Foi um projeto que acrescentou muito. Agora, a gente quer somar o público com a música de qualidade e as doações à instituições em situação de vulnerabilidade”, conta a jovem que acredita no potencial de projetos independentes e solidários.

No ano passado, a professora Patrícia Meschick, 37, ficou sabendo do festival por meio do Instagram. Moradora na Asa Norte, ela diz que não vê a hora de ver o grupo se apresentar sob sua janela. Enquanto isso não acontece, ela conta que acompanhou algumas edições na Asa Sul e, hoje, o projeto Música Solidária está em sua dissertação de mestrado. “Eu pesquiso o uso de espaços públicos da cidade, tendo o recorte do momento pandêmico, e tenho estudado o festival para minha dissertação de mestrado em design sobre imaginários urbanos de Brasília” explica. Para ela, o festival veio como um alento, neste momento de isolamento social, tanto para as pessoas que moram nas quadras — o público —, quanto para os músicos e técnicos que ficaram tanto tempo sem apresentar ao vivo sua arte, seu ofício. “As primeiras edições que acompanhei me emocionaram muito, porque via os músicos se apresentando para pessoas em suas casas, respeitando o momento, mas trazendo esse carinho. Ao mesmo tempo, vi as pessoas agradecidas contribuindo com os músicos e com outros projetos sociais vinculados ao festival”, detalha a professora.

Para o antropólogo Paíque Santarém, 35, a cidade existe pela soma dos espaços públicos. “Falar de cidade é falar dessa possibilidade que a praça criou, que é a tecnologia do encontro. Se formos ver as leituras das cidades, sejam elas greco romanas, das antigas e milenares cidades africanas, cidades incas, a gente percebe que esses espaços foram criados para o encontro de pessoas, que a gente conhece hoje como praças. Então, a cidade é isso, é o encontro de pessoas em espaços públicos denominados como praças”, explica. Ele explica que com o surgimento de shoppings, casas e locais fechados, esses mecanismos de encontro ficaram abafados, só que a pandemia reconfigurou essa dinâmica e a população acabou se reconectando. “De certo modo, foi a reconstrução da cidade e possibilidade dos encontros em praças novamente”, finaliza o antropólogo.


Malacatifa — 12 Formas de Sonhar a Praça

Agosto

» Dia 14, sábado – QI 10 Dia 15, domingo – QI 06
» Dia 21, sábado – QI 14 Dia 22, domingo – QI 22
» Dia 28, sábado – QI 21 Dia 29, domingo – QI 20

Setembro

» Dia 04, sábado – QE 15 Dia 11, sábado – QE 17
» Dia 18, sábado – QE 28 Dia 19, domingo – QE 30
» Dia 25, sábado – QE 34

Outubro

» Dia 02, sábado – QE 21
» Das 14h às 18h, nas praças do Guará I e II
» Entrada franca
» Classificação indicativa livre

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