Cidadania

Pandemia agrava o drama das pessoas que vivem em situação de rua no DF

Com a crise sanitária, em 2020, houve aumento de 20% da população que não tem onde viver no DF. Em 2021, o número é 17,5% maior que o do ano passado, o que representa mais de 2,3 mil pessoas. Esse público luta por moradia e oportunidade de emprego

Samara Schwingel
postado em 21/08/2021 06:00 / atualizado em 21/08/2021 14:29
 (crédito: MINERVINO JUNIOR                    )
(crédito: MINERVINO JUNIOR )

Com a pandemia da covid-19, o cenário social do Distrito Federal sofreu grande impacto. De acordo com dados da Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes), este ano, até o momento, há 2.303 pessoas em situação de rua na capital federal. O número é 17,5% maior do que o registrado em 2020 (2.181). Taguatinga, Ceilândia, Planaltina e Plano Piloto são os locais com maior incidência. Para especialistas, a crise sanitária agravou a situação dessa parcela da população e, para ajudá-los, é preciso investir em medidas de acolhimento e prevenção. Quem vive na rua relata dias difíceis, mas sonha com o momento em que terão a oportunidade de mudar sua história.

Comparando 2019 a 2020, há um aumento no número de pessoas em situação de rua de 20% (Veja evolução). Segundo a Sedes, devido à ameaça sanitária, as equipes de atendimento observaram que muitas famílias passaram a vivem nas ruas. O sociólogo, ativista e mestrando em planejamento urbano Raphael Sebba ressalta há uma condição específica para alguém se considerada em situação de rua. “É importante diferenciar. Os sem-teto estão em situação de vulnerabilidade, ou seja, podem estar morando em uma casa superlotada quando precisam de uma casa só para eles. Os em situação de rua, realmente, não têm onde se abrigar”, detalha, referindo-se, também, ao tempo, que pode ser de uma noite ou anos.

Para Raphael, o número apresentado pelo Governo do Distrito Federal (GDF) é subnotificado, pois não há pesquisas recentes que considerem toda a população em situação de rua, uma vez que grande parte dos estudos realizam as entrevistas com base no local de moradia das pessoas. O sociólogo considera que é difícil pensar em uma solução universal, no entanto frisa que medidas de prevenção devem ser foco dos gestores. “O ideal seria que não houvesse nenhuma pessoa em situação de rua, mas, neste momento, é preciso pensar em ter políticas de acolhimento e de prevenção como diminuir o desemprego e o deficit habitacional”, completa.

Gerusa Campos, 42 anos, vive na rua há três anos. Atualmente, está no Setor Comercial Sul (SCS). Nascida no Espírito Santo, ela veio para Brasília tentar uma vida melhor. Quando viu a equipe de reportagem do Correio, Gerusa e outros que lá ficavam se assustaram. Muitos se levantaram e saíram do local. Após entender o intuito da reportagem, a mulher contou sua história. “Perdi o meu dinheiro e vim tentar recuperá-lo. Mas nunca havia morado na rua. Eu trabalhava como doméstica”, lembra.

Hoje, Gerusa passa as manhãs no SCS em meio a colchões, roupas e pertences religiosos, como terços, e comidas que consegue com doações. “Para dormir, eu vou atrás de um prédio, aqui perto. Abrigo não dá. Tem muita gente, tem percevejos nas camas. A gente não gosta disso”, diz. Ela relata que a vida pelas vias do DF é repleta de altos e baixos. “Ninguém é perfeito, nós brigamos, mas temos que nos resolver depois, porque precisamos uns dos outros”, completa.

Gerusa considera que os atendimentos públicos ajudam, entretanto não resolvem o problema. “Temos lugar para tomar banho, recebemos comida e atendimento médico, mas não é só sobre isso. Não é porque estamos na rua, que não somos cidadãos. Muito pelo contrário. Precisamos de moradia, de emprego”, pede. Ela tem quatro filhos que moram com parentes em outros estados do Brasil e diz que acompanha todos a distância. “Faço o que posso”.

Sonho

Regina Lopes, 51, compartilha o SCS com Gerusa e tantos outros. Na rua há cinco anos, ela veio do interior de São Paulo para fazer uma cirurgia. “Tinha me separado do meu ex-marido. Meu filho estava com ele. Aí, eu vim sozinha. Aqui, consegui ser atendida, mas, depois, não tinha onde ficar. Então, eu vim para a rua e aqui estou”, descreve. Hoje, a maior companheira de Regina é uma vira-lata. “Ela me acompanha para todo lugar e não se importa com o fato de eu estar na rua. Não me deixa por causa disso”, reflete.

Apesar de aguardar há cinco anos, Regina espera pelo momento em que conseguirá ser contemplada com uma moradia. “Conheço pessoas que estão por aqui há 10 ou 15 anos e até hoje não conseguiram. Mas tenho fé que nossa hora vai chegar”, completa. Ela destaca que há diversos fatores que levam alguém a viver na rua. “Ao contrário do que pensam, não é sempre por causa de droga ou porque somos vagabundos. Tem o lado psicológico, familiar. Muita coisa”, argumenta.

A técnica em assistência social Marília Sampaio explica que apesar de a questão financeira ser, muitas vezes, determinantes para uma pessoa a estar em situação de rua, há outros elementos que podem levar às marquises. “O principal fator é o econômico, a dificuldade de se manter em uma casa. Porém, tem questões emocionais. Quando as pessoas rompem casamento, brigam com a família ou têm questões doenças como depressão, bipolaridade e outros transtornos mentais, elas são mais suscetíveis a estar nessa situação”, enumera.

Marília diz que Brasília é um local chamativo, o que contrasta com a pouca estrutura para acolhimento. “Muitas pessoas vêm em busca de tratamento nos hospitais ou de emprego. Porém, sabemos que não é bem assim. Temos as unidades de acolhimento, mas faltam vagas. A pessoa vem para uma situação temporária e acaba ficando mais tempo na rua”, completa. Ela argumenta que é preciso a construção de casas de passagem e conscientização da população para que se desmarginalize as pessoas em situação de rua.

Oportunidade

Além das ações do governo local para atendimento à população em situação de rua, algumas ONGs trabalham para dar apoio a esse público. Felipe Velloso é diretor social do Instituto NoSetor, que presta alguns atendimentos. “A gente tenta facilitar o acesso dessas pessoas às políticas públicas já existentes, além de prestar apoio com médicos, psicólogos e assistentes sociais”, diz. Ele considera que as necessidades de cada um são distinta. “Essa população precisa de atenção e oportunidade”, ressalta.

Mairla da Silva é ativista da causa e faz parte do Movimento População de Rua do DF. Ela pondera que a maior luta, atualmente, é em relação às moradias e ao trabalho. “Essa população é muito negligenciada e sofre com preconceito. As oportunidades de emprego que já não são muitas para quem tem moradia fixa, durante a pandemia, ficaram ainda mais escassas”, constata. Mairla reforça que, além de doações de alimentos e roupas, é importante as pessoas considerem contratar quem está em situação de rua, pois, assim, pode ajudá-la a sair dessa condição.


Evolução

Ano                População em situação de rua
2019              1.959
2020              2.181
2021              2.303 (até março)

Ações de apoio

A fim de prestar apoio às pessoas em situação de rua e àquelas em vulnerabilidade social, a Secretaria de Desenvolvimento Social do DF (Sedes-DF) oferece programas e serviços. Segundo a pasta, 28 equipes circulam diariamente, das 8h às 22h, para realizar o atendimento de quem está nas ruas. Os profissionais orientam sobre iniciativas, ações, serviços e benefícios sociais a que essas pessoas têm direito e ofertam vagas nas unidades de acolhimento. Atualmente, o DF conta com 16 casas de passagem para adultos e famílias, com 903 vagas; seis abrigos institucionais para idosos, com 286 vagas; e 40 locais para acolhimento de crianças e adolescentes, com 425 vagas.

Para ter acesso a esses serviços, é preciso procurar ou entrar em contato com o Centro Pop ou com os agentes que circulam e abordam os cidadãos, que eles providenciarão o atendimento e o pedido da vaga no serviço de acolhimento via Central de Acolhimento.

Outras ações visam diminuir a quantidade de pessoas que usam espaços públicos como moradia. Os principais são os Centros Pops — unidades públicas de assistência social onde são ofertados atendimentos individuais e coletivos, oficinas, atividades de convívio e socialização. A Sedes ressalta que não se trata de abrigos, mas de uma porta de entrada para a aplicação de políticas públicas. Os dois centros do DF conseguem atender entre 100 e 150 pessoas por dia, e não é preciso agendamento.

Nos 27 centros de referência de assistência social (Cras) e nos 11 centro de referência especializado de assistência social (Creas), a pessoa deve entrar em contato pelo telefone 156 ou pelo site da Sedes e solicitar o agendamento. A secretaria pede que o usuário não vá diretamente às unidades antes de fazer a solicitação, a fim de evitar filas e possíveis riscos de disseminação da covid-19.

A Sedes explica que as pessoas podem ficar nos abrigos até que alcancem autonomia ou queiram sair. “Ninguém é obrigado a ficar no acolhimento institucional, salvo quando o Estado tem a guarda, como é o caso das crianças e adolescentes. As equipes fazem um trabalho de fortalecimento de vínculo, para que esse público consiga identificar as possibilidades que ele tem para sair da situação de rua”, informou a secretaria em nota. Para trabalhos, a Secretaria de Trabalho do DF (Setrab-DF) oferece cursos capacitantes e vagas. Os interessados devem procurar o serviço espontaneamente.

Centros Pops

» Centro Pop Taguatinga
Capacidade para atender
100 pessoas por dia
Endereço: QNF 24 A/E nº 02 Mód. A — Taguatinga Norte
Contato: centropoptaguatinga@sedes.df.gov.br, 3773-7556/7557

» Centro Pop Brasília
Capacidade para atender 150
pessoas por dia
Endereço: SGAS 903, Conjunto C
Contato: centropopbsb@sedes.df.gov.br, 3773-7561/75627563

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