Violência

"Homofobia vem dos cuidadores também", diz adolescente que denuncia agressões

Jovem de 17 anos se envolveu em uma briga com outros adolescentes em uma unidade de acolhimento no último sábado (6/11) e relata que episódios de violência são recorrentes

Edis Henrique Peres
Rafaela Martins
postado em 12/11/2021 20:12
 (crédito: AFP)
(crédito: AFP)

Um jovem de 17 anos denuncia episódios de violência em uma unidade de acolhimento do Distrito Federal. De acordo com o relato dado ao Correio, ele seria vítima de agressões pelos outros jovens não aceitarem o fato de ele ser gay. O caso foi apresentado para a Delegacia da Criança e do Adolescente II (DCA), em Taguatinga, e segue em investigação.

O episódio de violência denunciado à polícia aconteceu no último sábado (6/11). O adolescente de 17 anos chegou a pedir, em diversas ocasiões, para pararem com as provocações, no entanto, em determinado momento, uma menina acolhida partiu para cima dele com chutes, socos e unhadas.

Um vigilante do local acompanhou o momento da briga, mas só interferiu quando percebeu que as agressões iriam continuar. O jovem ligou para a polícia e agentes chegaram a ir até a unidade. No entanto, segundo o relato dado ao Correio, os funcionários da unidade não queriam o acompanhar até a delegacia.

Para registrar a denúncia, ele contou com a ajuda do filho de uma cuidadora, que o acompanhou até a unidade de polícia. O adolescente está na casa de acolhimento há cerca de seis meses, vindo do Ceará, devido a conflitos com os familiares que também não aceitam a sua sexualidade.

Medo

O episódio do último sábado, contudo, não foi o único. “A homofobia vem da parte dos cuidadores também. A coordenação, depois que soube que o caso repercutiu, nem está me olhando na cara. Tem uma cuidadora que é evangélica e ela vive dizendo que eu sou abominável, que vou para o inferno. Se junta com o vigilante para dizer que sou uma nojeira”, conta.

O jovem diz que já procurou, inúmeras vezes, ajuda para solucionar as agressões. “Eles sempre me falam que nem todo mundo é tão sociável para conversar comigo, que eu não posso chorar, que tenho que aguentar. Que tinha que entender eles. Já contei sobre o que acontece para a direção da minha escola, eles chegaram a ir no abrigo, mas a equipe de lá tentou desconversar”, lembra.

Ele afirma que já chegou a dormir do lado de fora do abrigo, pois colegas internos haviam escondido um facão dentro do quarto. “Eles me trancam dentro do quarto para me fazer medo. Chegaram a esconder o facão lá dentro. Eu pedi para dormir na sala, esse dia, mas o funcionário disse que eu tinha que dormir ou no quarto ou lá fora. Preferi dormir do lado de fora. Diversas vezes eu peço ajuda, e eles só falam para eu ir dormir logo”, conta o rapaz, emocionado

Em um dos áudios obtidos pelo Correio, uma funcionária do abrigo aparece irritada com o registro do Boletim de Ocorrência. “Aí vem a polícia, o IML... Ela (a menina que bateu no adolescente) também deve estar machucada. Não tem condição, parece que é só criança. Ignorasse (as provocações). Ninguém tinha que cair em provocação de ninguém”, afirma.

A reportagem tentou contato com o delegado responsável pelo caso e com a Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF). No entanto, em nota, a PCDF informou que “por determinação legal, prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente, não será divulgado qualquer informe sobre crianças ou adolescentes envolvidos em infrações penais, assim como informações sobre a dinâmica do fato”.

Posicionamento

Em nota enviada ao Correio, a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes) afirmou que “repudia, com veemência, atos de violência contra qualquer pessoas, seja acolhido, assistido ou servidor”.

Sobre o ocorrido, explicam que no último sábado (6/11), aconteceu uma discussão, com agressão física, entre dois acolhidos em uma unidade do DF. “A pasta informa que a gerente da unidade buscou intermediar o conflito internamente. É importante destacar que a servidora tem a guarda dos oitos adolescentes que moram na casa, sendo, assim a mãe tutelar de todos”, pontua.

“Por conhecer a rotina do lar e as particularidades de cada um dos adolescentes, e sempre trabalhar o laço de irmandade entre eles, a gerente optou por meio do diálogo chegar a um entendimento entre os adolescentes. Mas um dos meninos decidiu apresentar o caso à Delegacia de Proteção à Criança de ao Adolescente (DPCA)”, diz.

Segundo a pasta, os envolvidos foram para a DPCA na tarde desta terça-feira (9/11) para serem ouvidos pelo delegado responsável pelo caso. “A Sedes encaminhou uma equipe para acompanhar a apuração dos fatos e, caso seja necessário, serão aplicadas as medidas cabíveis, sempre visando os direitos estabelecidos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)”, finaliza.

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