Violência

Reviravolta na morte de Júlia Félix: Tribunal do Juri pede mais investigação

Solta há pouco mais de um mês, Laryssa Yasmin, mãe de Júlia, 2 anos, e acusada do assassinato, conta ao Correio a versão da tragédia que chocou o DF no ano passado. A criança foi esfaqueada em 13 de fevereiro de 2020

Darcianne Diogo
postado em 23/12/2021 06:00
 (crédito: Arquivo pessoal)
(crédito: Arquivo pessoal)

Uma tragédia que comoveu todo o Distrito Federal tomou um rumo surpreendente para quem acompanhou o caso da morte de Júlia Félix de Moraes, 2 anos. A criança foi assassinada a facadas dentro de uma quitinete, na Colônia Agrícola Samambaia, em Vicente Pires, em 13 de fevereiro de 2020. Laryssa Yasmin Pires de Moraes, 21, mãe da vítima, foi presa na época, assumiu a autoria do homicídio e permaneceu detida na Penitenciária Feminina (PFDF) por 1 ano e 9 meses. Em 17 de novembro, o Tribunal do Júri de Águas Claras concedeu alvará de soltura à Laryssa e pediu a retomada das investigações sobre o fato. O motivo seria a inconsistência das declarações prestadas por Giuvan Félix Araújo, pai de Júlia, que estava presente no apartamento no dia do homicídio. Em entrevista ao Correio, Laryssa dá nova versão e detalha o passo a passo do que teria acontecido no dia da morte da filha.

Com base na decisão da Justiça, o primeiro depoimento prestado pela mãe da criança na 12ª Delegacia de Polícia (Taguatinga Centro), logo após ser presa, foi ocultado e não constava nos autos do processo. Foi essa declaração que intrigou o desembargador, que encontrou incoerências nas provas técnicas produzidas no curso da persecução penal, em especial as conclusões apontadas pelos peritos, quanto a elaboração do laudo pericial da reconstituição simulada dos fatos. A autoridade solicitou o aprofundamento nas investigações para que o caso seja melhor esclarecido. Determinou, ainda, que seja oficiado à Corregedoria Geral de Polícia Civil, a fim de apurar a conduta do delegado.

Em depoimento, Giuvan contou que dormia em um colchão no chão da sala, quando acordou sendo esfaqueado no rosto por Laryssa. Na época, ele alegou não ter visto o momento em que a jovem teria ferido Júlia, muito menos ouvido o choro da criança e, ao acordar, encontrou a menina no chão com marcas de sangue e, logo em seguida, acionou o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu). A versão contada por Laryssa é diferente. Sob a condição de não ser fotografada por medo de represálias, a jovem atribui a autoria do homicídio ao ex, que desativou todas as redes sociais após a soltura dela.

O crime

Laryssa manteve um relacionamento por cerca de cinco anos com Giuvan, dos 13 aos 17 anos. A família da jovem mora em Padre Bernardo (GO) e, frequentemente, ela vinha ao DF com a filha para ficar na casa do homem, mesmo separados. Segundo ela, por várias vezes, o ex tentou retomar o namoro, mas Laryssa havia assumido uma relação homoafetiva na época. "Como minha mãe era muito protetora e preocupada, eu ficava na casa dele aqui em Brasília ao invés de ir para a casa de amigos", disse.

Segundo Laryssa, no dia do crime, por volta de 13h, Giuvan chegou em casa, e os dois tiveram uma discussão. Giuvan trabalhava como atendente em uma loja do shopping. Por volta das 23h, ele retornou para a casa e encontrou as malas de Laryssa e Júlia prontas. De acordo com a mulher, o rapaz pediu novamente para os dois conversarem. "Eu disse que não tinha como voltarmos, porque ele não queria ser pai, nunca quis", revelou a jovem. Como estavam separados, Laryssa dormiu com a filha na cama de casal do quarto, enquanto Giuvan colocou um colchão no chão da sala.

"Acordei com o choro da minha filha. Quando levantei, com a lanterna do celular ligada, não achei o Giuvan e imaginei que ele pudesse ter pegado ela para ajudar. Ao ir para a sala, vi a Júlia deitada no colchão, com sangue entre as pernas, e ele abaixado ao lado. Na hora, ele só me disse que eu não deveria ter acordado. O celular dele estava com o aplicativo do Uber ligado", lembra Laryssa.

A jovem conta que, ao ver a filha ensanguentada, a pegou no colo e notou que a criança apresentava perfurações de faca no tórax. "Nesse momento, o Giuvan andava por toda a casa. Ele me pedia algo, mas eu não conseguia entender, só sabia me concentrar na Júlia. Quando vi toda aquela situação, liguei para o 190, e ele tomou o celular da minha mão e foi para a sacada", defende-se.

Laryssa relata que o ex retornou da sacada informando que havia ligado para a polícia e falado que ela havia matado a criança e que deveria assumir o crime. Em fúria, ela diz ter ido à cozinha, onde pegou uma faca, e desferiu um golpe no rosto de Giuvan. "Me bateu uma revolta, uma fúria tão grande, porque, além de assassinar minha filha, ele mandou eu assumir", confessa.

Uma vizinha, que serviu como testemunha no processo, bateu na porta ao ouvir o choro da criança. Giuvan atendeu e disse que precisava acionar o Samu, pois havia acontecido um acidente. No apartamento, Laryssa foi presa em flagrante pela PMDF e conduzida à delegacia.

Soltura

Em desespero, a mãe de Laryssa, Luciana Pires, 39, chegou à delegacia e confessou que obrigou a filha a dizer que ela havia matado a criança. "Eu entrei em pânico. Estava com o corpo da minha neta do carro da funerária para ser enterrado. Eu só pensava em sair daquele lugar de pressão e enterrar a minha neta. Depois, eu voltava para ajudar minha filha. Eu disse à Laryssa: 'Se você tem um pingo de amor, confessa. Estou pedindo para confessar'. Me doeu muito, mas eu sabia também que naquele momento era o que eu precisava fazer que era cuidar da outra", desabafou, ao Correio."Ela confessou porque eu obriguei", lamentou.

Solta há pouco mais de um mês, Laryssa procura manter confinamento em uma casa e faz cursos de informática. Com tornozeleira eletrônica, ela está proibida de se ausentar do DF, de sair após as 20h e de trocar de endereço sem aviso prévio ao juízo. O processo corre na Justiça e está na fase da juntada de documentos e intimações. O Correio apurou que Giuvan está no Rio de Janeiro. Desde a morte da filha, ele não entrou em contato com a sogra nem com Laryssa. O espaço permanece aberto para manifestações.

 

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