ECONOMIA

Afinal, está mais viável abastecer o carro com gasolina ou etanol?

Preço da gasolina no DF faz com que etanol seja uma opção na hora de abastecer o veículo. Contudo, especialistas alertam para alguns cuidados, tanto no momento dos cálculos quanto na forma com que se faz a troca no tanque

Ana Isabel Mansur
Arthur de Souza
postado em 29/03/2022 06:00
 (crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)
(crédito: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

Em meio à disparada do preço da gasolina em todo o país, os brasilienses têm se virado nos 30 e buscado alternativas econômicas para equilibrar as contas no fim do mês. No Distrito Federal, o litro do combustível pode ser encontrado por até R$ 7,99, de acordo com a plataforma Gaspass. Entre as opções, está a troca por álcool no abastecimento dos veículos — o litro do etanol pode custar cerca de R$ 2,25 a menos do que o da gasolina. No entanto, especialistas explicam que o uso de álcool nem sempre é vantajoso.

"Em regra, basta dividir o valor do litro do etanol pelo valor do litro da gasolina. Se a conta passar de 0,70, o combustível que compensa mais é a gasolina", ensina o coordenador do curso de economia do Iesb, Riezo Almeida. "Além desse cálculo, recomenda-se acompanhar a performance do outro combustível no seu carro, e a quilometragem que o veículo consegue alcançar estando com álcool", acrescenta o economista. Ele destaca que a busca por postos com preços menores não deve ser distante da rota diária, a fim de evitar consumo desnecessário.

Motorista de app, Emanoel afirma que o álcool está mais viável
Motorista de app, Emanoel afirma que o álcool está mais viável (foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

Emanoel Câmara, 64 anos, fez as contas e decidiu trocar a gasolina por álcool. O motorista de aplicativo precisou adaptar a escolha do combustível à realidade salarial. "Depois que mudei, passei a ter lucro um pouco maior. Com etanol no tanque, faturo cerca de 40% a mais. Apesar da diferença de rendimento do etanol para a gasolina (1,5km/L a menos), está sendo bem mais rentável para mim", observa o morador de Vicente Pires.

Atenção na mudança

Assim como Emanoel, Edno Santos, 56, optou pelo combustível mais em conta. "Verifiquei que o álcool estava custando cerca de R$ 2 a menos do que a gasolina e, em razão disso, achei que era mais viável colocar o etanol. Geralmente, eu avalio se vale a pena ou não. Quando a diferença está acima de R$ 1,10, opto pelo álcool", resumi o servidor público. O morador de Sobradinho admite, porém, que o rendimento não é o mesmo. "Obviamente, a autonomia da gasolina é muito melhor do que a do álcool. Só que, com o preço alto, não tem como", argumenta.

Edno Santos prefere etanol, mas admite que o rendimento é menor
Edno Santos prefere etanol, mas admite que o rendimento é menor (foto: Minervino Júnior/CB/D.A.Press)

A troca, contudo, não é indicada por Paulo Tavares, presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Combustíveis do Distrito Federal (Sindicombustíveis-DF). "Hoje, o preço do etanol não é competitivo com o da gasolina, porque a divisão entre os valores do litro está entre 0,79 e 0,83", ressalta. Ele adverte que não há perspectiva de melhora no custo dos combustíveis. "A Petrobras diz que não vai mudar a política de precificação, e o barril do petróleo está custando em torno de US$  115. Como a guerra entre Rússia e Ucrânia, deve se prolongar, e o barril do petróleo continuará caro", analisa Paulo Tavares. O presidente afirma que uma constante queda no valor do dólar pode mudar o cenário. "Mas não o suficiente para baixar o preço, apenas para evitar novos aumentos", pondera.

O mecânico Raimundo de Jesus, 46, diz que se tornou comum consertar veículos que estão com defeitos derivados da troca da gasolina pelo álcool. "Muitos carros começaram a aparecer com problema de bico ou com algum falhamento, depois de terem mudado de combustível", descreve. Há uma explicação para isso. "Por estar parado há certo tempo no tanque dos postos e ser relativamente orgânico — pela derivação da cana de açúcar —, o etanol acaba criando uma quantidade maior de água, que contamina o combustível e, quando abastecido no veículo, causa esses problemas", descreve Raimundo.

Gás natural

Outro tipo de combustível também é opção, porém, em menor escala. O gás natural veicular (GNV) ainda é pouco utilizado no DF e, de acordo com o Detran-DF, existem 2.890 veículos adaptados para o uso do GVN. O presidente do Sindicombustíveis afirma que os tributos são uma das principais causas para o pouco investimento. "O Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS) sobre o gás, no DF, é muito alto. Com isso, a margem de lucro sobre esse produto ficaria baixa, fazendo com que os empresários não invistam recursos para adquirir ou montar um posto para vender o GNV", critica Paulo Tavares. Ele complemente que há somente um local que comercializa o combustível e fica no Núcleo Bandeirante.

Vantagensde um elétrico

Desde 2019, a frota de carros elétricos e híbridos (elétrico/combustível) mais do que dobrou em Brasília — passando de 1.161 para 2.498, de acordo com informações do Departamento de Trânsito (Detran-DF).

Em 2021, último levantamento da Associação Brasileira do Veículo Elétrico (ABVE), eram 1.489 carros elétricos no DF — aumento de 59% em relação ao ano anterior: 936. No ano passado, o DF foi responsável por 4,2% da frota de eletromotores do Brasil. Presidente da ABVE, Adalberto Maluf  desataca que o modelo é vantajoso para o usuário e para a sociedade. "Emissão zero de poluentes, menor emissão de gases do efeito estufa e redução dos ruídos nas cidades", enumera.

Adalberto reforça a que de gastos que o motorista tem ao longo do tempo. "A manutenção é entre 60% e 70% inferior ao similar — a combustão —, e o custo de operação é 90% menor. Isso faz com que a despesa gerado pelo veículo, durante a vida útil, seja muito favorável após poucos anos de uso", defende o presidente da ABVE.

Empresária, Marta Fagundes, 62, adquiriu um veículo híbrido há dois anos, pensando na sustentabilidade. "A economia foi impressionante. Estou com um tanque de gasolina há mais de um mês e, às vezes, preciso mudar a forma de consumo para esgotar o combustível. Cheguei a rodar 2,8 mil km com meio tanque de gasolina", revela.

Segundo Maluf, os custos da eletromobilidade podem variar entre R$ 155 mil e R$ 160 mil, e os modelos têm mais tributos do que um carro a combustão. "Um elétrico ou híbrido pode pagar entre 11% e 13% de Imposto de Produtos Industrializados (IPI), às vezes, 18%, enquanto que um carro flex a combustão paga até 7%", detalha Adalberto, frisando que o Brasil ainda tributa o peso do veículo e a cilindrada, o que — de acordo com ele, "não faz sentido no mundo do transporte elétrico".

 

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