LEGADO

Com histórias de resistência e sonhos, UnB chega aos 60 anos

Universidade de Brasília comemora sexagésimo aniversário com o compromisso de expandir horizontes. Hoje, mesmo com a relevância acadêmica alcançada, instituição esbarra em dificuldades para garantir investimentos e manter ensino, pesquisa e extensão de ponta

Ana Maria Pol
postado em 21/04/2022 06:00
Minhocão, o Instituto Central de Ciências, à época da construção -  (crédito: Acervo UnB)
Minhocão, o Instituto Central de Ciências, à época da construção - (crédito: Acervo UnB)

Na manhã em que Brasília celebrou o segundo aniversário, em 21 de abril de 1962, a cidade ganhou, como que de presente, uma universidade pública. Localizada em uma das asas do Plano Piloto — e igualmente carregada de grandes ideais e esperança —, a Universidade de Brasília (UnB) surgiu sob uma proposta tão inovadora quanto a da capital federal. A instituição de ensino nasceu do cruzamento das mentes do antropólogo Darcy Ribeiro, que definiu o plano orientador; do educador Anísio Teixeira, que criou o modelo pedagógico; e do arquiteto Oscar Niemeyer, que transformou o conceito em algo físico.

Sessenta anos depois, a universidade cresceu. Ampliou-se para Ceilândia, o Gama e para Planaltina. Nesta quinta-feira (21/4), ela comemora mais um ano de existência com o compromisso de expandir horizontes, seja por meio da abertura de cursos; de investimentos na pesquisa; ou da aposta em projetos de extensão. Algumas pessoas acompanharam esse desenvolvimento de perto, como André Maya, 40 anos. Professor do curso de design no Instituto de Artes (IDA-UnB), ele conta que o primeiro contato direto que teve com a instituição de ensino ocorreu em 1999, quando entrou no curso de graduação em geologia, na primeira turma aprovada pelo Programa de Avaliação Seriada (PAS).

Até então, André só conhecia a UnB pelo olhar dos pais, que haviam estudado na instituição entre 1963 e 1968. O professor relata que, após três anos no curso de geologia, decidiu migrar para o de desenho industrial, área na qual se formou. Entre as memórias mais marcantes da vida de estudante, ele recorda características do câmpus à época, como fluxo menor de alunos e pouca diversidade de frequentadores. "Existia um trânsito grande entre os departamentos. Muito disso se devia ao tamanho do espaço, que ainda era pequeno. A homogeneidade marcou os primeiros anos, mas, com o tempo, a universidade se tornou um ambiente muito mais rico", compara.

  • 20/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - UnB 60 anos. Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • 20/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - UnB 60 anos. Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • André Maya, professor do curso de design no Instituto de Artes Fotos: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • 20/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - UnB 60 anos. Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • Tainá Ramalho dá aula de matemática no câmpus de Planaltina Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • ICC atualmente: corredor central do câmpus Darcy Ribeiro Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • 20/04/2022 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasilia - DF - UnB 60 anos. Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  • Minhocão, o Instituto Central de Ciências, à época da construção Acervo UnB
  • Darcy Ribeiro discursa em cerimônia de inauguração da UnB Arquivo Central. AtoM UnB

Em 2021, a instituição tinha mais de 3,5 mil projetos de pesquisa em andamento; 78 empreendimentos criados por meio de uma multi-incubadora tecnológica; 47 empresas juniores em funcionamento; e 690 laboratórios. Reitora da UnB, Márcia Abrahão explica que o crescimento decorre do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni). "À época (de adoção da iniciativa), eu era decana de Ensino de Graduação da UnB e tive a honra de coordenar a expansão para Gama e Ceilândia, além da ampliação do campi de Planaltina e Darcy Ribeiro. Aumentamos a infraestrutura, os cursos e ganhamos mais de 10 mil estudantes de lá para cá", afirma.

Márcia destaca que essa ampliação permitiu a democratização do acesso ao ensino na universidade, o que, por consequência, impactou a área de educação no Brasil e mudou a vida de milhares de famílias. O sistema de cotas é um exemplo das evoluções citadas pela gestora. "Fomos pioneiros (na adesão dessa política). Agora, em 2020, aprovamos o mesmo para a pós-graduação na UnB e reservamos 20% das vagas (para cotistas). Estamos avançando e precisamos preservar essa conquista", defende a reitora.

Os demais fatores que contribuíram com os resultados, segundo Márcia, incluem investimentos financeiros, a dedicação de quem ajuda a construir a Universidade de Brasília e o apoio de parlamentares da bancada do Distrito Federal no Congresso Nacional. "Nos últimos três anos, esse crescimento tem sido prejudicado pela falta de políticas públicas para educação, ciência e tecnologia. A UnB tem conseguido se manter porque possui arrecadação própria, o que não acontece na maioria das universidades públicas brasileiras", critica Márcia.

Menos recursos

Para a decana de Planejamento e Orçamento, Denise Imbroisi, há um "retrocesso substancial" quando o assunto é apoio governamental. O motivo envolve a falta de priorização do ensino superior, pois, mesmo com o cenário econômico adverso que o país enfrenta, outras áreas tiveram ampliação de recursos. "Há um equívoco na forma de se pensar a educação superior pública como um custo, não um investimento para assegurar o desenvolvimento do país. Formação de pessoas de alto nível e produção de pesquisas de qualidade são a salvaguarda de uma nação para o enfrentamento de dificuldades socioeconômicas", avalia.

Nos últimos 10 anos, os recursos públicos para financiamento da UnB caíram, segundo dados do Ministério da Economia. Para pagamento de despesas discricionárias de custeio — serviços terceirizados como limpeza, vigilância, portaria, água, esgoto e energia elétrica —, a universidade tinha R$ 216,5 milhões, em 2016. Esse total caiu para R$ 141,7 milhões (35%) neste ano. Para arcar com investimentos que englobam a compra de equipamentos de laboratório, de informática, material bibliográfico e obras, em 2015, a instituição de ensino dispunha de R$ 63,8 milhões. Em 2022, são R$ 6,3 milhões.

Diante da escassez, a universidade precisou se adaptar à realidade de um orçamento menor. A administração informou que, atualmente, prioriza o apoio a atividades-fim e que mobilizou as equipes para reduzir despesas, em diálogo com empresas contratadas e até postergando gastos com despesas não essenciais. "A instituição busca, também, ampliar a arrecadação de recursos próprios por meio do aperfeiçoamento do processo de gestão de imóveis, pois parcela significativa de nossa manutenção e investimento — cerca de 40% dos recursos discricionários — são custeados pela própria universidade", completa Denise.

Extensão

Fazer com que a UnB fique, a cada dia, mais próxima da sociedade se tornou um dos desafios recorrentes. Com o passar dos anos, a instituição saiu da área central do DF e chegou a novas comunidades, principalmente por meio de projetos de extensão, que têm impactado a vida de centenas de moradores da capital federal. "Eles mostram a importância da função social da universidade. A extensão tem esse papel de levá-la para além dos muros, com soluções e tentando ajudar a sociedade", comenta a professora de matemática Tainá Ramalho Maciel, 37, da Faculdade UnB Planaltina (FUP).

A história dela com a universidade tem duas décadas. Em 2002, Tainá entrou no curso de matemática e, oito anos depois, voltou para o câmpus. Dessa vez, como professora. Ao longo do tempo, viu a instituição crescer. Para ela, um dos principais avanços inclui a chegada a outras regiões administrativas. "A FUP é, hoje, um dos locais com mais projetos de extensão. É uma faculdade que se preocupa muito com a relação com as comunidades, e isso tem feito com que a UnB se torne diversa", acrescenta.

Os projetos são desenvolvidos por estudantes e técnicos, sob a orientação de professores. Em geral, se voltam a oito áreas: comunicação; cultura; direitos humanos e justiça; educação; trabalho; meio ambiente; saúde; tecnologia e produção. Agora, para construir uma universidade futurística, a reitora Márcia Abrahão defende a importância de se atentar à história escrita ao longo dos 60 anos de existência da UnB e ao que se tem colocado em prática, hoje. "Devemos ter consciência e aproveitar as oportunidades para conduzir processos que garantam a segurança da universidade no futuro. Precisamos de dinheiro para investir nela, para ampliar a atuação e para continuar fazendo ensino, pesquisa e extensão de excelência, com compromisso social", reforça.

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