Entrevista

Setor criativo acumula potencial para impulsionar economia do DF

Vice-presidente da Câmara de Economia Criativa da Fecomércio-DF, empresário Miguel Galvão apresenta alternativas para dar propulsão e melhorar segmento considerado um dos mais fortes da capital federal

Paulo Martins*
postado em 27/04/2022 05:59 / atualizado em 27/04/2022 06:00
Programa CB.Poder desta terça-feira (26/4) -  (crédito: ED ALVES/CB/D.A.Press)
Programa CB.Poder desta terça-feira (26/4) - (crédito: ED ALVES/CB/D.A.Press)

A economia criativa busca espaço para retomar o crescimento e desenvolvimento no Distrito Federal, especialmente após o início da crise sanitária. De olho nisso, um projeto da Câmara de Economia Criativa da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (Fecomércio-DF) com o Executivo local visa alavancar esse segmento na capital do país. Nessa terça-feira (26/4), em entrevista ao programa CB.Poder — parceria do Correio com a TV Brasília —, o vice-presidente desse departamento na entidade, Miguel Galvão, propôs formas de tirar a proposta do papel. À jornalista Samana Sallum, ele mencionou iniciativas  em andamento e com grande potencial, mas elencou pontos sensíveis e passíveis de melhora para dar impulso ao setor.

Qual é a vocação de Brasília e qual caminho você defende que devemos trilhar como capital federal?

A vocação de Brasília é justamente ser a capital da criatividade. Meu pai costumava comentar que a grande criação da humanidade é a cidade. Ela vem para tornar a vida de todos mais fácil, e Brasília nasceu sem ter qualquer referência parecida. Na verdade, somos astronautas aprendendo como usufruir dessa nave tão avançada. Tendo a criatividade como espinha dorsal, a que alimenta a tecnologia, é indispensável pensar grande. Que tal começar a ser o berço criativo da América Latina? A mente criativa pode escolher onde quer morar. Esse é o novo conceito de urbanismo, e Brasília tem de encarar o humilde agora. Tem de deixar de ser a cidade do "não pode" para ser a cidade do "como tornar possível?"

Vocês têm um projeto que avançava com o GDF: a proposta dos distritos criativos. O que são eles?

Olhando para Brasília, temos Planaltina como centro histórico e um Mercado Sul, em Taguatinga. Vamos criar um mecanismo em que se tenha uma capital que funciona na W3 Sul, onde os empreendedores criativos que se assentarem terão esses estímulos. Mas tentamos entender onde são essas localidades, entre o restante das regiões administrativas, que têm vocação cultural e para a economia criativa, para dar um empurrão. Tivemos de dar uma pausa por ser ano eleitoral, pois não se pode dar incentivo fiscal. Mas, com suporte da Câmara Legislativa e da Fecomércio, emplacamos a pesquisa junto da Universidade Católica de Brasília, que está fazendo um levantamento, quase um censo, sobre a economia criativa do DF — que não tem igual na América Latina. Vamos ter os dados para usar de forma cirúrgica.

Você é o fundador do evento Picnik e conseguiu reunir diversidade de produção. O que é essa iniciativa?

Costumo dizer que o Picnik é uma nave e que sou um dos pilotos dela. Essa nave tem uma rede muito grande: na última edição (na quinta-feira), tivemos 150 empreendedores criativos diferentes, pensando em Brasília, fazendo moda e comida com a cara da cidade. Sem essas pessoas, o evento não seria o que ele é. Moramos em uma cidade fantástica. Que cidade do mundo passa pelo timing em que Brasília está? Estamos definindo quais serão nossos hábitos culturais, de consumo, de estilo de vida. São Paulo viveu isso no fim do século 19, quando famílias e oligarquias definiam os hábitos da sociedade. Hoje, com as redes sociais, com parceiros como o Correio, quem faz isso somos nós.

Como você avalia e faz um comparativo destes dois últimos anos, comparando o Picnik de antes da pandemia e o de agora?

Podemos escolher se queremos ser sócios do sonho ou do pesadelo. Sempre nos cativou interagir com o sonho. Nosso primeiro input foi para esse Picnik que ocorreu na quinta-feira (21/4), para mostrar que vencemos uma das grandes catástrofes dos últimos séculos. Nestes últimos dois anos, em processos de mídia, de polarização, as famílias entraram em conflito, as pessoas brigaram. É muito importante, para o lugar onde queremos chegar, juntar as pessoas em prol de, ao menos, uma direção comum. Nosso intuito era colocar todos juntos, independentemente de credo, religião, posição política. Ainda conseguimos ter uma experiência coletiva positiva, a princípio. Em segundo lugar, (queremos) compartilhar inspirações, horizontes a partir daqui. Temos tudo em Brasília. E o tom tem de ser mostrar que o melhor está aqui. Não é toda essa beleza da cidade, mas as pessoas e ideias.

Falando na W3, você também tem o projeto Infinu...

Quando se procura uma loja na W3 para alugar, o padrão é 100m². Infelizmente, não vamos ter uma nova Pioneira da Borracha. Que bom que ela sobreviveu, mas o que vai nascer, hoje, com grande estoque, cheio de funcionários? O emprego, atualmente, exige uma área pequena. Qual era a solução que os centros históricos davam para isso? As galerias. Então, vou repensar um modelo de galeria, que é onde a pessoa corta o cabelo, come algo, compra uma roupa, encontra um amigo, assiste a um show. Resolve-se tudo lá. O que quisemos fazer foi uma contribuição nesse modelo, com upgrade: vê um show, faz uma tatuagem, senta na pracinha, toma um café, leva o cachorro. A ideia do Infinu é essa materialização com uma agenda cultural robusta. O que queremos fazer é uma vitrine inspiradora.

*Estagiário sob a supervisão de Jéssica Eufrásio

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