Racismo

Ex-funcionária de clínica no DF acusa patrão de discriminação racial

Ex-funcionária de uma clínica particular de Planaltina, no Distrito Federal, Hellen Crystine Alves, 20, alega que era instruída para ir ao trabalho com o cabelo liso e menos volumoso

*Eduardo Fernandes
postado em 25/05/2022 18:25 / atualizado em 25/05/2022 18:25
 (crédito: Reprodução/Arquivo pessoal)
(crédito: Reprodução/Arquivo pessoal)

A jovem Hellen Crystine Alves, 20 anos, alega ter sofrido injúria racial em uma clínica particular localizada em Planaltina, no Distrito Federal. A ex-funcionária conta que o chefe e a gerente do estabelecimento cobravam e pediam por um cabelo menos volumoso e mais liso, já que o formato, segundo eles, era apenas por padronização de trabalho. Na última segunda-feira (23/5), Hellen conta que foi humilhada pela gerente na frente de todos os pacientes. “Não Hellen, assim não dá, pelo amor de Deus. Vai se olhar no espelho, olha seu cabelo como está”, teria dito a gerente. No mesmo dia, ela conta que teve uma forte crise de ansiedade no banheiro do local e pediu demissão.

Assim que chegou para o primeiro dia de serviço como recepcionista, em 14 de abril, Hellen se deparou com a cobrança do patrão antes de quaisquer boas vindas: “Cadê o cabelo escovado?”. A recepcionista, que foi contratada pela então gerente por se conhecerem de outro trabalho, era instruída diariamente a ir com o cabelo liso. “Até então, eu aceitei porque seria um penteado padrão na clínica. Ela (gerente) havia me dito também que eu poderia ir com o cabelo baixo e preso somente a franja”, detalha. Depois das cobranças, a ex-funcionária passou a ir com o padrão estabelecido pela clínica.

Mas, em um determinado dia, a jovem relata que chegou no trabalho com o cabelo natural e preso em um “coque”. Quando a viu, a gerente chamou a atenção da moça, alegando que o dono da empresa poderia cobrá-la. Sendo assim, Hellen apareceu para trabalhar novamente com cabelo preso em formato “rabo de cavalo” e molhado. Elogiada pela gerente, foi informada que o penteado daquela data era o ideal, porque estava “bonito e baixo”.

Último caso

O estopim de toda a história foi vivido na última segunda-feira (23/5), quando Hellen chegou para mais um dia de serviço com o cabelo volumoso e totalmente solto. A gerente a humilhou na frente de todos os pacientes presentes no local. “Eu te contrato e é assim que você me trata, Hellen?”, questionou a gerente, no momento em que a jovem pediu as contas.

Em áudio cedido ao Correio, a mulher que trabalha na clínica revela que outra situação do tipo já havia ocorrido no local. Na hora de efetivar a contratação de Hellen, a gerente diz que comunicou ao patrão que a ex-funcionária “tinha apenas um problema”, o cabelo cacheado. Em defesa do chefe, ela conta que não há nenhum problema da clínica com formas de cabelo. Segundo ela, a exigência é apenas um padrão de trabalho e o proprietário, inclusive, acha o penteado muito bonito.

Investigação e o outro lado

Depois de pedir demissão, Hellen registrou boletim de ocorrência na 16ª Delegacia de Polícia (DP), em Planaltina. De acordo com a DP, as informações sobre a investigação serão repassadas para a imprensa em breve. Com o emocional abalado depois do caso, a jovem vem recebendo mensagens de solidariedade nas redes sociais. “O apoio das pessoas me faz sentir melhor, mas ficou um medo, não sei explicar”, revela Hellen, que ainda não sabe como será sua vida daqui para frente, mas que espera pela justiça em relação à discriminação sofrida. 

O advogado de defesa da clínica, Cristiano Rodrigues Brandão, ressalta que a acusação feita pela ex-funcionária é muito grave, principalmente por se tratar de um tema delicado. No entanto, ele reforça que nenhuma das declarações proferidas pela jovem ocorreram no ambiente de trabalho. “A funcionária foi contratada há pouco mais de um mês e a única orientação que recebeu foi a mesma que a empresa faz com todos os funcionários recém admitidos quanto ao uso do uniforme”, esclarece Cristiano.

Segundo o advogado, a maioria dos funcionários da clínica são do sexo feminino, o que ratificaria que a empresa não tem postura discriminatória. Em relação aos fatos relatados, Cristiano afirma que as acusações, além de inverídicas, são graves. O estabelecimento, segundo ele, está à disposição para dar qualquer esclarecimento sobre o caso.

*Estagiário sob a supervisão de Nahima Maciel

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