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Carnaval nas ruas e dinheiro no bolso do brasiliense

No DF, enquanto uns aproveitam a folia para curtir os blocos, outros preferem enxergar a festa como uma oportunidade de gerar renda. O Correio falou com moradores da capital que trabalharão durante o feriado para manter as contas pagas

Arthur de Souza
postado em 11/02/2023 06:00 / atualizado em 11/02/2023 10:16
 (crédito: Divulgação/Unlimited Drone)
(crédito: Divulgação/Unlimited Drone)

Faltando menos de duas semanas para o carnaval, não são apenas os foliões que estão se preparando para sair às ruas do Distrito Federal e brincar nos blocos. Há também quem aproveite o feriado para conseguir uma oportunidade de emprego e renda. Em um edital de convocação publicado no Diário Oficial (DODF) da última quarta-feira, por exemplo, o GDF disponibilizou 930 autorizações para ambulantes que desejam trabalhar durante os festejos deste ano.

De acordo com o documento, os vendedores credenciados trabalharão nas festas de rua entre os dias 16 e 21 de fevereiro. Quem aproveitou a oportunidade foi a moradora da Cidade Estrutural Maria Deusimar de Oliveira, 48 anos. A ambulante, que vende água mineral, água de coco e pipoca desde que ficou desempregada, há três anos, afirma que essa é sua única fonte de renda atualmente e, por isso, correu atrás do cadastramento para trabalhar durante a folia. "Trabalhei em outro carnaval e foi muito bom. Para esse ano, espero que as coisas sejam tão boas quanto da última vez, pois estaremos sem as restrições da pandemia. Tomara que tenha um lucro bem melhor, agora que as pessoas vão sair mais", torce.

Maria Deusimar lembra, com angústia, de como foram os últimos anos, por causa da covid-19. "Foram bem difíceis. Ainda bem que tive o auxílio do governo durante o período mais crítico e, agora que cortaram, posso voltar a vender meus produtos", comenta a ambulante. "Moro com meu marido, que voltou a trabalhar há uma semana. Até então, a renda toda dependia de mim. Se eu conseguir a autorização, espero um dinheiro bom com as vendas."

Oportunidades em alta

A Secretaria de Cultura e Economia Criativa (Secec-DF) ressalta que os projetos contemplados pela linha Jeito Carnavalesco, do edital do Fundo de Apoio à Cultura (FAC) Brasília Multicultural I, de 2022, têm a estimativa de gerar 2.404 empregos diretos e 10.012 indiretos, durante a folia deste ano. Opinião similar tem o presidente do Sindicato do Comércio Varejista (Sindivarejista-DF), Sebastião Abritta. "Haverá bailes diurnos e noturnos em, pelo menos, 25 clubes e em outros locais espalhados no DF. Inúmeros blocos carnavalescos e escolas de samba desfilarão, principalmente no Plano Piloto. A folia volta com força total, o que é muito bom para a economia, porque ela gera empregos e renda", destaca.

Economista e professor da Universidade de Brasília (UnB), César Bergo afirma que a economia do DF está "em outro patamar", bem melhor que a do último feriado. "Para as pessoas que vão se divertir durante a festa, haverá toda uma equipe de suporte que vai garantir a alegria dos foliões. Não só os bares e restaurantes, mas os clubes também, que retornarão com as atividades carnavalescas", comenta. "Serão muitas festividades, que podem gerar empregos, mesmo que temporários", ressalta Bergo.

Para o especialista, esse será um momento de grandes oportunidades. "Existe um aumento das demandas, não só do poder público. Sobretudo nos clubes, haverá muitas oportunidades. Enquanto uns se divertem, outros trabalham", destaca. "Nesse carnaval, a promessa é de que haja uma melhora significativa na oferta de empregos. Cabe às pessoas ficarem atentas a elas, principalmente os barmans, cozinheiros e garçons, pois as oportunidades costumam aumentar bastante", observa o economista. "Após alguns anos de pandemia, as pessoas estão necessitadas de diversão, ou seja, aumenta o número de foliões junto à necessidade de contratação do suporte que dará a tranquilidade às atividades carnavalescas", avalia.

Presidente do Sindicato dos Empregados em Hotéis, Bares, Restaurantes e Similares (Sechosc-DF), Orlando Candido acredita que o carnaval na cidade será de muita positividade. "Afinal, estamos há dois anos sem festas no DF", lembra. "Acreditamos no aumento de clientes que curtirão a folia nas ruas e nos restaurantes, bares e hotéis de Brasília. Por esse motivo, esperamos que haja contratações para atender esse público", prevê Orlando.

Boa "safra"

O músico Daniel 'Dureg' David, 46, é um dos exemplos de empregos gerados pelo carnaval. Trabalhando profissionalmente no setor desde 2016, o morador do Jardins Mangueiral conta que começou no ramo, ainda como hobbie, muito antes. "Desde 1998, eu tocava e ganhava algum trocado, fazendo shows com algumas bandas. Quando passei a levar como profissão, no início, fazia voz e violão e depois passei a chamar outros músicos freelancers, quando precisava", recorda.

Segundo Daniel 'Dureg', desde que começou a trabalhar profissionalmente com a música, o carnaval costuma ter uma agenda bem cheia. "Esse ano mesmo, estou com shows para fazer desde a sexta (17) até o fim de semana após a folia. Então vai ser um feriado bem cheio, de bastante trabalho", comenta o músico, animado com a renda que o feriado costuma trazer para ele. "Em épocas normais, costumo fazer dois eventos por dia, no máximo. Durante o carnaval, são pelo menos três shows. Então, o faturamento costuma aumentar cerca de quatro vezes, o que me ajuda muito", observa.

Mas nem só de música se vive o carnaval. Existe outro setor que fatura com a folia. Segundo a designer de unhas Michele Bethânia, 26, dois deles trabalhando no ramo, sempre antes de datas comemorativas — como o próprio carnaval — a procura aumenta bastante. "Em 2021, comecei justamente no período desse feriado e, mesmo com a pandemia, a procura foi alta", lembra. "No caso do meu ramo, ao contrário do que a maioria pensa, janeiro é um mês bastante produtivo, justamente por anteceder o carnaval", afirma. "Como as unhas que faço duram 30 dias até a próxima manutenção, muitas mulheres se preparam para viajar e curtir o feriado com certa antecedência", ressalta a designer. "Então, costumo aproveitar essas épocas cheias para "cobrir" os meses que são mais parados, ou seja, quanto mais clientes, melhor", brinca Michele.

A moradora de Vicente Pires ressalta que trabalhar com estética e beleza, tem suas vantagens. "A gente vive em um país onde tem muitas datas festivas, e as pessoas gostam de se arrumar para elas. Então, sempre vai ter alguma coisa que motiva esse movimento", aponta. "No carnaval, por exemplo, minha demanda costuma aumentar entre 20% e 30%", calcula Michele Bethânia. "Isso porque é uma época que a mulherada pode abusar das cores na hora de pintar as unhas", destaca. "As meninas gostam de colocar tons fortes e, até mesmo aquelas que não tem o costume de pintar, acabam deixando mais colorido", comenta.

Contraponto

Mas nem todos os setores estão comemorando a volta da folia. De acordo com a diretora social da Central das Cooperativas de Trabalho de Catadores de Materiais Recicláveis (Centcoop) do DF, Keysianny Lima, a estimativa sobre o trabalho e renda que o carnaval deve gerar para o setor é baixa. "Um decreto publicado no mês passado estabelece que todo o resíduo gerado durante o feriado será coletado pelo SLU (Serviço de Limpeza Urbana) e, somente depois, repassado para as cooperativas", afirma. Segundo a gestora, isso vai impactar de forma negativa na renda dos catadores. "Antes, as cooperativas ganhavam em cima do contrato com os blocos e dos resíduos recebidos. Agora, vão faturar apenas sob o material entregue pelo SLU", calcula.

O Correio entrou em contato com a empresa que, em nota, respondeu que todos os materiais recicláveis recolhidos durante o carnaval serão destinados às cooperativas de catadores que prestam serviço para o SLU, dentro dos galpões de triagem, assim como acontece com a coleta seletiva do Distrito Federal no dia a dia. Além disso, o SLU destacou que, para incentivar os foliões ao descarte correto, vai lançar a campanha "Folião que é cidadão, não joga lixo no chão" com o objetivo de estimular os brasilienses a utilizarem os papa-recicláveis que estarão dispostos em pontos estratégicos para o depósito de latinhas, garrafas pet e tudo o que for reciclável. "Portanto, ao invés desses materiais ficarem restritos apenas às cooperativas contratadas pelos blocos, com a coleta sendo realizada pelo SLU, eles vão contemplar todas as cooperativas de catadores", informou a nota enviada.

 

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