Meio Ambiente

Correio visita área ecológica da UnB destinada apenas à pesquisa

Abrigada pela Fazenda Água Limpa, a área de relevante interesse ecológico mantém o Cerrado preservado, ação fundamental para espécies do bioma e para a ação de pesquisadores de universidades

 12/01/2024 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF -  Fazenda Água Limpa (UnB), sobre a Área de Relevante Interesse Ecológico que tem na região. Espécies, pesquisas etc que ocorrem no local. Biólogos: Ricardo Machado (camisa marrom ), Emerson Vieira (camisa cinza), Nathalie Citeli (camisa preta) Giovanna Cambuí (aluna, calça jeans rasgada), Cecília Vieira  (camisa florida ) e Guarino Rinaldi Colli (camisa azul) -  (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
12/01/2024 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Fazenda Água Limpa (UnB), sobre a Área de Relevante Interesse Ecológico que tem na região. Espécies, pesquisas etc que ocorrem no local. Biólogos: Ricardo Machado (camisa marrom ), Emerson Vieira (camisa cinza), Nathalie Citeli (camisa preta) Giovanna Cambuí (aluna, calça jeans rasgada), Cecília Vieira (camisa florida ) e Guarino Rinaldi Colli (camisa azul) - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
postado em 13/01/2024 05:00

A Fazenda Água Limpa (FAL), pertencente à Universidade de Brasília (UnB) e localizada no Park Way, guarda uma dos últimos espaços de Cerrado preservados do Distrito Federal. Trata-se da Área de Relevante de Interesse Ecológico (Arie) Capetinga/Taquara, também denominada Estação Ecológica da UnB, co-gerida pela universidade e pelo Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). A Arie tem o tamanho de 20 mil hectares (cerca de 20 mil campos de futebol), com matas de galeria, Cerrado arbóreo e área de campos.

O Correio visitou o local e conversou com pesquisadores que têm na estação ecológica a oportunidade de pôr em prática o que é ensinado em sala de aula, fazendo novas descobertas sobre a biodiversidade do Cerrado, uma das maiores do planeta. A parte preservada da FAL forma junto ao Jardim Botânico, à Reserva do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e às reservas da Aeronáutica e da Marinha um grande território contíguo que abriga espécies silvestres pouco resistentes ao impacto humano.

Na região mais alta da Arie, o solo mais pedregoso serve como uma esponja que absorve a água da chuva, que é liberada aos poucos, alimentando os cursos d'água da região, como os córregos Gama, Capetinga, Taquara e Cabeça de Veado, drenados pela bacia do Paranoá.

"É uma área onde universidades usam para pesquisas sobre o funcionamento do Cerrado em uma das últimas grandes áreas do bioma preservado que sobraram no DF", explica Ricardo Machado, professor do Departamento de Zoologia da UnB e pesquisador especialista em aves. "Aqui tem aproximadamente 270 espécies de aves. Não é nada excepcional, mas quando vamos para a cidade, um terço dessas espécies desaparecem", aponta Machado.

A beleza da estação ecológica pode ser um atrativo para os apaixonados por natureza, mas o professor alerta que a área não é própria para visitação. "Não é previsto esse tipo de atividade aqui. Não temos controle de quem vem aqui e é uma área usada por pesquisadores, que podem estar expostos a riscos, além do perigo de incêndios e surgimento de voçorocas (fenômeno geológico que consiste na formação de grandes buracos de erosão causados pela água da chuva e intempéries), já que os veículos vão passando no mesmo local", adverte.

Ricardo também destaca os impactos na área causados pela ocupação no entorno da área, principalmente pelo consumo de água de poços artesianos dos condomínios horizontais. "Uma pesquisa do Departamento de Botânica indicou que o lençol freático baixou meio metro em 10 anos e algumas áreas de brejo na FAL desapareceram junto à comunidade de plantas típicas dessas áreas", lamenta.

Descoberta

"Se para as aves a quantidade de espécies cai em um terço nos perímetros urbanos, para os mamíferos é ainda pior. Vai para praticamente zero. Eles são muito mais sensíveis à perda de vegetação. Muitas espécies precisam de grandes áreas preservadas para viver", explica Emerson Vieira, ecólogo especialista em mamíferos.

Ele conta que na Arie Capetinga/Taquara foi descoberto um roedor arborícola (que vive em árvores), de 20 a 25 centímetros sem a cauda, batizado de rato-espinho-da-árvore (fhyllomys centralis), até então desconhecido pela ciência.

Vieira lembra que o Cerrado é um dos 35 hotspots de biodiversidades de todo o mundo, áreas consideradas de grande biodiversidade e ameaçadas pela destruição. "Ainda se descobre espécies novas no Cerrado tanto por ter essa grande biodiversidade quanto por ainda ser pouco conhecida pela ciência. No DF, ainda há uma concentração maior de pesquisadores. Outras regiões têm muito menos, como no Matopiba", diz referindo-se à fronteira agrícola que avança sobre o Cerrado dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Saúde do ambiente

De acordo com a professora e pesquisadora especialista em serpentes da Universidade Católica de Brasília (UCB), Nathalie Citeli, o DF tem 65 diferentes espécies de cobras. "A FAL lhes dá suporte porque muitas espécies não conseguem viver em áreas impactadas pela atividade humana", aponta a especialista.

Cotiarinha, uma jararaca pequena, por exemplo, é uma das espécies ameaçadas de extinção e que só consegue viver em ambientes preservados. "Há espécies pouco abundantes que precisam dessas áreas. As serpentes são importantes dentro da cadeia alimentar. Elas se alimentam de anfíbios que precisam de água limpa para viver. Esses animais acabam sendo indicadores de saúde do ambiente", explica a pesquisadora.

Giovanna Cambuí, 25, é orientanda do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação Científica (Pibic) de Nathalie e começou há alguns meses a fazer estudos de campo na FAL. "É preciso preservar essa área para que nós pesquisadores não percamos esse espaço de estudo", afirma.

Cecília Vieira é ecóloga pesquisadora da hymenoptera, um grupo específico de vespas. "São vespas solitárias que parasitam abelhas que, por sua vez, prestam serviços aos ecossistemas com a polinização. A presença dessas vespas é indicadora da presença de biodiversidade de abelhas no ambiente", detalha. Segundo Cecília, as abelhas nativas do Cerrado precisam de espaços preservados para a manutenção de populações estáveis do inseto.

Cerrado e ciência

O trajeto de carro entre o câmpus Darcy Ribeiro e a FAL é de 30 minutos. "Outras grandes universidades não têm a oportunidade de estar tão perto assim de uma áreas preservadas. "Isso estimulou muito as pesquisas no Cerrado. A Unb é a universidade que mais publica estudos sobre a biodiversidade do bioma no mundo", compara Guarino Rinaldi Colli, professor do Departamento de Zoologia e especialista em anfíbios e répteis.

Com os alunos, ele faz pesquisa e monitoramento de populações e comunidades de répteis e anfíbios na estação ecológica e tem observado os impactos das mudanças climáticas. Segundo o professor, eventos extremos de seca e tempestades têm afetado os ciclos reprodutivos. "A previsibilidade do clima está diminuindo e afetando a fenologia, que é o ritmo de reprodução das espécies. As taxa de sobrevivência e reprodução estão com tendência de diminuição", alerta.

 

 

  • Grupo de pesquisadores na Fazenda Água Limpa, em área de relevante interesse ecológico da região, que abriga espécies típicas do Cerrado
    Grupo de pesquisadores na Fazenda Água Limpa, em área de relevante interesse ecológico da região, que abriga espécies típicas do Cerrado Foto: Fotos:w Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
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