
Planaltina é cidade mais antiga do Distrito Federal. A região é guardiã de vasta memória cultural e religiosa que atravessa gerações. Uma das datas mais tradicionais é 6 de janeiro, quando ocorre a Folia de Reis. Neste ano, a celebração chega a 40ª edição na cidade e segue mantendo viva a tradição entre moradores e fiéis. A data também encerra as festividades natalinas e simboliza o momento de retirada das decorações de Natal.
A festividade que reúne fé, música e dança em homenagem aos três Reis Magos — Baltasar, Gaspar e Melchior — que visitaram Jesus na manjedoura, na cidade de Belém guiados por uma estrela, após o seu nascimento. Eles são figuras centrais da tradição cristã, conhecidos por terem presenteado o menino Jesus com ouro, incenso e mirra.
Leia também Conheça a tradição das sementes de romã no Dia de Reis
Em Planaltina, a celebração teve início há quatro décadas e se consolidou como parte da identidade cultural e religiosa da cidade. A primeira Folia de Reis foi organizada na Rua Piauí, também conhecida como Rua da Palha, na Vila Vicentina e, desde então, continua sendo realizada anualmente, com intuito de fortalecer os laços comunitários e a fé popular.
Na edição deste ano, a Folia de Reis teve início em 2 de janeiro, com a realização da Alvorada na casa de Leonardo Gomes e Emanuelle Guimarães, na Vila Buritis. No evento, o guia principal distribuiu as missões entre os foliões, como cantar, tocar instrumentos e carregar a bandeira, um dos grandes símbolos da festa, que retrata os Reis Magos e representa a bênção e a proteção divina.
Desde então, os foliões percorrem as ruas de Planaltina, com visitas às casas de moradores que recebem a festa com hospitalidade. Segundo a tradição, as bênçãos são concedidas apenas aos lares que possuem um presépio ou uma imagem do menino Jesus. Em contrapartida, os anfitriões oferecem refeições e repouso aos integrantes do grupo, como demonstração de gratidão e acolhimento.
Leia também: Diferentes crenças, valores universais: 2026 na ótica de espiritualistas
Os rituais diários incluem o almoço e o pouso, momentos marcados por cantorias e pela catira, dança típica caracterizada por palmas e sapateados, acompanhados por violas, violão, pandeiros, sanfona, reco-reco a e tambor.
Ontem, a anfitriã do almoço foi Dona Netinha, 75 anos que, com o apoio dos filhos, recebeu os fiéis e expressou o sentimento de celebrar mais um ano dessa tradição. "Estou tremendamente feliz por receber as pessoas em minha casa. Sempre sonhei com esse momento e cá estou. Viva os santos reis", disse. A festança encerra hoje com um café da manhã logo cedo e marca a desalvorada.
Fiéis
Participante ativa da Folia de Reis há cerca de 18 anos, Emanuelle Guimarães, 33, contou que o envolvimento começou após iniciar o seu relacionamento com Leonardo Gomes, filho de Eduardo, um dos organizadores deste ano. Para Emanuelle, o sentimento de fazer parte das celebrações é marcado pela fé. "É um sentimento de gratidão, porque tudo é Deus que nos dá. Poder retribuir dessa forma, oferecendo uma folia aos Santos Reis, é muito gratificante", afirmou.
Ela também destacou que a preparação começa no ano anterior. "Assim que a gente recebe a bandeira, a coroa e o manto dos Santos Reis, começa a preparação. Durante o ano, foram feitos giros de orações nas casas de fiéis. É um ano bem corrido, passa muito rápido, mas é extremamente gratificante", completou.
Coordenadora da Folia de Reis na região, Ana Amélia Melo de Oliveira, 41, destacou a emoção de conduzir a festa, especialmente na 40ª edição. "O sentimento é sempre de estar cumprindo o que o meu pai iniciou. Sempre vem a emoção de lembrar dele e honrar seu legado de ensino", contou. Segundo ela, a troca da bandeira neste ano simboliza renovação. "A bandeira já estava antiga, então fizemos a troca. É como uma renovação da nossa fé", explicou.
Ana Amélia reforçou que o principal objetivo da folia é manter viva a celebração nas pessoas. "Ela é uma festa cultural, mas também é religiosa. A gente não deixa de evangelizar. O objetivo é passar a cultura para os mais jovens e adolescentes, para que ela não morra", enfatizou.
Um dos guias mais antigos da Folia, Joaquim Luiz, 69, ressaltou a importância da tradição e a satisfação de participar de mais uma edição. "Quando chega o dia 2, a gente já fica esperando. É uma satisfação muito grande", disse. Presente em praticamente todas as edições desde que se mudou para a cidade, em 1979, ele observou o crescimento da celebração. "Cada dia que passa, a folia aumenta. É um momento de reencontrar amigos e parentes. Cada ano a festa cresce um pouco, e isso é muito gratificante", avaliou.
Tradição
De acordo com estudiosos, a Folia de Reis teve origem na Europa, mais especificamente em Portugal e na Espanha, e foi introduzida no Brasil durante o período colonial. A celebração foi utilizada como estratégia de catequização dos povos indígenas e, ao longo dos séculos, foi adaptada às características culturais do país. A tradição celebra o intervalo entre o nascimento de Jesus Cristo, comemorado no Natal, e a visita dos Três Reis Magos ao filho de Deus.
A definição do cronograma da Folia é feita pelos alferes, cargo de grande importância dentro da companhia. Eles são responsáveis pela guarda da bandeira, que retrata o momento em que Baltasar, Melchior e Gaspar presentearam Jesus com ouro, mirra e incenso. Outra atribuição é a criação de uma oração baseada na profecia dos Reis Magos, na história de Maria e José e no nascimento de Jesus Cristo.
Programação das missas
Paróquia Santa Teresinha
• Hoje, na Paróquia Santa Teresinha (Cruzeiro)— Tempo do Natal depois da Epifania — CorLitúrgica — Branco, às 7h e às 19h
Paróquia Nossa Senhora da Esperança
• Hoje, Paróquia Nossa Senhora da Esperança(Vicente Pires), a partir das 19h30
Paróquia Bom Jesus dos Migrantes
• Hoje, na Matriz Bom Jesus dos Migrantes(Sobradinho), a partir das 19h30
Saiba Mais

Revista do Correio
Revista do Correio
Revista do Correio