"Passei por momentos difíceis em minha vida, mas sei que isso não é justificativa para entrar na vida do crime". O relato é da interna Danielly C. F. B. L. e integra o livro Além das Grades, Dentro de Mim: relatos autobiográficos de mulheres na prisão. A publicação é uma iniciativa conduzida pelo Núcleo de Controle e Fiscalização do Sistema Prisional (Nupri), do Ministério Público do Distrito Federal e dos Territórios (MPDFT), em parceria com a Penitenciária Feminina do Distrito Federal (PFDF) e o Centro Educacional (CED) 1.
A obra reúne relatos impactantes de 18 mulheres privadas de liberdade que participaram do projeto e compartilharam vivências marcadas por experiências anteriores ao cárcere, o que as levou para o sistema prisional e os sonhos, expectativas e desafios projetados para o momento da liberdade. As narrativas revelam trajetórias atravessadas por vulnerabilidades sociais, rupturas familiares, violência e, ao mesmo tempo, por reflexões profundas sobre escolhas, responsabilidades e possibilidades de mudança.
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Projetado e organizado pelos servidores do MPDFT Camila Oliveira Souza e Diogo Abe Ribeiro, o livro nasceu da proposta de desconstruir estigmas historicamente associados às mulheres encarceradas. "Nós, que trabalhamos no sistema prisional, percebemos que existem estigmas muito fortes ainda em relação à população carcerária. Isso implica, inclusive, discursos de negação de direitos, validação de práticas de tortura e maus-tratos", afirmou Diogo. "Nosso objetivo era mudar um pouco esse pensamento, mostrando que existe uma humanidade para além do crime", completou.
Como parte do processo, as internas participantes do Projeto (Re)escrevendo Vidas: Vozes Femininas no Cárcere integraram oficinas temáticas semanais, pensadas como espaços de escuta, reflexão e fortalecimento da autoestima e dos vínculos sociais. "As oficinas foram um meio de não só trazer reflexão, como extrair informações delas de acordo com o perfil e dificuldades de cada uma. Não foi só pensando no produto final, mas também como um processo de autorreflexão para elas", destacou Camila.
Segundo ela, a adesão das participantes superou as expectativas. "Aderiram muito bem, foram muito receptivas tanto ao projeto quanto às oficinas e se esforçaram muito, escreveram e cumpriram o que a gente pediam, estavam bem abertas", explicou.
As oficinas tiveram início na primeira semana de setembro e foram estruturadas a partir de uma metodologia de produção textual inspirada em obras autobiográficas, como Em busca de mim, de Viola Davis; e A sapatilha que mudou meu mundo, de Ingrid Silva. O trabalho contou ainda com o apoio das professoras Márcia Daniela Fernandes e Valdeci Rocha, do CED 1. "As professoras conheciam as internas, então fizeram essa ponte de contato que trouxe mais confiança para elas. Logo na primeira oficina, nos apresentamos e falamos sobre a nossa vida e trajetória, para ter uma proximidade. Quando nos abrimos, elas entenderam a proposta e se abriram também", contou Camila.
Cicatrizes
Os relatos reunidos no livro escancaram realidades recorrentes de abuso, violência e abandono, presentes na trajetória de muitas das mulheres representadas. Para Diogo, a reincidência criminal apareceu como um ponto especialmente significativo durante as discussões. "Quando elas comentavam desse ciclo de idas e vindas no sistema penitenciário, pensei na importância de criar medidas e iniciativas que fomentem a essas pessoas a terem uma perspectiva diferente. Como esperar um caminho diferente desse sujeito que volta para a sociedade com uma dificuldade ainda maior?", relembrou.
Os organizadores também relataram como a dinâmica dos encontros exigiu atenção às particularidades do grupo. Durante as oficinas, Diogo era o único homem presente na sala e buscava criar um ambiente seguro e acolhedor. "Sempre trabalhei com muitas mulheres, então eu validava aquilo que elas traziam. Quando levamos um contraponto em relação ao pensamento de que todo homem faria as coisas pelas quais elas passaram e falávamos que não precisava ser daquela forma, mudava um pouco a mente também, fazia elas pensarem que poderiam escolher alguém que proporcionasse uma relação saudável", lembrou.
Camila ressaltou que a troca de vivências ajudou a aproximar realidades aparentemente distintas. "Quando estávamos conversando, eu abri muito minha vida para elas e compartilhei momentos muito difíceis que vivi. E acho que víamos o quanto os caminhos acabam sendo traçados e nos levam a lugares diferentes, que tem muita coisa envolvida. E elas conseguiam trazer essa reflexão, que poderiam sair e fazer diferente mesmo com o que já havia sido trilhado", contou.
Humanidade
A promotora de Justiça Raquel Tiveron, que atuou como gestora do projeto, relembrou um dos momentos mais marcantes durante o evento de lançamento do livro, realizado em dezembro do ano passado, na PFDF. "Percebi um olhar de felicidade e gratidão quando elas foram referidas como autoras do livro. Pela primeira vez, pararam de serem vistas como presas, internas e reeducandas. Sempre na posição de uma pessoa que tem que aprender e ressocializar. Naquele momento, quando foram denominadas autoras, elas viam a dignidade e capacidade delas", relembrou.
Raquel também destacou como a experiência impactou sua percepção pessoal sobre a população carcerária. "Geralmente olhamos o crime, não o criminoso. Então o crime que definiria a pessoa. Agora, pela primeira vez, fomos olhar a vida do criminoso. E eu tentei, à medida que lia o livro, traçar um perfil dessas pessoas, tentar achar uma lógica, mas isso não é possível, porque são histórias muito ricas de pessoas reais", afirmou.
Para a promotora, iniciativas como essa contribuem diretamente para o processo de ressocialização e para a reinserção dessas pessoas na sociedade. "Traz a autorreflexão, o pensamento nas escolhas e consequências e saber que você é capaz de, literalmente, reescrever a própria história é super importante. E trazer isso para a sociedade também, refletir nosso papel como fatores psicológicos, sociológicos e econômicos interferem", relatou.
Fora das vendas para ajustes logísticos, a expectativa é que Além das Grades, Dentro de Mim passe por uma nova edição e seja relançado ainda este ano.
Trechos do livro
"Teve uma vez que ele (meu ex-marido) não tinha nada para vender e queria levar nosso filho pequeno pra trocar por drogas. Ele me incentivou a usar crack, dizendo para eu ter a experiência e que ele ia me controlar"
Maria Gilda D. C.
"Acabei vendo o crime durante a minha infância, entrei nele no começo da adolescência e, assim como a minha mãe biológica, acabei vindo parar na cadeia. Espero, sinceramente, que seja isso uma maldição hereditária, uma praga ou ciclo, que isso acabe aqui"
Beatriz C. R.
"Fui crescendo e podendo me defender do racismo que a sociedade me causava, deixando várias marcas de dor e trauma. Em algumas partes da minha vida, me senti fraca, mas nunca me arrependi das minhas decisões. Hoje a escola me deu a chance de descobrir um mundo cheio de possibilidades e oportunidades"
Iara Cristina C. C.
