O Conselho Regional de Enfermagem (Coren-DF) iniciou uma apuração preliminar após a prisão dos técnicos de enfermagem suspeitos de matar três pacientes na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Anchieta, em Taguatinga, ao aplicar alta dosagem de uma substância química nas vítimas.
Os técnicos presos são Marcos Vinícius Silva Barbosa de Araújo, 24 anos, Amanda Rodrigues de Sousa, 28, e Marcela Camilly Alves da Silva, 22. Segundo o Coren-DF, na tarde desta quarta-feira (21/1) a gestão do conselho se reunirá com o delegado à frente do caso, Wisllei Salomão, para pedir acesso aos autos do processo, que corre em sigilo.
Conforme o que for apurado, a penalidade aos envolvidos pode ir de uma advertência até o cancelamento permanente do registro profissional. "Neste momento, não é possível emitir juízo de valor ou qualquer conclusão definitiva, devendo ser respeitados o devido processo legal, o contraditório e a ampla defesa dos suspeitos. O Conselho segue compromissado com a segurança do paciente, a ética profissional e a defesa de uma enfermagem qualificada, responsável e comprometida com a vida", informou o Coren-DF em vídeo publicado nessa terça (20/1).
Elissandro Noronha, presidente do Conselho, ressaltou que "embora a denúncia seja contra profissionais de enfermagem, gostaríamos de falar que a profissão é comprometida com a vida e os profissionais são comprometidos com o cuidado".
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Investigações
A Polícia Civil do DF (PCDF) expandiu a investigação sobre o caso dos assassinatos ocorridos na UTI. De acordo com o delegado-chefe da Coordenação de Homicídios e Proteção à Pessoa (CHPP), Wisllei Salomão, todos que trabalham nos 100 leitos da unidade são investigados.
O delegado informou que não há, até o momento, a confirmação de mais profissionais de saúde suspeitos de envolvimento nos assassinatos.
“Todos que trabalhavam nos leitos são investigados. Mas, por enquanto, não há ninguém mais específico. Os autores também não delataram a participação de mais pessoas, mas este é o procedimento”, destacou o delegado.
Análise
A análise dos celulares e notebooks apreendidos pela Polícia Civil nas casas dos técnicos investigados é considerada ponto-chave da investigação. Nos próximos dias, investigadores da CHPP devem concluir o inquérito e instaurar um novo procedimento para apurar a possível ocorrência de outros homicídios.
O material eletrônico está em análise no Instituto de Criminalística (IC). São vistoriados os celulares e computadores dos três técnicos, que foram apreendidos em Taguatinga, Brazlândia e Águas Lindas de Goiás, no Entorno do DF. Segundo o delegado Maurício Iacozzilli, da CHPP, o objetivo é descobrir se há elementos que comprovem a motivação dos crimes. “A análise pode determinar se há ou não mais vítimas, a partir da conversa entre os autores, e a possível motivação”, explicou.
Durante as apurações, cogitou-se a possibilidade de os acusados receberem vantagem financeira em um esquema ligado a funerárias. O delegado descarta a hipótese. “Cada vítima foi encaminhada a uma funerária diferente. Até o momento, não há nada comprovado nesse sentido.”
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Versões
Marcos foi preso em casa, em Águas Lindas, em 19 de novembro de 2025, dois dias depois de matar dois pacientes. Na delegacia, ele apresentou três versões diferentes. Segundo a polícia, o técnico demonstrou frieza ao ser questionado sobre os fatos.
Inicialmente, negou qualquer envolvimento. Alegou que seguia apenas as orientações dadas pelos médicos, especialmente quanto às dosagens. Depois, mudou a versão. Marcos confessou o crime e deu como justificativa o tumulto do plantão. “Ele disse que estava estressado, que iria liberar todos e, por isso, tomou tal atitude”, afirmou o delegado.
Por último, o suspeito contou outra história. Novamente admitiu a aplicação das substâncias, mas justificou o ato como uma forma de “aliviar” o sofrimento das vítimas. Amanda, por outro lado, negou os fatos e afirmou achar que Marcos estava apenas aplicando medicamentos corriqueiros, apesar de as imagens mostrarem ela vigiando a porta enquanto o suspeito injetava as substâncias nas vítimas. Confrontada, ela manteve-se em silêncio e admitiu que mantinha um relacionamento extraconjugal com Marcos.
Ambos são casados com outras pessoas, mas mantinham uma relação amorosa dentro e fora do hospital. Segundo as investigações, Amanda trabalhava em outro setor do hospital. Marcos ficava na chamada “ilha 3”, junto a Marcela, que era supervisionada por ele. A polícia afirma que enquanto Marcos injetava a substância química nas vítimas, as duas estavam presentes.
A PCDF deve concluir o inquérito sobre os três homicídios nos próximos dias e enviar o documento ao Ministério Público (MPDFT). Um procedimento será instaurado, informou o delegado, para apurar possíveis outras mortes semelhantes em hospitais onde os acusados já trabalharam. Marcos e Amanda, por exemplo, estão na profissão há cinco anos e passaram por hospitais públicos e particulares da capital. “Esse trajeto profissional será investigado, bem como cada morte ocorrida no plantão deles”, frisou Iacozzilli.
