URBANISMO

Passarelas subterrâneas: os caminhos secretos e artísticos de Brasília

Projetadas para a segurança, essas estruturas viraram galerias de arte urbana e parte essencial da paisagem do Plano Piloto; entenda a história

Brasília, a capital planejada, é famosa por seus monumentos e pelo urbanismo único de Lúcio Costa. Mas sob o ritmo acelerado do Eixo Rodoviário, o Eixão, existe um universo paralelo que conecta as superquadras: as passarelas subterrâneas. Projetadas para garantir a segurança dos pedestres, essas estruturas se transformaram em verdadeiras galerias de arte urbana, revelando uma faceta vibrante e criativa da cidade.

A solução de Lúcio Costa

No projeto original do Plano Piloto, a prioridade era a fluidez do trânsito. Para que os moradores pudessem atravessar o Eixão sem riscos, Lúcio Costa concebeu 16 passagens subterrâneas — oito na Asa Sul e oito na Asa Norte. A ideia era simples e funcional: criar um caminho seguro que ligasse as áreas residenciais, comerciais e de lazer, permitindo que a vida urbana fluísse sem interrupções pelo tráfego intenso.

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De concreto a tela de expressão

Por muito tempo, essas passagens foram apenas corredores funcionais de concreto. A transformação começou quando artistas urbanos viram nas paredes cinzentas uma oportunidade de expressão. O que muitas vezes era (e em alguns casos ainda é) visto como um local escuro e pouco convidativo, começou a ganhar vida com grafites, murais e intervenções artísticas. As cores vibrantes e as mensagens poéticas transformaram a experiência de atravessar o Eixão, convertendo um simples trajeto em um passeio cultural.

O potencial da arte na segurança

A arte urbana não apenas embeleza, mas também tem o potencial de ressignificar espaços públicos. Ao se tornarem pontos de interesse visual, a intenção é que as passarelas atraiam mais pessoas, o que pode contribuir para aumentar a sensação de segurança e inibir o vandalismo. Cada mural conta uma história, cada grafite reflete a identidade cultural da capital, incentivando a apropriação desses locais pela comunidade.

Os desafios persistem

Apesar do sucesso de muitas intervenções artísticas, a realidade das passarelas subterrâneas é complexa e desigual. Nem todas as 16 estruturas receberam o mesmo nível de revitalização. Muitas ainda enfrentam desafios históricos como iluminação precária, falta de manutenção e problemas de segurança, o que afasta parte da população, especialmente durante a noite. Iniciativas como o programa "Adote uma Passagem" buscam engajar a sociedade civil e o governo para superar esses obstáculos, mas a tarefa de tornar todos esses espaços seguros e acolhedores ainda está em andamento.

As passarelas subterrâneas de Brasília são um microcosmo da própria cidade: um espaço que nasceu do planejamento rigoroso, mas que foi reinventado pela criatividade de seus habitantes. Elas representam a união entre funcionalidade e arte, e embora ainda enfrentem desafios, mostram como a cultura pode transformar a paisagem urbana, tornando os caminhos do dia a dia mais seguros, inspiradores e humanos.

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