Para combater o furto de celulares e ocorrências de assédio no período carnavalesco, o secretário executivo de Segurança Pública do DF, Alexandre Patury, destacou novas medidas implementadas na festa deste ano. O entrevistado do CB.Poder — parceria entre o Correio e a TV Brasília — de ontem defendeu a importância das revistas da Polícia Militar tanto na entrada quanto na saída dos blocos. Segundo Patury, as linhas de revista, adotadas desde 2023, têm eficácia comprovada pelo recolhimento de centenas de objetos cortantes. A novidade deste ano, ainda em fase experimental, é a revista após os eventos, com o objetivo central de coibir o roubo de aparelhos celulares. "Precisamos do apoio da população para mostrar o celular já desbloqueado. Não queremos nenhuma informação do aparelho, apenas que mostrem que é daquela pessoa", disse ele aos jornalistas Carlos Alexandre de Souza e Ronayre Nunes. Patury também comentou a criação da Sala Lilás, um espaço itinerante que atua no acolhimento psicológico e multidisciplinar de vítimas de assédios sexuais durante a festa. Confira os principais trechos da entrevista.
O senhor comentou que 70% dos crimes cometidos no carnaval são relativos a furto de celular. Como é que vocês estão trabalhando para impedir isso?
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Este ano, nós começamos com uma ação inédita e aproveito a oportunidade para pedir o apoio da população. Normalmente, a gente faz a revista na ida, e é uma linha de revista muito forte. Para falar a verdade, dependendo do local onde o folião vá, ele passará por quatro linhas de revista. Mas agora, estamos implementando junto com a Polícia Militar, em um acordo inédito inclusive com o Ministério Público do Distrito Federal e Territórios, a revista na volta. A maioria dos crimes ocorre por oportunidade: na aglomeração, com o celular no bolso de trás, a pessoa não percebe que alguém o levou. Quando fazemos essa revista na volta, e, para isso, precisamos do apoio da população, o folião passará por uma linha de revista onde o policial militar pedirá que ele mostre o celular desbloqueado. Ninguém vai pegar o seu celular ou avaliar o que tem dentro dele. É simplesmente o apoio de a pessoa mostrar o aparelho desbloqueado. O problema ocorre se você tiver dois ou três celulares e não conseguir mostrar que aquele aparelho, de alguma maneira, é seu.
Outra ação inovadora é a Sala Lilás contra o assédio no carnaval. Quais são os primeiros resultados?
A Sala Lilás foi implementada agora pela Polícia Militar do Distrito Federal. Todo agente público deve saber o que fazer caso qualquer mulher, em qualquer situação que envolva violência doméstica, peça ajuda. Dentre outras coisas, acolhê-la imediatamente e cessar aquela ação, inclusive detendo o responsável. O agressor vai perder o carnaval dele, porque todos os agentes estão orientados a pegá-lo e levá-lo até a delegacia. A Sala Lilás é uma van itinerante, que atua como espaço de acolhimento psicológico e multidisciplinar. Mas você também pode perguntar para qualquer policial e ele vai encaminhar, passar um rádio ou fazer uma ligação para que a van vá até você.
Saindo um pouco do carnaval, os brasilienses reclamam muito da falta de iluminação. Às vezes, a luz acaba, há apagões e determinados locais da cidade ficam muito escuros ou mal iluminados. Como o senhor vê isso?
Um dos principais problemas é a conjunção do problema social com o problema legislativo. Há muito incômodo em áreas como a Asa Norte, e com razão, e o Noroeste. A gente tem intensificado muito a polícia lá, mas nós prendemos as pessoas uma, duas, dez vezes. Tem gente que foi presa 15 vezes por furto de cabos. Estamos diante de um problema social, mas temos que enfrentar tanto esse lado social quanto a legislação. Se a legislação é leniente ou permissiva, isso é grave, porque o furto de um cabo de energia perto de um hospital, por exemplo, pode matar uma série de pessoas. Mesmo que mudássemos o material do cabo para algo sem valor econômico ou o colocássemos de forma aérea, se não resolvermos o problema social de como abordar e tirar essas pessoas das ruas, o crime continuará. Temos que ver como a legislação permite que essa pessoa, se for realmente um bandido infiltrado, seja presa e não volte às ruas, ou, se for um dependente químico, que saia das ruas para ser tratado, mesmo que compulsoriamente.
Quais são os números, principalmente aqui no Plano Piloto, uma região mais sensível ao tema?
Tem um número aqui no Plano Piloto que é alarmante, inclusive para a defesa das pessoas em situação de rua. São aproximadamente 3 mil moradores em situação de rua no Distrito Federal, sendo cerca de 1.000 aqui no Plano Piloto. A população geral que mora aqui é de 1,5 milhão de pessoas, somadas às mais de 500 mil no movimento pendular, que são aqueles que trabalham aqui de dia e voltam para casa à noite. Temos, então, uma relação de 1.000 moradores em situação de rua para 1 milhão de habitantes. Ou seja, 0,1% das pessoas no Plano Piloto vivem nessa situação. O dado alarmante é que, em média, 73% das pessoas que morreram em 2024 e 2025 são moradores em situação de rua. Precisamos evitar essas mortes e cuidar dessas pessoas.
*Estagiário sob supervisão de Tharsila Prates
