CB Folia 2026

Inclusão, tradição e irreverência marcam a folia no Distrito Federal

Blocos atraem famílias e amantes da fantasia sob um calor de 30ºC. A programação segue nesta terça-feira (17/2), último dia de festa

O carnaval de Brasília mostrou, mais uma vez, que não cabe em um único ritmo — nem em um único público. Sob um sol forte — diferente dos carnavais chuvosos que costumam marcar a festa no Distrito Federal — foliões de todas as idades ocuparam parques, estacionamentos e eixos da cidade. Fantasias criativas, crianças brincando e adultos que transformaram o carnaval em reencontro mostraram que, em 2026, a festa foi muito além da música: virou espaço de pertencimento.

Entre marchinhas, sucessos da música popular brasileira em ritmo carnavalesco e intérpretes de Libras traduzindo cada canção, o bloco Deficiente é a Mãe transformou a área da Torre de TV em um espaço de celebração acessível e acolhedor na tarde de ontem. Criado por pessoas com deficiência e voltado a todos os públicos, o bloquinho aposta na inclusão como principal atração.

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Entre os foliões estava a servidora pública Anna Carolina Ferreira, 42 anos, analista de informática do Ministério Público, artista e militante da causa das pessoas com deficiência e das doenças raras. Cadeirante, ela escolheu o bloco justamente pela possibilidade de circular com segurança e conforto. "Em muitos lugares é bastante cheio e não há sensibilidade para cadeira de rodas. Aqui é democrático, tem fácil acesso e não fica no meio da multidão. A gente consegue entrar e sair com tranquilidade", afirmou.

Anna convive com epidermólise bolhosa (EB), uma doença rara que afeta a pele e a mobilidade. Até alguns anos atrás, tinha mobilidade reduzida, mas passou a utilizar cadeira de rodas de forma definitiva desde 2024. Ainda assim, nunca deixou de buscar a arte e a diversão. "Eu sempre fui muito animada. As limitações físicas não devem impedir a gente de se divertir", diz.

Mais do que a estrutura física, o que a emociona no bloco é o respeito. "Quando você vira cadeirante, percebe como falta consideração no dia a dia. As pessoas não dão passagem ou olham com pena, como se você não pudesse estar ali. Aqui, não. Aqui, eu sou só mais uma, igual a todo mundo", destacou.

Sanfoneira

A jornalista, fotógrafa e ativista Mariana Guedes, 33, também celebrou o carnaval no bloco. Paraplégica, ela destacou a importância de encontrar um espaço com estrutura acessível de fato. Artista há mais de uma década e bailarina de um grupo formado recentemente para apresentações inclusivas, Mariana se apresentou no bloco com sua banda "Me chame pelo seu nome", onde toca sanfona. "Estar aqui mostra que a acessibilidade é possível e que a gente também faz parte da programação cultural."

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O Bloco Galinho reuniu foliões no estacionamento da Matriz da Caixa, no Setor de Autarquias Sul, transformando o espaço em um reduto de frevo e cores. Ao longo do circuito, sombrinhas vibrantes cortavam o ar enquanto passistas deslizavam entre grupos de amigos e famílias inteiras. Mariana Tôrres, 18 anos, frequenta o Galinho desde os quatro meses de idade — quando ainda era levada no colo. Ao lado da irmã, Geovana Tôrres, 19, ela mantém um ritual que começou na infância. "A gente espera o ano inteiro para vir ao Galinho. Quando éramos crianças, nossa meta era dançar com as passistas", contou. 

Desde pequenas, as duas escolhem fantasias inspiradas no tema anual do bloco. Em 2026, além de manter a tradição, trouxeram as primas mais novas para o Pintinho, versão infantil que nasceu a partir do próprio Galinho e hoje consolida espaço próprio na programação.

Entre as crianças que aproveitaram o Pintinho, estavam as amigas Marina Lira, 12 anos, e Lara Pereira, 5, que chegaram cedo para curtir o frevo e as diversas atrações do bloco. Com alegria contagiante, aguardavam pela segunda vez na fila do Trenzinho da Alegria, acompanhadas de Lúcia Garcia e Diego Pereira, pais de Lara. "Estou gostando muito desta festa. As brincadeiras são boas, as fantasias maravilhosas, mas amei o trenzinho, que está sendo um sucesso. Achei o espaço tranquilo, principalmente para nós crianças. Essa é a segunda vez que participo do carnaval e estou curtindo muito", relatou Marina. 

Já a pequena Lara contou que, apesar de ter adorado o passeio sobre trilhos, outro momento foi ainda mais especial: "Tudo foi legal, gostei de andar no trem, mas jogar a espuminha foi o que mais gostei". Lúcia Garcia também elogiou a organização do evento. "Esse é um carnaval infantil excelente, com atrações, brincadeiras de qualidade e com muita segurança. Tudo muito bem organizado para divertir e embalar a criançada", completou.

Criatividade

O Bloco Na Batida do Morro, que levou o som do funk para a Esplanada e fez o chão tremer no Museu Nacional da República, também foi marcado por fantasias criativas com tom de conscientização.

Os amigos Guilherme Veras, 36 anos, consultor de imagem; Will Boaventura, 38, publicitário; e Renan Marques, 35, empresário, chamaram atenção ao surgirem vestidos de preservativos — tanto o modelo masculino quanto o feminino, tradicionalmente distribuídos pelo Ministério da Saúde.

Com direito até à embalagem antiga, que já não é mais distribuída, o trio revelou que mantém a fantasia há cinco anos e pretende continuar atualizando o figurino conforme os novos modelos são lançados.

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"Decidimos nos fantasiar de preservativos para conscientizar as pessoas, mas também como uma forma de humor, chamando a atenção e participando do carnaval. Já tem cinco anos que a gente tem essas camisinhas. É sempre uma atração nos eventos, as pessoas vêm muito tirar foto", contou Will. 

"Começamos quando tinha só a camisinha roxa. Aí saiu a feminina e a pretinha e fizemos também. Agora vamos atualizando. A intenção é no próximo carnaval ter a Tex e a Sense, que são as duas novas que o Ministério está lançando. Incrivelmente, não somos da área da saúde. Atuamos em áreas completamente diferentes. É apenas uma zoeira", completou.

Moradora de Ceilândia, Débora Martins, 30 anos, chamou a atenção no Bloco Baratona, no estacionamento 12 do Parque da Cidade, ao exibir a barriga de sete meses pintada com personagens dos Minions. Grávida de Theodoro, ela contou que a ideia surgiu de uma amiga artista. "Eu amo Minions e tenho uma amiga que faz essas pinturas. Ela deu a ideia de fazermos na barriga", explicou. Apaixonada pela folia, Débora afirmou que a gestação não a impediu de participar da festa. "Eu adoro o carnaval e, mesmo com sete meses, não deixei de curtir. Tô aproveitando enquanto ele ainda tá na barriga. Depois eu vou trazer ele também. Sempre curto o carnaval aqui e adoro", destacou.

No bloco Concentra Mas Não Sai, no estacionamento do Minas Brasília Tênis Clube, a professora de artes e teatro Lilian Alencar, 52 anos, chamou a atenção ao circular sozinha fantasiada de abelha, dançando e interagindo com o público. Para ela, o carnaval é sinônimo de liberdade, expressão e alegria. "Eu vim sozinha, uma abelhinha livre. Estou aqui para me divertir e dançar. Carnaval é isso."

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