
Imagens bem captadas, muitas vezes, dispensam legenda. Foi assim no início do Instagram, rede social que nasceu com o objetivo de permitir o compartilhamento de fotos. Aos poucos, o uso contínuo e intensivo foi moldando a plataforma. Onde antes se encontrava belos cliques do pôr do sol e do amanhecer ou de outros momentos dignos de moldura — seja por importância histórica, seja por valor poético — agora encontramos a profusão de vídeos e de cartões, como nos acostumamos a dizer, com informações, opiniões, dicas e tudo o que puder caber dentro de três minutos ou de carrossel de 20 itens.
O minimalismo do passado permitia que muitas fotos fossem postadas até mesmo sem legenda. É interessante fazer o exercício de tentar preencher mentalmente a descrição daquele momento, oportunidade em que a mente é deixada livre para criar. O mesmo pode ocorrer numa exposição de arte, por exemplo. Tente, antes de ler a descrição orquestrada pelo curador, imaginar o que aquela pintura representa. Ou mesmo a foto de um artista famoso. O ângulo, a luz, a sombra e o enquadramento conversam conosco.
Siga o canal do Correio no WhatsApp e receba as principais notícias do dia no seu celular
Seguimos com a possibilidade de exercitar essa habilidade. E que bom. Mas as redes sociais não são mais a plataforma para fazê-lo. Nenhuma delas. As legendas são fiéis escudeiras de cada postagem, trazendo informações ou interpretações diversas — e algumas delas bem perigosas. Se os três primeiros segundos de um vídeo são essenciais para prender a atenção do usuário, uma legenda bem construída, com texto estruturado, também tem seu papel importante.
Sempre pensei que, de fato, algumas imagens dispensassem legendas. É o caso das fotos de Sebastião Salgado sobre as condições de trabalho mundo afora. Ou mesmo de seus registros sobre as belezas naturais pelos continentes e em especial na Amazônia brasileira. O mesmo poderia dizer dos flagrantes de Cartier-Bresson, francês pioneiro do fotojornalismo. E de seu colega Robert Capa, que eternizou imagens de guerra.
Imagens de guerra, principalmente, deveriam dispensar legendas e chocar quem quer que fosse: fotógrafo, fotografado ou espectador. Independentemente de onde caiu o míssil ou a bomba; de onde acertou a bala. A imagem do horror estampado sobre o solo devastado pelo fogo deveria ter o potencial de entristecer proporcional ao seu potencial bélico.
Mas o que se vê, hoje, é que a legenda não é mais dispensável, pois, a depender de onde estoura o tiro, a dor parece estar passível de relativização. Seja aqui em Brasília, seja em qualquer lugar das américas, do Oriente Médio ou na Terra do Sol Nascente, meu desejo é que o mundo pare de contar mortes e comece a celebrar vidas.

Mundo
Mundo
Mundo
Mundo
Mundo
Mundo