Em um dos momentos mais impactantes do Movimente 2026, iniciativa do Sebrae do Distrito Federal, Maria da Penha subiu ao Palco Travessia e foi ovacionada. Em sua fala, a farmacêutica bioquímica e símbolo da luta contra a violência doméstica direcionou críticas e reflexões ao sistema de Justiça brasileiro. "A lei precisa ser efetivada, não apenas celebrada”, declarou a ativista, enfatizando que a conscientização avançou, mas que a estrutura do Poder Judiciário ainda é um obstáculo.
"Precisamos ter o Poder Judiciário sensibilizado. Geralmente, muitos homens deste Poder não são sensíveis; vimos recentemente coisas absurdas. No momento em que a mulher está no Judiciário, ela tem o olhar de mulher, e muitas delas também são vítimas", afirmou, fazendo referência ao caso da decisão do Tribunal de Justiça de Minas Gerais (TJMG) que absolveu um suspeito de 35 anos da condenação por estupro de uma menina de 12, em fevereiro.
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Maria da Penha destacou que a violência patrimonial é uma barreira invisível para o empreendedorismo feminino. "Às vezes, uma mulher não sai da situação de violência porque não tem como sustentar a família sozinha. Ela ajuda o marido a construir o patrimônio e, no final, ele não quer repartir o que ela ajudou a criar", exemplificou. Para a ativista, o sucesso nos negócios é a chave para o rompimento desses ciclos. "Mulheres são boas empreendedoras", disse.
Ao revisitar sua história de 19 anos de luta por justiça após o atentado que a deixou paraplégica, Maria da Penha lembrou que ouviu de movimentos sociais que "no Judiciário também existem machistas". Ela alertou que esse cenário se agrava com a era digital. "A partir de 2021, minha história e a legitimidade da lei foram colocadas em xeque por fake news. Entrei em depressão e tive medo de sair de casa", desabafou, ressaltando que hoje vive sob proteção do Estado.
Para ela, a solução definitiva exige educação preventiva e a presença de mulheres em todas as instâncias de poder. Atualmente, por meio do Instituto Maria da Penha, ela promove capacitações e projetos como a "Lei Maria da Penha em Cordel" e a "Prateleira Maria da Penha", focados em levar informação didática a escolas e empresas. "O meu caso não é sobre mim; é sobre nenhuma mulher passar pelo que eu passei. A educação é primordial para a desconstrução do machismo", declarou.
O evento Movimente 2026, realizado no Royal Tulip Brasília Alvorada, segue até amanhã com foco no fortalecimento do empreendedorismo feminino como ferramenta de autonomia. A programação desta terça-feira (3/3) tem ainda painéis internacionais e discussões sobre o futuro dos negócios com inteligência artificial, consolidando-se como um hub de transformação social e econômica para mulheres de todo o país.
