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Dia Mundial do Rim: conheça a história da mãe que fez doação ao filho

Jovem brasiliense recebeu um rim especial em uma cirurgia preemptiva. Em 2025, o DF realizou 119 transplantes do órgão

"Você me deu a vida duas vezes. Primeiro, quando me trouxe ao mundo, e depois quando tomou a decisão mais generosa e corajosa que uma mãe pode tomar: doar um rim". As palavras, escritas por Victor Mateus Gomes, de 34 anos, em uma homenagem à mãe, Sônia Maria Gomes, 64, resumem o sentimento que transborda após o transplante realizado em Brasília.

O gesto, que uniu ainda mais a família do Gama, transformou a dor da espera em um ato de amor incondicional, materializado em uma mensagem que Victor enviou do leito da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) em 8 de março, quando não pôde abraçá-la pessoalmente pelo Dia da Mulher.

A trajetória até a aguardada cirurgia, realizada no Hospital Brasília da Rede Américas, começou com um diagnóstico silencioso de hipertensão em 2013. Bancário de profissão e habituado ao ritmo intenso do atendimento ao público, Victor confessa que a juventude o fez subestimar a doença. 

 "Naquela época, muito novo e negligente, eu realmente não dei a mínima atenção. A pressão alta não me impedia de fazer nada e jamais imaginaria que isso pudesse chegar até a situação de transplante", revela. O cenário mudou quando exames indicaram que seus rins estavam perdendo a capacidade de filtrar o sangue, aproximando-se da marca de 15% de funcionalidade.

Diante do agravamento, o medo da hemodiálise passou a rondar Victor, mas o apoio familiar o fez se reerguer. "Tive uma rede de apoio muito ampla, diversas pessoas se disponibilizando para a doação, mas quando a situação piorou, o medo da emergência surgiu", conta o bancário.

Generosidade

Foi nesse momento que Sônia, aos 64 anos, e após superar dúvidas sobre a viabilidade da doação em sua idade, confirmou sua aptidão. "Nunca tive dúvida. Meu medo era apenas não ser compatível e não poder salvá-lo", recorda a mãe, que intensificou cuidados físicos e até aulas de hidroginástica para garantir que seu organismo estivesse pronto.

A decisão de Sônia permitiu que a equipe médica realizasse o transplante preemptivo, cenário considerado ideal por especialistas por ocorrer antes que o paciente precise das máquinas de diálise. Para o nefrologista do Hospital Brasília Pedro Mendes, o acompanhamento precoce foi o segredo do sucesso na operação.

"Muita gente acredita que o transplante só ocorre após a diálise, mas identificar o momento certo permite devolver ao corpo a função renal plena de forma planejada". No Distrito Federal, histórias como a de Victor somam-se aos 119 transplantes de rim realizados em 2025, dos quais 22 vieram de doadores vivos como Sônia.

Apesar da felicidade, Victor relata que o processo envolveu um conflito interno entre a gratidão e a preocupação com a mãe. "Primeiro, bate um medo de ter o rim doado por ela, pois sinto que estou sacrificando um pouco da saúde dela pela minha, fazendo-a passar por dor e cirurgia. Mas, ao mesmo tempo, tenho uma sensação de acolhimento que a gente só sente de uma mãe", desabafa.

Para ele, ver o ato imediato de quem "dá a própria vida" para que o filho tenha uma melhor é a definição máxima de amor. "Sempre a carregarei no coração e agora tenho mais um pouco dela aqui comigo para sempre", completa.

Marcelo Ferreira/CB/D.A Press - Victor Mateus se recupera no hospital: "Você me deu a vida duas vezes"

Alívio

A recuperação no hospital tem sido um período de introspecção para Victor. "Aqui no hospital a gente reflete muito sobre qual tipo de idoso quer ser. Vejo pessoas da minha idade com comorbidades e penso que saúde não se compra. Paga-se médico e remédio, mas a qualidade de vida a gente constrói", observa.

Ele destaca que, até o dia anterior à cirurgia, ninguém diria que ele estava doente, reforçando o perigo das enfermidades renais que não apresentam sintomas claros em seus estágios iniciais. Agora, seis dias após o procedimento, o alívio substitui a angústia do diagnóstico. "Eu olho no espelho, vejo a cicatriz e é uma sensação de renascimento. A cada exame mensal, eu via aquele prazo se aproximando, e agora a gente respira melhor", conta o bancário, emocionado.

O nefrologista responsável pela operação explica que, na maioria das vezes, os rins doentes não são retirados do corpo. "Curiosamente, o novo rim é colocado na parte inferior do abdômen (fossa ilíaca) e conectado aos vasos sanguíneos e à bexiga. O sucesso do transplante depende diretamente da adesão rigorosa ao tratamento medicamentoso e das consultas de acompanhamento", alerta.

O plano de Victor, agora, é retomar a rotina com um rigor redobrado com a saúde, transformando o impacto da cirurgia em um novo padrão de cuidado com o próprio corpo. O desfecho positivo para mãe e filho reforça como o planejamento médico e a doação em vida são capazes de alterar o curso de doenças que, de outra forma, seriam limitantes.

A disposição de Sônia em enfrentar os protocolos pré-operatórios aos 64 anos permitiu que o filho evitasse o desgaste da terapia dialítica, preservando sua qualidade de vida. Essa trajetória de diagnóstico e intervenção precoce ganha destaque neste 12 de março, o Dia Mundial do Rim, data que joga luz sobre a importância de monitorar funções vitais que, como no caso de Victor, podem operar em silêncio. 

Como ser um doador

Segundo o Ministério da Saúde, para ser doador de órgãos no Brasil, basta comunicar a decisão à família, visto que apenas os familiares podem autorizar a doação em caso de morte encefálica. Para uma formalização da intenção ou para aqueles que ainda em vida decidem doar, é possível registrar uma manifestação eletrônica por meio site www.aedo.org.br ou do aplicativo AEDO, que permite a seleção dos órgãos desejados. 

Além da formalização do desejo de doar, é necessário que doadores vivos tenham mais de 18 anos, gozem de boa saúde e passem por uma avaliação médica para verificar a compatibilidade e garantir que a doação não prejudicará sua saúde. A Autorização Eletrônica de Doação de Órgãos (AEDO) já soma mais de 458 solicitações emitidas em todo o DF, fortalecendo a política pública de transplantes no Brasil.

 

 

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