"Sentar e refletir. Levantar e agir". Esse é o lema do Instituto Banco Vermelho (IBV), cuja proposta é prevenir e informar a comunidade acerca das medidas de proteção às mulheres. Para isso, o grupo se vale da instalação de grandes bancos vermelhos que, mais do que um mobiliário urbano, tornaram-se símbolo de conscientização e mobilização contra o feminicídio e a violência de gênero. Ontem, foi a vez de Brasília ganhar a peça, a primeira do Distrito Federal instalada de forma fixa, em frente ao Sesi Lab, no Setor Cultural Sul, Bloco A, Asa Sul.
O marco visual, com três metros de altura por quatro de largura, foi fixado em uma área estratégica, próxima à Rodoviária do Plano Piloto, cuja circulação de pessoas é constante. A iniciativa, fundada em novembro de 2023, partiu da experiência dolorosa das reficenses Andréa Rodrigues, presidente da organização; e Paula Limongi, vice-presidente, que perderam amigas próximas para o feminicídio. Sem fins lucrativos nem vínculos políticos, o projeto tornou-se Lei Federal (14.942/24). Hoje, as instalações estão distribuídas em 17 unidades da federação.
"O banco é um elemento que convida a sociedade a participar dessa reflexão. É um ícone de prevenção, pois nada pode trazer uma mulher de volta. Muitas pessoas podem questionar se o banco salvará vidas. Ele não acabará com o feminicídio, mas oferece informações que podem impedir novos crimes, como o número 180 e a mensagem de que a mulher não está sozinha, pois a vítima de violência muitas vezes se sente isolada e desamparada. O objetivo é tirar a violência doméstica da invisibilidade", explica Andréa.
Luta coletiva
A doméstica Cláudia Regina Alencar, 51 anos, entende bem a importância da mensagem. Em 2025, enquanto seguia sua rotina em Águas Claras, ela foi abordada por um desconhecido que, sob o falso pretexto de um namoro, a arrastou pela rua com uma faca no pescoço com o intuito de abusá-la sexualmente. Salva pela intervenção de jovens que perceberam o perigo, a mulher sobreviveu a três facadas graves que comprometeram 80% dos movimentos de seu braço. "Sinto que metade de mim morreu depois disso", revela.
Ao saber da inauguração do Banco Vermelho pelo rádio, Cláudia sentiu que precisava estar presente. Diante do monumento gigante, o arrepio que sentiu não foi de medo, mas de reconhecimento. "Não é somente um mobiliário, mas uma ferramenta para que outros homens reflitam sobre seus papéis e mais mulheres possam se sentir amparadas, tanto emocionalmente quanto em termos de segurança, já que têm informações de como pedir ajuda", declarou.
Para a vice-presidente do IBV, Paula Limongi, o instituto é a materialização da transformação de um luto em luta. "Inicialmente, nossa ideia era apenas fazer uma homenagem a nossas amigas que sofreram feminicídios, espalhando bancos pela cidade para trazer a temática à tona. Mas a ação ganhou uma repercussão nacional tão grande que entendemos que não era mais sobre as nossas amigas, mas sobre a sobrevivência de todas as mulheres no quinto país que mais as mata no mundo", explicou
Em entrevista ao Correio, Andréa pontuou que este não deve ser um papo somente de mulheres. "Nós temos arregaçado as mangas e ido para canteiros de obras e campos de futebol para falar com os homens. Muitos agressores sabem o que fazem, mas tantos outros apenas reproduzem o que viram o avô ou o pai fazerem. Usamos uma 'linguagem do povo', direta, e chamamos esses homens para a conversa porque, muitas vezes, eles podem até não agredir fisicamente, mas 'passam pano' para quem faz", completou a presidente do IBV.
Ponto de destaque
O impacto visual do banco gigante cumpre seu papel de "parar" o cotidiano de quem transita pela Esplanada. Para Evely Araújo, cirurgiã-dentista de 27 anos que visitava Brasília vinda do Amazonas, o encontro com o monumento foi uma surpresa que tocou em feridas profundas. Vítima de importunação sexual por parte de um líder religioso no passado, Evely relembrou com dor o momento em que buscou aprofundar sua fé e acabou com "uma das maiores cicatrizes psicológicas da vida".
Para ela, a iniciativa é um sopro de coragem. "É uma forma de as mulheres terem voz para buscar ajuda e, ao mesmo tempo, um alerta para que os homens de fato as protejam, em vez de se omitirem", afirmou, destacando a importância de expor os dados da violência para o mundo.
A arquiteta Liana Oliveira, 29, avalia que o banco vermelho não passou despercebido tanto pelo simbolismo quanto pela escala urbana. Moradora do Sudoeste e acostumada a circular pela região para trabalhar no Superior Tribunal Militar (STM), ela havia visto a repercussão da inauguração pela manhã e fez questão de aproveitar o intervalo do almoço para registrar o momento. "Por ser um local de muita circulação, o banco força quem não conhece a causa a chegar perto, ler o banner e entender do que se trata", explicou.
A chegada do banco fixo a Brasília é fruto de uma parceria com a Confederação Nacional da Indústria (CNI). O presidente da CNI, Ricardo Alban, destacou o papel educativo do Sesi Lab como ambiente ideal para o monumento. "O futuro depende das crianças e jovens. Não podemos permitir que essa estatística continue. O 'levantar para agir' é o que mais importa. Precisamos de braços para mudar essa cultura ultrapassada", defendeu Alban.
O cenário na capital federal ainda é desafiador. Segundo a secretária de Justiça e Cidadania, Marcela Passamani, embora o DF possua programas de atendimento individualizado para as vítimas, os dados seguem alarmantes, com cinco casos de feminicídio registrados apenas neste ano. "Muitas vezes, a violência é normalizada dentro dos lares. Precisamos impactar esses homens e mostrar que viver sem violência é um direito, não um privilégio", pontuou a secretária.
O IBV está presente em todas as regiões do Brasil, com mais de 100 bancos gigantes e centenas de mobiliários menores espalhados pelo país. Em Brasília, além do novo banco fixo no Sesi Lab, o movimento conta com uma unidade itinerante que percorre eventos. A proposta é que a iniciativa se ramifique: qualquer comunidade pode adotar o projeto, pintando bancos de praça de vermelho e incluindo frases de conscientização e o número 180, seguindo o manual oferecido pelo Instituto.
"Temos chegado a lugares onde, muitas vezes, o braço do governo não chega, como comunidades quilombolas e a Ilha de Marajó. É um projeto democrático: o banco está na frente da igreja, no ponto de ônibus ou no hotel de luxo, sempre com a mesma missão de prevenir", resumiu Paula Limongi.
