Entrevista

Estresse e postura afetam mandíbula, alerta especialista em DTM

Ao CB. Saúde, Rafael Sales, fisioterapeuta, fala sobre a disfunção temporomandibular (DTM), que atinge o nível articular e muscular do rosto e causa de problemas dentários e auditivos a dores na face e na cabeça. Entenda o diagnóstico e o tratamento adequados

Com crescimento acelerado na população adulta, a disfunção temporomandibular (DTM) foi o tema do CB.Saúde — parceria entre o Correio e a TV Brasília. Aos jornalistas Sibele Negromonte e Ronayre Nunes, o fisioterapeuta Rafael Sales, especialista em DTM, explicou que a disfunção está ligada a hábitos como a má postura e estresse cotidiano, e apresenta sintomas, como dores na face e de cabeça, problemas dentários e zumbidos, exigindo tratamento multidisciplinar.

Temos estudos que apontam que quase metade da população sofre com a disfunção temporomandibular (DTM), e muitos nem sabem que têm...

A disfunção significa que algo não está acontecendo como deveria. 'Temporomandibular' se refere à articulação da mandíbula. Então, temos ali algo que não funciona da forma correta, tanto a nível articular quanto a nível muscular. E isso traz consequências: diversos sinais e sintomas, como dores na face, zumbido, sensação de ouvido tampado, travamentos ao abrir a boca e estalidos.

Por que essa disfunção está se espalhando tanto?

Ela tem uma causa multifatorial e uma das principais são os nossos hábitos do dia a dia. O estresse, a ansiedade e o sono inadequado, somados aos hábitos parafuncionais, provocam uma sobrecarga na articulação. Esses hábitos, que basicamente não têm uma função específica, incluem ficar longos períodos com a mão no queixo ou roer as unhas. Quando juntamos a má postura, o estresse e a falta de sono, a disfunção acaba atingindo muita gente.

Geralmente, as pessoas não procuram o fisioterapeuta de imediato ao perceberem os sintomas, já que descartam outras causas antes de chegar à fisioterapia. Quais são os especialistas que as pessoas devem buscar ao começarem a sentir esses sinais?

É importante destacar o papel do fisioterapeuta bucomaxilofacial, uma especialidade que trata alterações da cabeça, face e cervical, onde se inclui a DTM. É muito comum que os primeiros sinais, como o zumbido, levem o paciente a buscar um otorrinolaringologista ou um fonoaudiólogo. No caso de desgaste dentário ou quebra de dentes, entra o dentista, assim como o psicólogo atua nos fatores emocionais. Como falamos de uma condição multifatorial, devemos pensar em todos esses profissionais, sempre buscando especialistas.

Outra questão é o aumento considerável de casos após a pandemia, também por conta do estresse. Então, podemos dizer que a DTM está interligada aos nossos hábitos modernos?

Exatamente. Uma questão diretamente relacionada à pandemia, além da sobrecarga emocional, foi a postural. Muitas pessoas passaram a trabalhar em home office em ambientes que não estavam preparados. Como acharam que a pandemia não duraria tanto, improvisaram o local de trabalho, o que gerou má postura e sobrecarga emocional, levando ao desenvolvimento de sintomas.

O que o fisioterapeuta faz? Qual é o seu trabalho quando uma pessoa chega diagnosticada com DTM?

Precisamos realizar uma avaliação fisioterapêutica específica para verificar o nível de abertura da boca e se existe algum desvio ou uma articulação mais sobrecarregada que a outra. É fundamental investigar os hábitos do dia a dia, pois não adianta tratar as consequências sem focar na causa, seja ela alimentar, seja estresse, seja relacionada à postura. Embora a dor seja a maior queixa do paciente, nós a tratamos buscando entender a sua origem. Assim, trabalhamos na melhora do alinhamento, na estabilização da articulação e na redução de sintomas, como zumbido, tontura, dores de cabeça e dores ao mastigar.

Como funciona na prática? Existem equipamentos? Como é o uso da tecnologia no tratamento da DTM?

Existem equipamentos, sim. Um deles, sobre o qual temos muitos estudos científicos, é o laser de baixa frequência, que ajuda a inibir tensões e a reduzir processos inflamatórios. No tratamento, utilizamos diversas abordagens, dependendo de cada paciente. Podemos usar o agulhamento ou a liberação miofascial com técnicas manuais, prática que também possui diversos artigos publicados. Além disso, quanto à redução do estresse, é sempre fundamental reforçar a mudança dos hábitos que impactam negativamente a vida do paciente.

*Estagiário sob a supervisão de Patrick Selvatti

 

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