Chacina no DF

Chacina: diante do júri, réus enfrentam narrativa de uma matança em série

Com quase 11 horas, sessão no Fórum de Planaltina foi pautada nos depoimentos de testemunhas policiais, que narraram como ocorreram as execuções das 10 vítimas da mesma família. Julgamento será retomado às 9h desta terça-feira (14/4)

Carlomam dos Santos, Fabricio Silva, Gideon Batista, Carlos Henrique e Horácio Carlos: réus -  (crédito:  Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)
Carlomam dos Santos, Fabricio Silva, Gideon Batista, Carlos Henrique e Horácio Carlos: réus - (crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Alinhados lado a lado, com posturas rígidas, pouco movimento, olhares fixos às testemunhas e com expressões de alerta, sentaram no banco dos réus os cinco acusados de matar 10 pessoas da mesma família, na maior chacina do Centro-Oeste. O primeiro dia de júri durou quase 11 horas e foi marcado pelos depoimentos de testemunhas policiais, que narraram a dinâmica e a ordem de execuções das vítimas. O julgamento retoma às 9h desta terça-feira (14/4) e deve se prolongar até o fim da semana.

Logo nas primeiras horas da manhã, Horácio Carlos, Carlos Henrique, Gideon Batista, Fabrício Silva e Carlomam dos Santos chegaram escoltados em viaturas da Polícia Penal. Sentaram ao lado esquerdo do plenário do Fórum de Planaltina. Os bancos do plenário foram ocupados pelos familiares das vítimas e pelos advogados.

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  •  13/04/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF -  Fórum de Planaltina, julgamento da chacina de 2023.
    13/04/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Fórum de Planaltina, julgamento da chacina de 2023. Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
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  •  13/04/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF -  Fórum de Planaltina, julgamento da chacina de 2023. Juiz Taciano Vogado.
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  •  Ismael da Silva Rocha e Nelita Maria de Jesus, irmão e mãe de Elizamar
    Ismael da Silva Rocha e Nelita Maria de Jesus, irmão e mãe de Elizamar Fotos: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
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  • Carlomam dos Santos, Fabricio Silva, Gideon Batista, Carlos Henrique e Horácio Carlos: réus
    Carlomam dos Santos, Fabricio Silva, Gideon Batista, Carlos Henrique e Horácio Carlos: réus Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
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  •  Advogados de defesa Vanessa Ramos e Antônio Sardinha
    Advogados de defesa Vanessa Ramos e Antônio Sardinha Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
  •  13/04/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF -  Fórum de Planaltina, julgamento da chacina de 2023. Nelita Maria de Jesus e Ismael da Silva Rocha, mãe e irmão de Elizamar (vítima)
    13/04/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Fórum de Planaltina, julgamento da chacina de 2023. Nelita Maria de Jesus e Ismael da Silva Rocha, mãe e irmão de Elizamar (vítima) Marcelo Ferreira/CB/D.A Press
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    13/04/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF - Fórum de Planaltina, julgamento da chacina de 2023. Marcelo Ferreira/CB/D.A Press

Ao menos 23 testemunhas prestarão depoimento. Nessa segunda-feira (13/4), eram aguardadas as alegações de 11, mas, pelo horário, restringiu-se a seis. Duas foram dispensadas.

As seis testemunhas são: um policial civil do DF; dois policiais civis do Estado de Goiás; um delegado do DF que participou das investigações; um policial rodoviário federal; e o pai de uma das vítimas assassinadas.

Ordem dos assassinatos

A chacina dizimou 10 pessoas com vínculos familiares: Marcos Antônio Lopes de Oliveira (patriarca); a esposa de Marcos, Renata Juliene Belchior; a filha de Marcos e Renata, Gabriela Belchior de Oliveira; o filho deles, Thiago Gabriel Belchior de Oliveira; a esposa de Thiago, Elizamar da Silva; os filhos de Thiago e Elizamar, Rafael, Rafaela e Gabriel; a ex-companheira de Marcos Cláudia da Rocha Marques; e a filha de Marcos e Cláudia, Ana Beatriz Marques de Oliveira.

No júri, as testemunhas policiais descreveram a engrenagem criminosa arquitetada pelos réus, desde a articulação para o sequestro até a ordem de execução e desova dos corpos. O motivo seria a apropriação da chácara Quilombo, no Itapoã, de propriedade de Marcos.

Primeiro a depor, o investigador da PCDF atribuiu a Gideon a mentoria do plano sangrento. O primeiro a ser executado foi Marcos, no final de 2022, mas o corpo dele só foi encontrado em 18 de janeiro de 2023, enterrado e esquartejado no quintal da casa onde funcionava o cativeiro, no Vale do Sol, em Planaltina.

Conforme relatado pelo policial civil no júri, Horácio foi o responsável pelo esquartejamento. Um laudo pericial confirmou que o patriarca morreu com um disparo de arma de fogo na cabeça. A arma nunca foi encontrada.

Mas o ponto de partida da investigação foi o desaparecimento de Elizamar e dos filhos. Antes mesmo da localização do cadáver de Marcos, os corpos da cabeleireira e das crianças foram encontrados carbonizados dentro de um carro, em Cristalina (GO), em 13 de janeiro.

Segundo o investigador, Rafael, Rafaela e Gabriel estavam vivos quando foram incendiados. Os três respiraram fumaça e morreram carbonizados. Segundo ele, laudos periciais atestaram a morte Elizamar por asfixia mecânica. Ela foi carbonizada em seguida.

Mandante do crime

A ordem para a execução em série das vítimas da chacina teria partido de Gideon Batista após divergências entre os próprios acusados, afirmou o delegado Achilles Benedito no júri.

De acordo com a apuração, os familiares foram atraídos até a chácara de Marcos Antônio, sob falso pretexto, e, em seguida, submetidos a um assalto simulado. Horácio Carlos chegou a se passar por vítima para evitar a descoberta do plano. Carlomam dos Santos teria sido responsável pela execução dos roubos.

"Em depoimento, Carlomam relata que, após as mortes da mulher e das crianças, houve uma discussão, já que Fabrício Silva, outro acusado, não concordava com as execuções. Ele menciona o nome de Horácio ou de Gideon dentro do cativeiro, momento em que as vítimas tomam conhecimento de quem estaria por trás do plano", detalhou o delegado.

Após o episódio, Gideon teria determinado a eliminação dos demais familiares mantidos em cativeiro. No júri, a defesa de Carlomam questionou o delegado sobre a possibilidade de a ordem ter partido do próprio réu. "Isso não foi identificado. Pelo contrário, ele teria divergido", respondeu.

Durante as diligências, ficou clara a ascendência de Gideon sobre os demais envolvidos, frisa o investigador. "O Horácio foi braço-direito, o Carlomam teria sido o executor direto, Fabrício na vigilância do cativeiro e Carlos Henrique de forma eventual".

Na sequência, em 14 de janeiro, Renata e Gabriela foram levadas até Unaí (MG), onde foram estranguladas até a morte e queimadas. No dia seguinte, Gideon determinou que os outros dois matassem Claudia, Ana Beatriz e Thiago. Os três foram executados a facadas e arremessados em uma cisterna próxima ao cativeiro. Fabrício e Horácio voltaram ao cativeiro e atearam fogo nos objetos das vítimas com o objetivo de atrapalhar as investigações.

As defesas

Em cada depoimento prestado à época dos crimes, a polícia constatou que todos os acusados se autoincriminaram, ainda que de forma indireta. Alguns atribuíram aos demais funções específicas, como a atração das vítimas à chácara e a execução direta dos assassinatos. No entanto, ao serem confrontados sobre as mortes das crianças, todos procuraram se desvincular da responsabilidade.

A acusação sustenta que os crimes foram motivados por interesses patrimoniais e executados de forma coordenada. A expectativa é de condenações elevadas. "O que se espera é a condenação a penas superiores a 300 anos, com exceção de um dos réus, Carlos Henrique, cuja participação, ao que tudo indica, foi mais restrita", afirmou o assistente de acusação João Darcs. Segundo ele, a individualização das condutas será central para a definição das penas. "Cada um vai responder na medida da sua culpabilidade", disse.

Ainda de acordo com a acusação, o julgamento envolve alto grau de complexidade. "Temos vários acusados, várias vítimas e muitas testemunhas. Seria impossível que fosse concluído em um único dia", destacou.

Já a defesa de Carlos Henrique Alves afirma que irá focar na responsabilização individual. "A defesa vai buscar que ele seja responsabilizado unicamente pelos atos que cometeu", afirmou a advogada Vanessa Ramos.

Segundo ela, o acusado deve apresentar sua versão durante o julgamento, após ter permanecido em silêncio em fases anteriores. "Ele vai dar a versão dele. Não vamos adiantar teses agora, mas ele vai trazer a real versão do que aconteceu", disse.

 13/04/2026 Crédito: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press. Brasil. Brasília - DF -  Fórum de Planaltina, julgamento da chacina de 2023. Nelita Maria de Jesus e Ismael da Silva Rocha, mãe e irmão de Elizamar (vítima)
Ismael da Silva Rocha e Nelita Maria de Jesus, irmão e mãe de Elizamar (foto: Fotos: Marcelo Ferreira/CB/D.A Press)

Clamor por justiça

Do lado de fora do fórum, o início do julgamento reacendeu a dor dos familiares das vítimas. Mãe de Elizamar da Silva, Nelita Maria de Jesus acompanhou a abertura do julgamento. "É um sofrimento que não passa nunca", desabafou. Segundo ela, a fé foi essencial para enfrentar os últimos três anos. "Se não fosse Deus, eu não sei o que seria de mim", afirmou.

Irmão da vítima, Ismael da Silva Rocha também destacou o impacto duradouro da tragédia. "É uma ferida que nunca fecha", pontuou, frisando que a família espera que o julgamento traga algum alívio. "A gente espera que esse caso não seja esquecido e que a justiça seja feita. É o que a família espera", declarou.

Em frente ao Fórum de Planaltina, onde ocorre o júri, ele afirmou que, apesar da revolta, a família busca justiça. "O sentimento é de revolta. A gente quer justiça. A gente pede a Deus todo dia que ilumine a mente do juiz, do promotor, dos advogados, dos jurados, para que eles apliquem a pena máxima", apontou.

Ismael relembrou que um dos acusados, Gideon Batista, chegou a frequentar a casa da família. "A gente acolhia, tratava bem. E ver uma pessoa assim cometer uma barbaridade dessas é algo que a gente não consegue entender", afirmou.

Com uma camiseta com a foto de Cláudia e Ana Beatriz, uma familiar — que prefere não revelar o nome — clama por Justiça e questiona as autoridades. A mensagem escrita na parte de trás da camisa é: "10 vidas tiradas. Silêncio da sociedade, silêncio dos direitos humanos. Nosso grito é por Justiça. 10 vidas, 10 histórias ignoradas pelo silêncio. 10 vidas, ninguém falou, ninguém agiu, nós não vamos calar".

Segundo ela, tragédia maior poderia ser evitada. Ela relata que Cláudia desapareceu em 4 de dezembro de 2023 com a filha. Três dias depois, amigas da jovem tentaram registrar dois boletins de ocorrência na delegacia. "A Ana fazia parte de um time de games e iria viajar com as amigas, mas ela não estava respondendo. As amigas, claro, acharam estranho", recorda.

A família materna de Cláudia mora no Rio de Janeiro. Os parentes notaram algo de errado quando, em uma comemoração de aniversário de um dos parentes, a advogada enviou uma mensagem curta de felicitação. "Depois, o texto tinha erro de digitação. Ali, sabíamos que não era ela com o celular", concluiu. 

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postado em 14/04/2026 04:00
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