Com o olhar de quem acompanhou a construção da capital federal, no fim da década de 1950, a escritora Mercedes Urquiza busca apoio para lançar a segunda edição do livro A Trilha do Jaguar: na Alvorada de Brasília. A obra reúne histórias de heróis anônimos que ajudaram a tirar o projeto da capital do papel e apresenta uma visão poética sobre os mil dias de construção da cidade, até a inauguração, em abril de 1960.
Lançada em 2018, a primeira edição do livro (3 mil cópias) foi traduzida para o inglês e o espanhol, mas está esgotada. Apesar de a nova edição estar agendada pelo Conselho Editorial do Senado Federal, com previsão para abril de 2027, no aniversário de 67 anos de Brasília, Mercedes quer antecipar a publicação para este ano e procura apoiadores para viabilizar o projeto. "A segunda edição está pronta para entrar na gráfica e há espaço para uma página institucional destinada à empresa que apoiar o projeto", assinala.
De acordo com ela, a primeira edição da obra foi apresentada em países como Portugal e Itália, sendo recebida como um relato vivo da materialização de uma capital reconhecida internacionalmente, com destaque para a arquitetura e a qualidade de vida. "A recepção fora do Brasil foi bastante gratificante. Na Suécia, o livro foi uma das quatro obras apresentadas no estande brasileiro na Feira de Gotemburgo, em 2018", conta.
Mosaico
Nascida na Argentina, a escritora deixou Buenos Aires com o marido, Hugo Maschwitz, em 1957. A viagem até o Brasil, feita de jipe, durou cerca de dois meses. O livro se estrutura como um mosaico de memórias, reunindo vivências da autora e relatos de trabalhadores que participaram diretamente da construção de Brasília.
O título carrega um sentido mais simbólico do que literal. A "trilha" remete aos caminhos abertos no Cerrado antes mesmo da existência da cidade — percursos improvisados por trabalhadores, migrantes e aventureiros que chegaram ao Planalto Central em pleno processo de desbravamento. "Foi uma caminhada única para desenvolver o interior do país, que era ignorado", comenta.
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Já o "jaguar" — ou a onça — evoca força, território e sobrevivência. "Antes de ser a capital, aqui era um deserto habitado por muitas onças", afirma a autora. O elemento se conecta ao próprio Cerrado, espaço anterior à urbanização, e também funciona como metáfora da resistência daqueles que enfrentaram condições adversas durante a construção.
Ao longo da narrativa, Mercedes alterna descrições do cotidiano nos acampamentos com passagens que evidenciam o impacto social da transferência da capital para o interior, oferecendo uma dimensão mais íntima a um processo geralmente retratado sob perspectiva institucional. "Brasília continua crescendo sem parar. É a terra prometida", destaca.
O livro dialoga com o contexto do governo de Juscelino Kubitschek, responsável por impulsionar a construção da cidade como símbolo de modernidade e integração nacional. "Tivemos um comandante único", comenta. Nesse cenário, a autora evidencia os contrastes entre o discurso desenvolvimentista e as condições enfrentadas pelos trabalhadores, abordando temas como deslocamento, precariedade e resistência, sem perder o tom literário.
Outro aspecto marcante é a valorização da oralidade. A narrativa incorpora histórias transmitidas por operários, famílias e pioneiros, preservando memórias e percepções raramente presentes em registros oficiais. O recurso reforça o caráter documental da obra, que funciona como um registro sensível de uma geração ligada à fundação da cidade. "Foi necessária muita coragem do povo brasileiro para construir uma cidade, no meio do nada, em apenas mil dias", ressalta.
A trajetória pessoal de Mercedes também atravessa o livro. Sua chegada ao Brasil em um período de intensas transformações permitiu acompanhar de perto a formação de uma nova identidade coletiva. Ao relatar experiências desde o fim da década de 1950, ela constrói uma narrativa que combina pertencimento e olhar estrangeiro.
Além do valor histórico, a obra se destaca pela linguagem acessível e imagética, que aproxima o leitor dos cenários e personagens. Mercedes lembra que, à época, havia cerca de 5 mil pessoas na região que viria a se tornar a capital. A maioria era formada por homens, o que torna seu relato ainda mais singular, ao trazer a perspectiva de uma das poucas mulheres presentes naquele contexto.
"O espírito era ordeiro, porque todos tinham o mesmo objetivo e se dedicavam a ele: ver a capital inaugurada em 21 de abril de 1960. Assim, o milagre aconteceu", descreve.
Imagens
Ao longo das páginas, a autora recorre a elementos sensoriais e simbólicos para reconstruir ambientes, criando uma atmosfera que transita entre o registro documental e a literatura de memória. A obra conta, ainda, com mais de 60 fotos exclusivas, consolidando-se como uma contribuição relevante tanto para a narrativa histórica quanto para a preservação de histórias pouco visibilizadas sobre a construção de Brasília.
Entre as fotografias, é possível contemplar desde a paisagem ainda bruta do Cerrado até cenas do cotidiano nos acampamentos, com trabalhadores em meio à poeira, estruturas improvisadas e momentos de convivência coletiva. Há, também, retratos que capturam a dimensão humana da construção — expressões, gestos e rotinas — criando um contraste entre a grandiosidade do projeto e a simplicidade das condições enfrentadas. Mais do que ilustrativas, as fotos ajudam a materializar o tempo e o espaço descritos por Mercedes, aproximando o leitor de uma Brasília ainda em formação.
Interessados em apoiar a segunda edição de A Trilha do Jaguar: na Alvorada de Brasília podem entrar em contato pelo número (61) 9984-0538.
