Saúde

DF fica em alerta após casos suspeitos de hantavírus; veja orientações

Com três casos suspeitos na capital que apresentaram sintomas da doença em abril, epidemiologistas e autoridades da saúde alertam para os cuidados que devem ser tomados, mas reafirmam que o vírus não tem potencial de virar pandemia

Entre 2013 e 2026, vinte casos da doença foram registrados no DF; 14 pacientes foram a óbito -  (crédito: AFP  )
Entre 2013 e 2026, vinte casos da doença foram registrados no DF; 14 pacientes foram a óbito - (crédito: AFP )

Por Darcianne Diogo e Gabriela Cidade*

Depois de três anos sem registros de hantavirose no Distrito Federal, a morte confirmada de um paciente pela doença em Minas Gerais — a primeira no Brasil em 2026 — recolocou em alerta epidemiologistas e autoridades de saúde. A Secretaria de Saúde (SES-DF) afirmou monitorar três casos suspeitos na capital. Até o fechamento desta edição, não havia confirmação oficial do diagnóstico.

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Das três pessoas em observação, duas residem no DF e uma, em outra unidade da Federação. A pasta não informou qual e esclareceu que todos apresentaram sintomas em abril. "Os casos seguem em investigação clínica, epidemiológica e laboratorial, conforme os protocolos vigentes de vigilância em saúde", garantiu.

Desde 2013, o Ministério da Saúde (MS) alimenta uma planilha da situação epidemiológica da hantavirose. De 2013 a 11 de maio de 2026, o Brasil registrou 860 casos e 341 óbitos. Neste ano, sete casos foram confirmados: um em Minas Gerais, um no Paraná, um em Santa Catarina e dois no Rio Grande do Sul. As outras duas confirmações estão em "branco", ou seja, não se sabe a região. Uma morte ocorreu em Minas Gerais, em fevereiro.

Segundo o estudo, entre 2013 e 2026, vinte casos foram registrados no DF. No mesmo período, a capital contabilizou 14 mortes pela doença.

Sem exceção, todas as regiões registraram infecções por hantavirus. O Sul, Sudeste e Centro-Oeste concentram, segundo o Ministério, maior percentual de notificações. De acordo com a pasta, as infecções ocorrem principalmente em áreas rurais, em situações ocupacionais relacionadas à agricultura, e acometem mais homens de 20 a 39 anos (76%). Quanto à taxa de letalidade, a média é de 46,5% e a maioria dos pacientes necessita de assistência hospitalar, frisa o MS.

Infecção

O hantavírus é uma cepa de vírus transmitida por roedores silvestres. A contaminação humana ocorre pela variante Andes, a partir da inalação de partículas suspensas no ar provenientes de fezes secas dos animais. Apesar de rara, a doença tem alta taxa de letalidade, correspondendo a cerca de 20% a 40% na América do Sul, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS).

Em outro documento do Ministério da Saúde, são especificados os perfis dos casos confirmados no Brasil. Em 81% deles, as infecções ocorreram na zona rural. O fato de exposição de risco à limpeza de galpão ou depósito representa 53% da contração da doença. Contato direto com o roedor e desmatamento/aragem de terra ficam em 45%, respectivamente.

A secretaria alerta que a principal exposição está relacionada a atividades em áreas rurais, ambientes abertos ou locais com vegetação densa, além de espaços fechados e pouco ventilados, como galpões, depósitos, paióis e casas abandonadas. Situações como limpeza inadequada de ambientes fechados ou manipulação de terra e vegetação para abertura de novas áreas também podem potencializar o perigo.

Eveline Vale, infectologista e professora de medicina do Centro Universitário de Brasília (CEUB), explica que a doença pode começar de maneira leve e evoluir com velocidade, podendo se tornar uma insuficiência respiratória grave.

Os sintomas no quadro inicial não são específicos, e entre eles estão febre, dor no corpo, dor de cabeça, náuseas, vômitos e mal-estar geral. No quadro avançado, os sintomas podem se manifestar em: taquicardia, queda da pressão, falta de ar, tosse, diminuição no volume da urina e sangramentos. Neste caso, pode se tornar necessária a internação em UTI e ventilação mecânica.

Até o momento, não há antiviral específico para o tratamento do vírus, nem vacina. As medidas de suporte para a cura são hidratação vigorosa, uso de antitérmicos, oxigênio, diálise precoce e o uso de ventiladores, se necessário. Para a prevenção, a infectologista alerta para o armazenamento correto e seguro de alimentos, a manutenção de terrenos limpos e sem acúmulo de entulho e para evitar contato com fezes, urina e ninhos de roedores.

A Dra. Eliana Bicudo, infectologista do Hospital Santa Lúcia, acrescenta que o período de incubação do vírus pode ser de uma semana a até 2 meses. Por esse motivo, se há um caso confirmado em um ambiente, como no navio MV Hondius, todos que frequentaram o espaço devem ficar em observação por pelo menos 2 meses.

Sem risco de pandemia

Especialistas afirmam que, diferentemente do coronavírus, não há possibilidade de pandemia do hantavírus, que não possuir grande potencial de disseminação. O epidemiologista Wanderson Kleber de Oliveira explica: Um patógeno com potencial de causar uma pandemia precisa cumprir três condições simultâneas: transmissão sustentada pessoa-pessoa (ou seja, o vírus circula livremente entre a população); número básico de reprodução maior que 1 em populações suscetíveis (uma pessoa contaminada espalha o vírus para pelo menos mais uma, com crescimento exponencial); e a capacidade do vírus de ser transmitido por assintomáticos. "SARS-CoV-2 cumpriu todas. Hantavírus não cumpre nenhuma na epidemiologia brasileira", contou o especialista.

Apesar do cenário otimista, Wanderson alerta: "O que preocupa e merece honestidade técnica é a letalidade individual elevada", e complementa que as alterações no uso do solo e as mudanças climáticas afetam o risco de propagação da doença. O risco coletivo do hantavírus é baixo, mas o risco individual pode ser grave e fatal.

Estagiária sob a supervisão de Márcia Machado

 


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postado em 14/05/2026 06:00
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