O Setor de Oficinas Norte amanheceu sob a sombra da tristeza e do luto. Entre comerciantes, funcionários e frequentadores da região, o sentimento é de perplexidade após a morte do empresário Flávio Cruz Barbosa, 49 anos, brutalmente assassinado dentro da própria oficina. O acusado do crime é Eduardo Jesus Rodrigues, 24, que trabalhava no local havia oito dias. Eduardo teve, ontem, a prisão preventiva decretada pela Justiça após audiência de custódia.
Ontem, as lojas vizinhas à oficina OUD, que pertencia à vítima, abriram normalmente. Mas paira entre os lojistas o sentimento de medo e dificuldade para lidar com a brutalidade do caso. Um dos comerciantes, que preferiu não se identificar, contou que convivia diariamente com Flávio e descreveu o empresário como uma pessoa acolhedora, comunicativa e muito querida no setor. "Desde quando eu cheguei aqui, ele sempre dava bom dia, boa tarde. Na saída, também fazia questão de cumprimentar todo mundo. Era um cara tranquilo e amigável", relatou.
Segundo ele, Flávio era conhecido por ajudar outros comerciantes e trabalhadores da região. "Ele ajudava muita gente aqui. Passava orientação do que seria melhor fazer e acolhia as pessoas. Não tenho nada negativo para falar dele, só coisas positivas", afirmou.
Som
O comerciante contou que estava ocupado com o recebimento de uma mercadoria nos fundos da loja, no momento do crime, e ouviu apenas um barulho estranho, sem imaginar o que estava acontecendo. "Parecia alguma coisa caindo, tipo panela. A gente jamais imaginava que seriam facadas ou agressões com rodas de carro", disse.
Pouco tempo depois, segundo o relato, Eduardo caminhou em frente à loja com tranquilidade. "Ele passou com semblante normal, como se nada tivesse acontecido. Ficou olhando para um funcionário nosso, e depois foi pedir água e cigarro no bar", contou.
O lojista afirma que apenas as mãos do homem estavam sujas de sangue, mas ninguém desconfiou inicialmente da gravidade da situação. "Depois ele falou no bar: 'Acabei de matar o Flávio'. Foi uma frieza absurda", relembrou.
De acordo com o empresário, um policial à paisana que estava nas proximidades conseguiu abordar e imobilizar o suspeito até a chegada da Polícia Militar. "Foi tudo muito rápido. O policial chegou, deu voz de prisão e colocou ele no chão. Sem agressão. Depois os policiais chegaram", relatou.
Abalado, o comerciante afirmou que não conseguiu dormir após presenciar as cenas. "A gente fica revoltado. O convívio era diário e, do nada, acontece uma coisa dessas. É um choque muito grande", disse.
Comércio
No bar, silêncio, tristeza e tensão predominavam. No local onde o suspeito entrou logo após o crime, funcionários e frequentadores ainda tentam processar o que aconteceu. Segundo relatos, o estabelecimento estava cheio e funcionava normalmente quando o homem chegou pedindo água e cigarro.
Ele aparentava tranquilidade, apesar de estar com partes do corpo sujas de sangue. "Não prestei muita atenção devido ao movimento. Ainda estamos tentando entender", disse o responsável pelo estabelecimento.
Um dos funcionários ressaltou que o clima no setor é de profunda tristeza e revolta. "Está todo mundo muito assustado. Ele era um cara muito gente boa que nós perdemos. Foi tudo muito rápido. Hoje, o setor amanheceu mais triste", contou.
Prisão mantida
A Justiça determinou a prisão preventiva de Eduardo Jesus. Ao converter em preventiva a prisão em flagrante, o juiz Roberto da Silva Freitas afirmou que a execução do crime evidencia conduta brutal. Flávio foi atingido com 41 golpes de faca na região do rosto e na dorsal, segundo laudo preliminar da perícia, ação essa que, segundo o magistrado, revela violência extrema, desproporção na ação ofensiva e indícios de que a vítima, ao ser atacada, já estava em posição de vulnerabilidade.
O juiz considerou a reincidência criminal de Eduardo, uma vez que ele responde por tráfico de drogas.
Crime
O assassinato ocorreu na manhã de quarta-feira. Segundo as investigações da Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), Eduardo trabalhava temporariamente no estabelecimento há apenas oito dias. Imagens das câmeras de segurança registraram toda a dinâmica e brutalidade do homicídio.
O suspeito atacou Flávio enquanto o empresário estava sentado. O vídeo mostra o momento em que Eduardo desfere uma joelhada na vítima antes de iniciar uma sequência de golpes de faca. Em seguida, jogou por diversas vezes uma roda de carro na vítima.
A motivação do crime é investigada pela PCDF. Até o momento, a polícia trabalha para esclarecer o que levou o funcionário recém-contratado a cometer o assassinato com extrema violência.
Sepultamento
A família e amigos do empresário Flávio Cruz prestarão as últimas homenagens a ele na tarde desta sexta-feira, no Cemitério Campo da Esperança de Sobradinho. O velório ocorrerá na capela ecumênica. Segundo Manoel Jorge Ribeiro, amigo da vítima e advogado, Flávio deixa para trás um trabalho excepcional e perfeccionista, além da memória de um homem divertido e querido.
