Investigação

Por trás do reboco: como operava a rede clandestina de criptomoedas abastecida por furto de energia

Em uma modalidade de crime até então inédita no DF, casas em áreas rurais e urbanas de São Sebastião serviam de base para uma quadrilha especializada em desviar eletricidade para alimentar equipamentos de informática

Em uma área erma no Núcleo Rural Cava de Baixo, em São Sebastião, uma pequena casa, com paredes ainda no reboco, escondia um esquema criminoso que afetava o abastecimento de energia na região. A simplicidade do imóvel se restringia ao exterior. Lá dentro, funcionava uma usina de mineração de criptomoedas, com máquinas operando 24 horas por dia. À primeira vista, a atividade poderia parecer regular, não fosse o desvio de energia elétrica que sustentava a operação. O prejuízo causado à Neoenergia — responsável pela geração, transmissão, distribuição e comercialização de energia no DF — aproxima-se de R$ 8 milhões.

A casa na zona rural foi o ponto de partida das investigações no fim de 2025. Inicialmente, a 30ª Delegacia de Polícia (São Sebastião) recebeu uma denúncia rotineira de furto de energia elétrica. Mas o avanço nas diligências colocou os policiais frente a um caso nunca antes registrado no Distrito Federal, afirma o delegado Rooney Matsui, titular da 30ª DP. Àquela altura, era claro que o desvio de energia estava atrelado à operação com criptomoedas.

Darcianne Diogo/CB/D.A Press -
Neoenergia/Divulgação -
Darcianne Diogo/CB/D.A Press -
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PCDF/Divulgação -

Em depoimento prestado à polícia na época, o dono da casa relatou ter arrendado a propriedade pelo valor de R$ 1 mil mensais. Um dia, resolveu ir ao imóvel. Não encontrou ninguém, mas deparou-se com um barulho estridente e dezenas de máquinas nos cômodos. Ele percebeu, ainda, uma ligação de fiação de cabos de energia entre a casa e o poste gerador, indicando um possível "gato".

No dia seguinte, a polícia esteve no imóvel e encontrou um vão. Os suspeitos já tinham recolhido os equipamentos e fugido. Segundo o delegado, eles estavam naquele endereço havia pelo menos dois meses. "Eles (autores) buscam áreas ermas por causa do barulho que as máquinas fazem", afirmou Matsui.

Rol de imóveis

De janeiro a abril deste ano, a PCDF e a Neoenergia deflagraram sete fases da operação CriptoGato. Além da residência que deu origem às apurações, as equipes identificaram outros nove imóveis, todos em São Sebastião, escolhidos por criminosos para operar como mineradoras clandestinas. Dois dos endereços estão na área urbana da cidade.

Nesses locais, investigadores e técnicos encontraram máquinas de mineração, além de resquícios de infraestrutura ou indícios claros de furto de energia elétrica. Segundo a polícia, os suspeitos permanecem nos endereços por algum tempo, depois se mudam para evitar suspeitas. O Correio esteve em um dos endereços, na Rua 12 do Bairro Vila Nova, avenida que intercala comércios e poucas casas. Uma delas, com portão cinza, passa quase despercebida.

A residência é cercada com um muro alto e cerca elétrica. Os vizinhos só souberam que o local fazia parte do esquema criminoso com a deflagração da operação. Uma moradora, que preferiu não se identificar, contou que praticamente não via pessoas na casa. O imóvel, segundo ela, pertence a um amigo. Após a morte da mãe do inquilino, ele resolveu se mudar para o Lago Norte e deixou a propriedade aos cuidados de outra pessoa.

"Seria para ela vir aqui às vezes, dar uma olhada, mas jamais imaginaríamos algo maior." No tempo em que essa pessoa cuidou da residência, as quedas de energia na rua eram frequentes. Segundo a moradora, houve registros, inclusive, de incêndio no poste. "Pegava fogo direto e ligávamos para os bombeiros. Achávamos que era algo normal", relatou.

Ela contou, ainda, que quando a polícia invadiu a casa, encontrou a estrutura completamente modificada. As paredes divisórias dos cômodos haviam sido derrubadas pelos criminosos para abrigar pelo menos 45 máquinas, que operavam 24 horas por dia. 

Arthur Franklim, gerente da Neoenergia Brasília, descreve os imóveis alugados pelo grupo. "São residências, em sua maioria, localizadas na área rural de São Sebastião. Todas são vigiadas por câmeras. Então, o grupo monitora a casa de forma remota e vão pouco aos locais", explica.

Nas salas desocupadas da 30ª DP, um amontoado de máquinas: foram apreendidos cerca de 700 equipamentos de mineração. Cada um delas custa, no mercado, entre R$ 2 mil e R$ 6 mil. O investimento do grupo e o esquema para o furto de energia revelam uma organização estruturada e com possível divisão de tarefas, segundo o delegado.

"Sabemos que uma terceira pessoa é contratada para alugar o imóvel. Há outro integrante responsável por fazer a instalação de energia e de informática, além de um que encabeça e distribui as tarefas. Tudo isso está em investigação", detalhou Matsui. As investigações seguem para identificar e responsabilizar os envolvidos, mas até o momento ninguém foi preso.

O delegado esclarece que o crime não está associado à operação de criptomoedas, mas com o furto da energia, crime previsto no artigo 155 do Código Penal Brasileiro, com pena de até oito anos de reclusão.

Prejuízo milionário

A energia desviada ao longo das sete fases da operação seriam suficiente para abastecer mais de 47 mil residências por mês, volume comparável ao consumo de toda a região do Recanto das Emas pelo período de 30 dias, estima um balanço da Neoenergia.

Nos últimos meses, os técnicos da empresa geradora receberam dezenas de reclamações de moradores de São Sebastião em relação à qualidade da energia. As queixas de queda frequente de luz são pertinentes, afirma Arthur Franklim. "O furto de energia gera um distúrbio na rede e pode diminuir a voltagem. De 220V, por exemplo, pode cair para 180V."

A Neoenergia dispõe de duas equipes de serviço treinadas para combater esse tipo de crime. Elas são encarregadas das inspeções na rua: mais de 50 mil por ano em todo o DF. As da área da inteligência estão à frente dos monitoramentos, pesquisas, uso de drones e até de inteligência artificial para identificar os endereços suspeitos. Brasília é pioneira nesse tipo de furto, afirma o gerente da empresa.

O prejuízo, de acordo com ele, vai além do montante milionário. "Na prática, somos uma distribuidora e nosso produto é fornecer energia. Pagamos pelo sistema e, quando não é faturada, é um prejuízo para o consumidor, pois estou comprando essa energia. É um prejuízo duplo, de dinheiro e de qualidade."

Grande aliada no combate a esse crime é a população, frisou Franklim. Segundo ele, ao notar piora na qualidade da energia ou ao começar ouvir um barulho estranho, o ideal é denunciar pelo canal da Neoenergia: 116. A queixa pode ser anônima.

 


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