Comportamento

Brasilienses transformam figurinhas da Copa do Mundo em coleção de afetos

Completar um álbum pode significar mais que apenas colar adesivos. Fãs relatam histórias de união em mais uma edição da Copa do Mundo. Preços que chegam a R$ 1 mil não afugentam os colecionadores

A cada quatro anos, um espírito colecionador desperta em todo o país e movimenta milhares de brasileiros, dos mais novos aos mais velhos, com o objetivo de adquirir centenas de figurinhas de jogadores que a maioria da população, talvez, nunca tenha ouvido falar. O álbum da Copa do Mundo representa um fenômeno social dentro da sociedade brasileira. "É uma época de troca de afetos, acima de tudo", diz a psicóloga Luisa Borges.

A tradição das bancas como pontos de troca de figurinhas simboliza algo bem maior do que a chegada do maior torneio de futebol do mundo. Trata-se da manutenção de um costume analógico em um mundo já digitalizado. "Nesse período, a cidade muda por completo. É um momento onde as barreiras digitais, as interações por telas são reduzidas em prol de um contato mais natural", explica Luisa, que também menciona o peso da Copa de 2026 como a "primeira Copa do Mundo a ser realizada depois que a pandemia de covid-19 foi superada". Isso reitera a importância dos "reforços sociais".

 

Memórias vivas

Um álbum é, em sua essência, uma história. A primeira edição desses cadernos da Copa foi feita em 1950 como um adicional às chamadas "Balas Futebol" produzidas pela fábrica A Americana. Contudo, a popularidade dos adesivos rapidamente superou a dos próprios doces, o que incentivou a continuidade dos produtos em futuras edições da Copa do Mundo.

Um álbum pode guardar memórias do momento em que foi adquirido ou completado. João Marcos Fernandes, bancário de 44 anos, entrou na onda dos álbuns em 2014, ano do fatídico 7 a 1 da Alemanha, com o retorno do torneio ao Brasil. Originalmente, o interesse surgiu pela diversão de se obter um novo hobby, masm com o tempo, recebeu um novo significado.

Mídia cedida ao Correio - De pai para filhos. Da esquerda para a direita: Nicolas, João Marcos e João Lucas

"Depois da Copa no Brasil, eu tive meu primeiro filho e decidi que, em 2018, iria completar o álbum junto com ele", conta. "O ápice da nossa felicidade foi na última edição, de 2022. Meu segundo filho nasceu, e a tradição continuou. Gostamos tanto que cada um teve seu próprio álbum" completa o bancário. João Marcos afirma que os dois filhos, João Lucas e Nicolas, conseguiram completar suas coleções antes mesmo dele.

No total, são seis álbuns da família que deram início a uma tradição interna entre pai e filhos. "Começamos a comprar promoções de 100 pacotinhos juntos e criamos o costume de nos reunir para abrirmos vários deles juntos. Ver a reação dos garotos quando tiram uma figurinha rara é algo impagável", diz o pai.

Agora, a fixação dos filhos está nas "figurinhas legends", que mostram craques do futebol em artes especiais de corpo inteiro. João Marcos e família já possuem oito dessas até o momento, mas ele ainda lamenta a perda de um dos itens da coleção. "Em 2022, tiramos de um pacotinho uma figurinha do Neymar Legend prateada, mas os meninos levaram para a escola e acabaram perdendo. Desde então, aprenderam a ter mais cuidado com itens valiosos."

 

Mercado "da bola"

A aventura de se tornar um colecionador dos álbuns da Copa do Mundo vai além da surpresa dentro dos pacotinhos. Na verdade, talvez a principal preocupação dos praticantes desse hobby neste ano seja os custos de embarcar nessa jornada. O álbum avulso custa, em sua forma mais barata, R$ 24,90. A versão de capa dura sai por R$ 74,90, e a versão metalizada de capa dura sai por R$ 79,90. Porém, o que mais chocou os consumidores é o preço fixo de R$ 7 por cada pacote de figurinhas, quase o dobro da edição passada, quando eram vendidos por R$ 4, e quase o quádruplo de 2018, época em que cada unidade saía por R$ 2.

Apesar disso, a Panini, empresa responsável pelos produtos, buscou compensar o aumento do preço com um maior número de cromos disponíveis. Cada pacote agora conta com sete figurinhas, três a mais do que as quatro oferecidas na edição do Catar. Vale ressaltar que o aumento dos preços também vem de forma simultânea ao aumento do número de seleções na Copa, que agora tem 48 seleções participantes. Nas edições anteriores, apenas 36 países se classificavam para o Mundial.

Minervino Júnior/CB/D.A.Press - Caça ao tesouro: figurinhas numa mão, mapa das que faltam na outra

A psicóloga Luisa Borges explica a aparente lealdade dos fãs independentemente do preço: "Não é de hoje que as pessoas estão dispostas a pagar pelo lazer. As figurinhas são um meio, mas as pessoas pagam pelo momento de colar, pelas interações com amigos e família e várias outras situações que esse hobby propõe. Não é diferente de pagar para assistir a um serviço de streaming."

Conforme mais álbuns são lançados, mais cobiçados se tornam itens raros ou antigos de Copas passadas. Na internet, um álbum de 1950, a primeira edição do campeonato, custa, em média, R$ 367. Já figurinhas douradas de craques da coleção Legends, que estreou em 2022, ultrapassam os R$ 1 mil no mercado virtual.

 

Santuários

A febre afeta tanto os fregueses quanto os próprios funcionários. José Gonçalves Brito, 63 anos, é jornaleiro e dono da Banca do Brito desde 1984. Localizada na entrada da SQN 106, a banca já acompanhou 10 edições da Copa do Mundo e hoje se destaca pelo volume de clientes que reúne durante essa época. "No começo, eu colocava prêmios para o primeiro a completar os álbuns, aí começou a vir muita gente pra cá". De acordo com José, nos dias mais movimentados, entre 12 a 16 pessoas chegam a trabalhar na banca.

Os arredores do estabelecimento são ocupados por uma série de apaixonados em busca de completarem seus respectivos álbuns e por uma linha colorida de bancadas destinadas a troca e venda de figurinhas.

Mariana Campos/CB/D.A Press -
Mariana Campos/CB/D.A Press -
Mídia cedida ao Correio -
Minervino Júnior/CB/D.A.Press -

Entre os vendedores estão Artur Marçal e Marcos Farias, de 18 e 25 anos, respectivamente. Os dois se especializaram na venda de figurinhas avulsas desde 2014 e comentam a respeito do negócio: "As pessoas vêm bastante para nós quando estão perto de fecharem um álbum ou quando querem algum jogador específico. Desde que começamos a trabalhar com isso, as mais procuradas sempre são as do Messi e Cristiano Ronaldo. Então, sempre temos elas disponíveis". No Terraço Shopping, o fim de semana também foi de encontro entre colecionadores. A reunião ocorreu em frente à lotérica e à livraria, no segundo andar.

Estagiário sob a supervisão de Tharsila Prates

 

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