
Nenhum setor deu tanta dor de cabeça aos quatro treinadores da Seleção Brasileira nos 35 jogos do ciclo para a Copa do Mundo de 2026 quanto o ataque. Posição problema. Quem se acostumou a duplas históricas, gênios e artilheiros viu o sonho do hexa ser retomado com Vinicius Junior, Rodrygo e… Rony no primeiro jogo após o Catar, a derrota por 2 x 1 para Marrocos, em março de 2023. Trio ofensivo, talvez, inimaginável. Não que o então atacante do Palmeiras não merecesse reconhecimento, mas a escalação evidenciava a sucessão de testes na camisa mais pesada do planeta bola.
Não foi um, não foram dois nem três experimentos no último terço do campo. Ramon Menezes, Fernando Diniz, Dorival Júnior e Carlo Ancelotti utilizaram, juntos, 28 homens de frente com características distintas. Alguns, merecidamente. Outros, nem tanto, convocados em meio à busca incessante por soluções ofensivas. O ponto mais sensível do setor segue sendo a camisa 9. Ninguém ainda a reivindicou. O Brasil chega a mais um ciclo sem um centroavante incontestável. A carência mudou a natureza das principais referências ofensivas da equipe depois do efeito dominó provocado pela lesão de Neymar, em outubro de 2023.
Mesmo atuando cada vez mais como meia-articulador, o camisa 10 deixou um vazio criativo ainda não preenchido. Improvisos surgiram, como Rodrygo na função de organizador do jogo. Em alguns momentos, Raphinha seguiu caminho semelhante ao abandonar o corredor para gerar criatividade pelo centro. Vinicius Junior foi deslocado de ponta para falso 9 e segundo atacante. Endrick apareceu como solução precoce nos amistosos contra Inglaterra e Espanha, mas perdeu espaço na reta final da era Dorival Júnior e tenta convencer Ancelotti a levá-lo para a missão na América do Norte.
É, Brasil, quem te viu, quem te vê. As grandes Seleções costumavam chegar às Copas do Mundo com referências ofensivas muito claras. Vavá foi o homem-gol do bicampeonato em 1958 e 1962. Jairzinho tornou-se, em 1970, o único jogador a marcar em todos os jogos de um Mundial. Romário desembarcou nos Estados Unidos, em 1994, como protagonista absoluto. Ronaldo terminou 2002 como artilheiro do penta. O ciclo atual caminhou na direção oposta. Rony, Pepê, Galeno, Samuel Lino, Yuri Alberto, Kaio Jorge, Igor Jesus, Evanílson e Igor Thiago apareceram como alternativas ofensivas em meio à procura incessante por um camisa 9 confiável.
Enquanto o centroavante ideal não aparece, o Brasil segura, literalmente, as pontas. Antony, Savinho, Luiz Henrique, Estêvão, Martinelli, Pepê, Samuel Lino, Galeno e David Neres surgiram como alternativas ao longo do ciclo, refletindo uma transformação cada vez mais evidente do futebol brasileiro. O país que, durante décadas, produziu homens de área decisivos agora exporta extremos velozes, agressivos e adaptados ao jogo europeu. Sobram atacantes de lado e falta quem empurre a bola para as redes.
A possível volta de Neymar adiciona uma nova camada ao quebra-cabeça ofensivo da Seleção. Aos 34 anos e cada vez mais distante do antigo papel de organizador clássico, o craque passou a atuar no Santos mais próximo do ataque, muitas vezes como segundo atacante ou homem de área móvel. Caso retorne definitivamente ao ciclo, Carlo Ancelotti provavelmente precisará remodelar o setor.
Vinicius Junior voltaria, naturalmente, para o corredor esquerdo, enquanto Neymar recuperaria liberdade para circular por dentro sem grandes responsabilidades de recomposição. Isso abriria disputa direta por espaço com jogadores como Matheus Cunha, utilizado pelo italiano justamente como segundo atacante.
O excesso de testes não se transformou em produtividade. O Brasil passou seis partidas do ciclo sem marcar gols — contra Uruguai, Argentina, Costa Rica, Paraguai e Equador — e frequentemente transmitiu a sensação de um ataque talentoso, mas desconectado. Nem mesmo Vini Jr., eleito melhor jogador do mundo pela Fifa em 2024, conseguiu reproduzir com regularidade na Seleção o impacto apresentado no Real Madrid. Culpa do ecossistema que não o abastece e o sobrecarrega com recomposição e necessidade de criar.
Três perguntas para Jairzinho, o Furacão do tri em 1970 e único a marcar em todos os jogos de uma edição do Mundial
Concorda que vivemos a era dos pontas no futebol mundial?
Jogar mais por um setor é reflexo do momento do futebol mundial. Está sendo aqui no Brasil e lá fora. É bom, até porque todos nós nos conhecemos. Vai ganhar a Copa quem tiver mais condição física, qualidade técnica e disciplina tática. Não vai ter surpresa. Todos nós sabemos como jogam as seleções de ponta. Na minha época, os pontas atuavam na posição de origem. Hoje, jogam invertidos. Isso faz parte da criatividade do futebol.
Dá para ganhar a Copa do Mundo sem um centroavante?
Isso depende muito do treinador. Exemplo: o Tostão não era centroavante e jogou de centroavante na Copa de 1970. Eu não era centroavante e joguei de centroavante. Tudo é momento e a visão do treinador, ou seja, encontrar uma forma de o Brasil jogar na qual ele vai depositar toda a confiança em um centroavante, no ponta direita, no ponta esquerda ou no meia de ligação.
Os nossos pontas de hoje sabem fazer gol?
Estamos muito bem. Temos jogadores ofensivos de alta qualidade, de criatividade, que não tínhamos faz tempo. De improvisação, de ocupação de espaço. Mesmo sem a orientação do treinador, eles têm leitura de jogo e sabem detectar onde está a falha do adversário, vão lá e fazem a diferença.
Quem jogou no ciclo
Atacantes: Antony, David Neres, Endrick, Estêvão, Evanílson, Gabriel Jesus, Gabriel Martinelli, Galeno, Igor Jesus, Igor Thiago, João Pedro, Kaio Jorge, Luiz Henrique, Malcom, Matheus Cunha, Paulinho, Pedro, Pepê, Raphinha, Rayan, Richarlison, Rodrygo, Rony, Samuel Lino, Savinho, Vinícius Júnior, Vítor Roque e Yuri Alberto

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