Igreja Católica

Padre Françoá rebate excomunhão do Vaticano e celebra missa no DF

Vinculado à Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), padre Françoá Costa ignora alerta da Arquidiocese de Brasília sobre cisma e afirma que punições do Vaticano são inválidas

O padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa contestou a declaração da Arquidiocese -  (crédito: Carlos Silva/CB/D.A.Press)
O padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa contestou a declaração da Arquidiocese - (crédito: Carlos Silva/CB/D.A.Press)

Em meio à recente polêmica na Igreja Católica, após a excomunhão de membros da Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX), a existência de uma capela em Ceilândia vinculada ao grupo veio à tona após a Arquidiocese de Brasília divulgar uma nota pastoral alertando os fiéis para que evitem frequentar o local.

No documento, a Igreja afirma que o padre Françoá Rodrigues Figueiredo Costa (líder da comunidade) e os demais ministros da fraternidade estão em situação de cisma e excomunhão após a ordenação de quatro bispos sem autorização do sumo pontífice. O sacerdote, por sua vez, rejeita a acusação, afirma que as sanções "são totalmente inválidas, nulas, não têm nenhum efeito" e sustenta que a comunidade "permanece católica e unida ao Papa Leão XIV".

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Na manhã de ontem, o Correio esteve na capela. Mesmo após o alerta da Arquidiocese, ela estava lotada. A maioria dos fiéis era composta de jovens entre 20 e 30 anos de idade, e uns poucos adultos acompanhados de suas famílias. Os homens acompanhavam a celebração de camisa e calça social ou terno e gravata. As mulheres, de vestido longo e, todas, com o rosto coberto por véu branco ou preto.

A presença dos fiéis parecia ignorar o alerta feito em nota pastoral assinada pelo cardeal Paulo Cezar Costa, e divulgada na manhã de sábado, na qual a Arquidiocese de Brasília afirma que o padre Françoá, vinculado à FSSPX, encontra-se "em situação de cisma e excomunhão", assim como os demais ministros da fraternidade, em razão das ordenações episcopais realizadas sem mandato apostólico (Leia Para Saber Mais no fim deste texto)

O documento ressalta que os atos ministeriais praticados pelo sacerdote são considerados ilícitos e acrescenta que, nos casos dos sacramentos da Penitência e do Matrimônio, "a absolvição administrada ou o matrimônio assistido por ele são considerados nulos, inválidos".

A nota também faz um alerta aos fiéis que frequentam regularmente atividades promovidas pela FSSPX. "Os fiéis leigos que aderem formalmente à Fraternidade Sacerdotal São Pio X, compartilhando suas razões de ruptura, suas opções e sua rejeição prática da submissão ao Romano Pontífice e aos Bispos em comunhão com ele, e que frequentam regularmente ou exclusivamente as atividades vinculadas à Fraternidade®, são considerados, igualmente, cismáticos e excomungados".

No altar, o sacerdote rezava a missa em latim, de costas para os fiéis, como determina o Rito Tridentino (Leia no fim deste texto: Você sabia?). "A comunidade permanece em comunhão com a Igreja Católica. (as sanções) São totalmente inválidas, nulas, não têm nenhum efeito", declarou ao Correio ao ser questionado sobre a excomunhão do Vaticano e a nota da Arquidiocese. 

Contestação

Ao Correio, o Padre Françoá contestou a declaração pública da Arquidiocese e disse que, na avaliação da FSSPX, tanto a excomunhão quanto a acusação de cisma não produzem efeitos canônicos. "A própria lei da Igreja, no Direito Canônico (seja o Código de 1983, ou o de 1917), nos protege de tal maneira que não há excomunhão, nem cisma em momento nenhum", afirmou.

Mesmo com o aviso da Arquidiocese aos fiéis, Françoá garantiu que a rotina da comunidade permanece inalterada. "Estamos muito em paz, porque sabíamos da invalidade das excomunhões e dessa declaração de cisma. Somos católicos, permanecemos católicos e unidos ao Papa Leão XIV. E rezando também pelo arcebispo de Brasília, Dom Paulo Cezar", disse.

Questionado se a posição da capela representa um ato de desobediência à Arquidiocese, o sacerdote negou. "A nossa visão das coisas é obediência àquilo que a Igreja Católica sempre falou, à missa tradicional como ela sempre rezou, aos sacramentos como ela sempre os entregou e à pregação como sempre os apóstolos ensinaram", afirmou.

Na avaliação do sacerdote, a FSSPX preserva a tradição da Igreja. Em seguida, criticou mudanças promovidas após o Concílio Vaticano II. "Quem tem que se explicar sobre doutrinas erradas é essa Igreja moderna (a qual chamamos de igreja conciliar) que quer nos forçar a aceitar esse modernismo. Não aceitamos essas doutrinas perversas, as quais destroem as almas, e que entraram na Igreja. Vamos continuar lutando contra elas." O sacerdote não detalhou quais seriam as doutrinas.

Críticas

Entre os fiéis, o posicionamento da Arquidiocese de Brasília foi recebido com críticas. Para o estudante Daniel Serafim, de 24 anos, o comunicado reflete um distanciamento da Igreja em relação aos católicos que preferem a liturgia tradicional. "Existe um abandono, por parte da Arquidiocese, dos fiéis que querem seguir as normas e doutrinas tradicionais da Igreja. Mas hoje, a missa estava lotada e apareceram pessoas novas. Muita gente viu a notícia e veio, porque queria conhecer", disse.

Os frequentadores da Capela Santo Atanásio também defenderam a manutenção da missa segundo o rito anterior ao Concílio Vaticano II. Para Maria Aparecida, de 22 anos, a FSSPX entende que as reformas litúrgicas implementadas após o concílio abriram espaço para interpretações consideradas inadequadas pela comunidade. "Acredito que as mudanças implementadas abrem lacunas para ambiguidades na doutrina", afirmou, sem detalhar o que seriam essas lacunas. 

Marcos Soares, 22 anos, afirmou que, na visão dos integrantes da comunidade, a FSSPX atua em um "estado de necessidade" diante do que considera uma crise doutrinária na Igreja Católica. "Vemos que, fora do contexto tradicional, a busca pela santidade e virtudes não é levada tão a sério", afirmou.

Outro integrante da comunidade, Vitor Vidal, 18 anos, decidiu deixar a função de cerimoniário na Catedral Metropolitana de Brasília para frequentar a Capela Santo Atanásio. Segundo ele, a decisão foi motivada pela identificação com a liturgia tradicional e por críticas a práticas adotadas em algumas celebrações da Arquidiocese. "Tivemos aqui casos de profanação do altar e adoção de muitas práticas carismáticas durante a missa. Resolvi abraçar a tradição", declarou.

Para a Arquidiocese, as celebrações e demais atividades realizadas na Capela Santo Atanásio são "consideradas irregulares" por não ocorrerem em comunhão com o papa nem com o arcebispo de Brasília.

Para saber mais 

Segunda expulsão da Fraternidade  

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) voltou a ser declarada em situação de cisma pelo Vaticano após realizar, em 1º de julho de 2026 (38 anos após a primeira expulsão), a ordenação de quatro bispos em Écône, na Suíça, sem autorização do papa Leão XIV, levando à excomunhão dos bispos envolvidos e dos quatro novos prelados. 

O grupo havia sido expulso da Igreja em 1988, quando o arcebispo Marcel Lefebvre (fundador da fraternidade), ordenou quatro bispos sem a autorização oficial do Papa João Paulo II. A pena havia sido suspensa pelo Papa Bento XVI, numa tentativa de reconciliação.

Você sabia?

O Rito Tridentino, também conhecido como Missa Tridentina ou Rito Romano Tradicional, é a forma de celebração da missa codificada pelo papa São Pio V em 1570, após o Concílio de Trento (1545-1563), seguido pela Igreja Católica por quase quatro séculos. Celebrada integralmente em latim, a liturgia é marcada pelo sacerdote voltado para o altar, pela ampla utilização do canto gregoriano, por momentos de silêncio e pela distribuição da comunhão aos fiéis de joelhos e diretamente na boca.

Hipertexto 1

O Rito Tridentino, também conhecido como Missa Tridentina ou Rito Romano Tradicional, é a forma de celebração da missa codificada pelo papa São Pio V em 1570, após o Concílio de Trento (1545-1563), seguido pela Igreja Católica por quase quatro séculos. Celebrada integralmente em latim, a liturgia é marcada pelo sacerdote voltado para o altar, pela ampla utilização do canto gregoriano, por momentos de silêncio e pela distribuição da comunhão aos fiéis de joelhos e diretamente na boca.

Segunda expulsão da Igreja

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X (FSSPX) voltou a ser declarada em situação de cisma pelo Vaticano após realizar, em 1º de julho de 2026 (38 anos após a primeira expulsão), a ordenação de quatro bispos em Écône, na Suíça, sem autorização do papa Leão XIV, levando à excomunhão dos bispos envolvidos e dos quatro novos prelados. 

O grupo havia sido expulso da Igreja em 1988, quando o arcebispo Marcel Lefebvre (fundador da fraternidade), ordenou quatro bispos sem a autorização oficial do Papa João Paulo II. A pena havia sido suspensa pelo Papa Bento XVI, numa tentativa de reconciliação.


 

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postado em 13/07/2026 04:31 / atualizado em 13/07/2026 05:27
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