
Quando repouso as mãos sobre o teclado, algo de estranho acontece. Não é iluminação divina, muito menos fluxo de consciência criativo e constante. É mais errático e confuso do que isso. Na maior parte das vezes, os movimentos são estimulados pelo compromisso, aquilo que incluímos na rotina por uma obrigação com alguém. Nesse caso, é com vocês, os leitores.
Em raras ocasiões, a inspiração é tão arrebatadora que o texto quase se escreve sozinho, apesar de não haver nenhum vínculo com o divino. De fato, existem momentos, ainda mais raros, em que uma prece pode ser bem-vinda. Um pedido à nossa padroeira por uma ideia que preencha as minhas tão queridas linhas.
Tem vezes que debaixo do chuveiro surgem as melhores, sem que nem mesmo eu peça ou que haja qualquer intencionalidade. O maior risco, nesse caso, nem é ter uma ideia ruim, mas, sim, esquecê-la na velocidade em que fecho a torneira. Uma nota no celular ou na agenda pode ser boa conselheira, mas a soberba prevalece a qualquer tentativa de ajudar o HD interno.
A praticidade do envio direto pela rede faz da escolha pelo computador a campeã. Muitas vezes, o próprio celular é meu recurso, mas não permite muitos erros e exige que eu seja mais direta. Nada de cortar aqui e colar ali ou de realocar grandes partes do texto para fazer algum ajuste mais robusto. A primeira chance é a última. Ou isso, ou precisarei dar um jeito de encontrar equipamento melhor.
O papel é sempre uma opção, apesar de menos cômoda. Gosto de escrever usando diferentes cores ou caneta-tinteiro ou mesmo uma lapiseira de grafite bem macio, quase de desenho. Há anos não escrevo à mão com regularidade. Uso muita força para imprimir a letra no papel e o punho acaba cobrando o preço. Já tive de engessá-lo quando cursava o ensino médio tamanho o exagero.
Brasília é quase sempre o ponto de partida, ou algo que a orbita, seja sentimento, seja acontecimento. Afinal, a crônica é da cidade. Um fato do cotidiano, uma lembrança, uma história, algo que percorreu suas ruas e impregnou suas edificações e construiu memória.
Depois desse processo, diário ou semanal — mas sempre regular, como a crônica nos insta a ser — sai o texto, com as peculiaridades desse método que o acompanhou. Minha vontade era entregá-lo a cada um acompanhado de um café quentinho e um ramo de alfazema fresco e cheiroso.
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