Estimativa do Unicef aponta que, de 2023 até 2025, a quantidade de crianças zero-dose no Brasil, ou seja, aquelas que não receberam nenhuma dose de vacina no primeiro ano de vida, caiu em cerca de 90%. Em entrevista ao CB.Saúde — parceria entre o Correio Braziliense e a TV Brasília — Fabrício Nunes da Paz, pediatra e professor da Universidade Católica de Brasília, falou, ontem, sobre a importância de combater a desinformação para fazer com que esse número chegue a zero. Às jornalistas Carmen Souza e Paloma Olivetto, o especialista também disse sobre como identificar sinais de sarampo na criança e sobre a vacina para gestante para reduzir casos de bebês internados com bronquiolite. Confira, a seguir, os principais pontos.
A notícia do Unicef sobre a redução no número de crianças zero-dose é para celebrar. No entanto, há pelo menos 255 mil crianças ainda não protegidas. Por que precisamos zerar esse número?
É um número para se comemorar. Nesse período em que houve aumento de crianças sem dose-zero, vimos algumas doenças que não víamos mais reaparecerem no Brasil. Alguns casos de sarampo, por exemplo. Com a conscientização das pessoas, com elas aderindo de novo às vacinas, esse número cair cerca de 90% é excelente. A criança chega ao mundo só com os anticorpos da mãe. Colocá-la o quanto antes com as vacinas adequadas e protegê-la das doenças mais graves, como pneumonia e meningite, é fundamental. Então, esse é um dado que nos alegra muito, mas precisamos continuar o trabalho para que isso só melhore.
O que o senhor avalia que impede as pessoas vacinarem as crianças?
Nos últimos anos, o que mais vimos, infelizmente, foi a desinformação. Elas têm se disseminado muito facilmente e não têm tido tanto filtro. Muitas vezes, as pessoas recebem dados sobre vacinas que não são verdadeiros. Nesse estudo do Unicef, uma das primeiras recomendações feitas é sobre informação. As pessoas achavam que algumas vacinas ofereciam risco de Transtorno do Espectro Autista (TEA) ou de alguma outra doença mais grave, e nem sempre isso era verdadeiro.
Recentemente, o Brasil recuperou o certificado de país livre do sarampo, mas a América está em situação de alerta com relação a essa doença. Quais são os sinais de que a criança está com o vírus?
Geralmente, o sarampo é uma doença que simula, de primeira, uma gripe. Isso acontece porque ela causa muitos sintomas respiratórios, como tosse. Depois, começam a aparecer sintomas específicos. São aquelas manchinhas avermelhadas e aqueles linfonodos que as pessoas chamam popularmente de íngua. Eles começam atrás da orelha e vão descendo. A criança tende a ficar muito mais prostrada do que com uma síndrome gripal. É uma doença que derruba muito.
No Brasil, houve uma redução de metade dos casos de bebês internados com bronquiolite. Isso está relacionado à vacinação das gestantes?
Ano passado, o Ministério da Saúde implementou a vacinação para a gestantes, para um vírus específico chamado Vírus Sincicial Respiratório, que é responsável, em média, por 70% dos casos de bronquiolite. A gestante recebe essa imunização e já lança anticorpos para a criança, para que ela venha ao mundo bem protegida. Além disso, também foi liberado mais um imunomodulador chamado nirsevimabe. Anteriormente, a gente fazia a prevenção com o que se chamava palivizumab. É como se fosse um anticorpo que colava no vírus e impedia que ele colasse no pulmão, dizendo de forma geral. Ele era muito destinado para crianças que tinham doença no coração, doenças crônicas do pulmão ou eram prematuros. Só que ele tinha que ser feito em cinco doses, porque ele só tem duração de um mês. O legal desse nirsevimabe é que ele precisa de dose única. A princípio, estão ofertando para todo paciente prematuro, mas a ideia e o desejo da Sociedade Brasileira de Pediatria é que seja feita em todo e qualquer paciente. Acredito que daqui a pouco, quando estiver mais bem implementado, a gente consiga fazer isso.
Há uma janela ideal para que a gestante seja imunizada?
Sim. Geralmente ela tomando a vacina por volta do terceiro trimestre, já dá para proteger bastante o bebê.
É uma vacina 100% segura?
É uma vacina bem segura. Foi testada por anos e anos. É algo para, realmente, revolucionar a pediatria, porque a bronquiolite é disparada a doença que mais traz internação na pediatria e agravamento dos pacientes. Lembrando que as duas estratégias são ofertadas pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
*Estagiária sob supervisão de Márcia Machado
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