Ser repórter de Cidades não é só uma escola para qualquer jornalista, é uma aula de humanidade. O cotidiano na editoria é desafiador. Somos responsáveis pela cobertura do dia a dia na cidade. Notícias ruins fazem parte da nossa rotina diária. A gente se acostuma com atropelamentos, acidentes, velórios, tragédias. "A gente é de Cidades, mas a gente é limpinho", costumo brincar, desde que comecei a trabalhar na editoria. Sol, chuva, seca, lama, acidente, sangue, lixo, cadáver, doença, ratos, escorpiões. Somos testemunhas dos mais diversos tipos de agruras. Tem que ter estômago. Mais do que isso, é preciso ter coração, sensibilidade. Não é raro estarmos frente a frente com mães enlutadas, manifestantes revoltados, famílias em busca de justiça, pessoas doentes na fila do hospital, órfãos do feminicídio, etc.
Sol, chuva e seca, para nós, não significam apenas mudanças climáticas; significa, entre muitas outras coisas, ir às ruas conversar com quem tem as vidas afetadas pelas alterações de temperatura, conversar com agricultores que têm o ciclo de produção interrompido porque não choveu, ouvir médicos e bombeiros para oferecer à população dicas de cuidado com a saúde. É muito mais do que escrever uma matéria dizendo que a temperatura caiu ou subiu, é pensar em como isso vai afetar a vida das pessoas.
Cobrir um acidente nunca é só descobrir horário, local e a quantidade de vítimas. Quando o caso é grave, além de noticiar, precisamos ouvir os sobreviventes, apurar se o motorista estava alcoolizado, levantar número de acidentes naquele local durante um determinado período etc. O bom repórter de Cidades busca humanizar a pauta e fazer o que estiver ao próprio alcance para, por meio de informações confiáveis, evitar que aquela tragédia se repita no futuro.
Rotineiramente, descobrimos do que o ser humano é capaz. Crimes sexuais, abuso psicológico, cativeiro… Requintes de crueldade fazem parte da criminalidade e, consequentemente, da nossa rotina de cobertura. Construir o perfil de vítimas de crimes e acidentes é outro trabalho comum. Mostrar quem foi aquela pessoa e o que ela deixou de legado é uma forma de honrar a memória e não deixar que ela se torne apenas estatística.
Mas cobrir Cidades é mais do que tudo isso: dar boas notícias também faz parte da nossa missão. Contar histórias de superação, divulgar grandes conquistas de brasilienses e dar voz às minorias não tem preço. É muito gratificante poder divulgar o trabalho de mulheres cientistas que descobriram uma máscara que neutraliza o vírus da covid-19, escrever sobre bilhetes de amor esquecidos dentro de livros em sebos, fazer matéria sobre a potência do teatro em Brasília. Uma reportagem sobre a importância do combate ao bullying que fiz em 2023 foi parar em um livro didático de língua portuguesa do 8º ano. Tudo isso eu já fiz na editoria de Cidades. Tem coisa que vai ficar guardada para sempre na minha memória e na minha retina.
A inteligência artificial jamais vai substituir quem faz um bom trabalho. Afinal, a tecnologia pode processar dados e gerar relatórios em segundos, mas nunca saberá ouvir o tremor na voz de quem perdeu tudo, nem o momento exato de acolher uma lágrima antes de fazer a próxima pergunta. A notícia nasce dos fatos, mas o bom jornalismo nasce da empatia. Uma vez repórter de Cidades, nunca mais um ser humano qualquer.
